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Cultura

Cultivar livro e leitura num país diverso, mas oral

por Jéferson Assumção — publicado 18/08/2015 15h44, última modificação 20/08/2015 15h05
Pouco letrada, ao longo da história, população não tem relação forte com o livro. Mudar este cenário exige ser preciso ser antropofágico, nunca cartesiano
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Criolo, poeta e músico, participa de sessão da Cooperifa, em S.Paulo. Saraus suburbanos multiplicaram-se na última década. Para Jeferson Assumção, “prática da leitura, no Brasil, deve ser tão especial quanto é o país”

O artigo A Dimensão Cultural da Leitura, do ex-ministro da Cultura, Gilberto Gil, publicado no caderno do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), em 2006, traz uma frase que considero ser a chave para uma política de livro e leitura a ser desenvolvida no Brasil:

“É necessário também pensar o modo como essa prática leitora se articula com nossa cultura, tão nossa, tão brasileira, tão rica em sua oralidade e espontaneidade, mas ainda pobre em sua dimensão escrita. Se desenvolvê-la nessa direção não é tarefa fácil, com certeza ela só se realizará plenamente se feita em consonância e respeito com a diversidade cultural de nosso povo, de modo a potencializá-la e não suprimi-la”.

De fato, a diversidade cultural (cuja convenção da Unesco para sua defesa e promoção completa dez anos em 2015) se trata de um dos desafios mais importantes a que uma política de livro e leitura deve se ater em um país com nossas dimensões e peculiaridades territoriais e culturais. Uma megadiversidade tão cheia de interiores e com eles suas riquezas, amazônicas, sertanejas, agrestes, pantaneiras, pampeanas impõe a quem quer que aqui desenvolva o livro e a leitura um olhar ainda mais plural que em outros territórios e países menos heterogêneos.

A população brasileira, formada basicamente por três grandes blocos: os indígenas e os africanos, ágrafos, e os portugueses, cujo nível de alfabetização sempre foi o menor da Europa e em seguida enriquecida por povos de todos os quadrantes da Terra, é belo resultado de uma especial mistura. 

No entanto, ao permanecer por séculos longe dos livros – até o ano de 1808 Portugal proibia que se fizessem livros no Brasil – e com uma educação rarefeita até mais da metade do século XX, chegamos ao século XXI com elevados índices de analfabetismo absoluto (cerca de 10% da população) e uma relação recente e problemática com o livro e a prática leitora.

Diferentemente da maioria dos países da Europa, por exemplo, em que a literatura e o livro cumpriram um enorme papel social e político, no Brasil a relação com o livro só se desenvolve, ainda que de forma muito precária, em escala social, depois da relação com os meios de comunicação de massa. E, hoje, com os meios digitais.

Mas, então, como cultivar a leitura neste contexto adverso? Temos um mapa, pelo menos. Precisamos desenvolver políticas e ações que se orientem pelos cinco princípios norteadores do PNLL:

1) O Livro deve ocupar um lugar de destaque no imaginário coletivo;

2) Deve haver escolas que saibam formar leitores;

3) Devem existir famílias de leitores;

4) Melhor acesso ao Livro; e

5) Um melhor Preço do livro.

E, assim como sem leitura o Brasil não se tornará uma pátria educadora, uma política de leitura para o Brasil de nosso tempo necessita estar intimamente ligada à Educação e à vida na escola, focando principalmente a faixa entre os 7 e os 14 anos, período em que a prática leitora se desenvolve e tem chances de se consolidar. E contar com as necessárias parcerias com a sociedade civil organizada, as redes, coletivos e o mercado do livro.

Megadiversidade

Precisamos relacionar a leitura com a cultura, num contexto de megadiversidade. País antropofágico, de tradições e inovações, de modernidades e arcaísmos, de hibridismos e identidades, de urbes tão imensas quanto seus campos, florestas e faixas litorâneas, o Brasil impõe-se como desafio de multiplicidade a qualquer prática cultural em seu território, entre elas a da leitura e da literatura.

Um país com tantas fontes, indígenas, negras, europeias, asiáticas olha para o mundo e é olhado por ele de maneira especial. A prática da leitura, por aqui, também deve ser tão especial quanto o Brasil é.

Temos que desenvolver a leitura no Brasil a partir dos pressupostos culturais de sua singular formação. Antropologicamente, historicamente, sociologicamente, a tarefa de fazer do Brasil um país leitor não pode ser articulada de maneira instrumental, funcional, ao desenvolvimento econômico e mesmo social sem ser qualificado pela especificidade de sua cultura, sob pena de achatar-se e não acompanhar sua própria grandiosidade.

Também, para o desenvolvimento de uma visão sistêmica de leitura, é preciso, junto com a leitura solitária, cartesiana, fundamental para a formação do olhar íntimo do leitor silencioso, a leitura solidária, aberta, dialogante com a diversidade cultural e com a cultura digital contemporâneas.

Fundamental é desenvolver diálogos estratégicos entre Cultura e Educação, Cultura e Comunicação, com a Sociedade (redes e coletivos de cultura, pontos de cultura etc) e com as Políticas Culturais de nosso País. Com isso, podemos, a sociedade e os governos, articular grandes ações dentro e fora da escola, como escritores nas escolas, tal como o Rio Grande do Sul faz com sucesso há cerca mais de 30 anos; campanhas de visibilidade da leitura e da literatura; trabalhar o já grande acervo de literatura distribuído em todo o Braisl pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola, do MEC; desenvolver ações na linha Formação literária e difusão cultural, recentemente incluída no Mais Cultura nas Escolas; atuar em ações de visibilização das atividades realizadas nas periferias, centros urbanos e interior do Brasil (saraus, festas literárias, rodas de leitura etc) pelas redes, coletivos e as mais de mil bibliotecas comunitárias do Brasil.

É preciso ajudar na articulação em rede dessas inúmeras iniciativas, com editais específicos para as narrativas urbanas, indígenas, negras etc. Precisamos também mostrar a exemplaridade de bibliotecas públicas e comunitárias, com um selo Biblioteca Viva, além de realizar ações no sentido de promover a língua portuguesa, como veículo para a difusão da produção cultural brasileira em todas as linguagens, desde a literatura, a música popular, cinema, teatro, manifestações populares etc.

Essas e outras ações só serão possíveis com o esforço de muitos (governo, parlamentares, sociedade, movimentos, mercado) em prol de ações estruturantes, entre elas, aprovar no Congresso Nacional o Projeto de Lei do Plano Nacional de Livro e Leitura – PNLL, criar o Fundo Setorial Pró-Leitura; e recuperar a institucionalidade do livro e da leitura no País por meio de um Instituto Nacional do Livro, Leitura e Literatura. Muito já foi feito, mas muito ainda é necessário para que a riqueza da cultura brasileira se amplie também na dimensão escrita.