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Cultura

Humor e crítica

Os quadrinhos desconcertantes de Rafael Corrêa

por Gabriela Leite e João Rabello — publicado 04/09/2015 21h02, última modificação 08/09/2015 10h51
Artista gaúcho com notável poder de síntese e traço leve e sugestivo encara agora o desafio de desenhar sua própria doença
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Rafael Corrêa, 39 anos, é um importante quadrinista gaúcho reconhecido mundialmente: já foi premiado em salões internacionais de países como a Argentina, Alemanha, Turquia e Armênia. Sua notável capacidade de síntese permite-lhe criar quadrinhos com pouco diálogo, mas muito significado. No mês passado, uma tira sua foi premiada no Salão de Humor de Piracicaba.

Alguns de seus cartuns falam sobre amor, outros são bastante políticos. Mas seu projeto mais novo trata de um tema mais difícil para ele. Em 2010, Rafael descobriu que havia desenvolvido esclerose múltipla, doença degenerativa grave, que atinge cérebro e medula e compromete aos poucos a capacidade de controlar movimentos e funções do corpo. Mas por que falar sobre um tema tão delicado? “Antes de mais nada, eu sou um contador de histórias, desde criança desenho por esse motivo. Eu já fazia quadrinhos autobiográficos e quando percebi que tinha uma grande história a ser contada o projeto nasceu”, conta.

Rafael publica em média uma página de “Memórias de um esclerosado” por semana. Seus traços refazem o caminho até a descoberta da doença e contam como ela afetou sua vida. Ao contrário do que poderia acontecer, a narrativa não é pesada — apesar de certa melancolia inevitável, o autor fala de sua dificuldade em fazer tarefas cotidianas e a angústia por não saber o que, exatamente, está acontecendo consigo.

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A série é publicada em um site e no facebook. Leia abaixo a entrevista que fizemos com Rafael, por email e mais páginas de “Memórias de um esclerosado”:

Seus trabalhos normalmente são de humor. “Memórias…” traz um tema sério e extremamente pessoal, mas que você trata com leveza. Como é escrever sobre um momento difícil da sua própria vida?

É necessário, eu preciso colocar para fora o que estou passando. Ao mesmo tempo é delicado me expor desta maneira e por esse motivo atrasei o projeto por quase três anos, mas agora chegou o momento.

Você já disse que uma inspiração para seu trabalho foi o livro do quadrinista francês David B. “Epilético”, sobre o irmão dele lidando com a epilepsia. Mas a forma com que vocês dois relatam suas histórias são bem diferentes, não?

Epilético me inspirou não na forma, mas na possibilidade de escrever sobre doença. O livro do David B. é mais denso, até o desenho é mais pesado. Eu tenho uma maneira mais leve de narrar.

"Epilético", do autor francês David B, narra a relação do autor com a doença de seu irmão, que mudou o rumo de sua família.

“Epilético”, do quadrinista francês David B

A recepção do público foi boa? Que efeito você acha que o “Memórias…” tem para você? E para as pessoas que têm lido e acompanhado a história?

Com esse projeto busco uma jornada de autoconhecimento, como se fosse uma terapia mesmo. A recepção do público está ótima, muito maior do que eu esperava. Não fiz o “Memórias” com a intenção de ajudar as pessoas que têm esclerose múltipla, mas estou vendo que elas se identificam e isso auxilia de alguma maneira.

Você acha que o “Memórias…” tem atraído um público diferente do que normalmente costuma ser os seus quadrinhos? É um trabalho que chama novas pessoas pela temática?

Sim, pelos comentários no facebook vejo que a maioria do público não é de leitores habituais de quadrinhos e sim que foi atraída pelo tema. Isso é legal pois pode formar novos leitores.

Como é colocar a si mesmo como personagem? Essa exposição a pessoas que você não conhece incomoda?

Incomoda mais a exposição às pessoas que conheço.

Podemos esperar pelo livro “Memórias de um Esclerosado”?

Sim, esse é o plano.

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Como se dá seu processo criativo, de maneira geral? Qual o ponto de partida para criação de um cartum, por exemplo?

Quando eu era estudante penava para fazer uma redação em trinta linhas, com vinte eu já tinha escrito tudo o que precisava. Então eu fazia uma letra enorme só para completar o espaço. Eu admiro muito os artistas que falam com pouco, como Steinberg, Sempé, Bosc etc, e esse estilo eu tento aplicar nos meus cartuns. Tem cartuns que nascem espontaneamente, mas normalmente eu seleciono um tema (imigração, por exemplo) e ligo o modo cartum. Nesse momento não adianta ir para a mesa de desenho porque não vai sair nada, vai sair quando eu estiver lavando louça ou tomando banho.

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Quando você começou a fazer quadrinhos? Como você vê as mudanças pelas quais a HQ brasileira passou desde então?

Comecei com dez anos mas foi só aos 14 que publiquei minha primeira tira em jornal. Os anos 90 foram uma merda, várias revistas fecharam e o mercado praticamente sumiu. Hoje, na minha opinião, vivemos a melhor época dos quadrinhos nacionais. Temos grandes artistas e possibilidades de publicar, seja de maneira independente, bancando do bolso ou por crowdfunding, ou se inscrevendo em editais públicos (ainda tímidos, eu sei) ou ainda buscando as editoras. Até quando vai essa boa fase eu não sei, mas temos que aproveitar.

Em que veículos de comunicação você costuma publicar os seus trabalhos?

Publico de maneira independente e eventualmente na MAD e Folha de S. Paulo.

Quais são os quadrinistas que você admira? O que eles têm de especial?

Gosto do Guy Delisle e David Mazzucchelli, no Asterios Polyp. Ambos pela precisão narrativa e pela simplicidade.

Leia “Memórias de um esclerosado”:

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Continue lendo no site “Memórias de um esclerosado”.