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Internacional

Os curdos numa armadilha da História

por Nuno Ramos de Almeida — publicado 16/10/2014 17h54, última modificação 16/10/2014 18h29
Estão cercados: Estado Islâmico e OTAN querem afogar a semente da liberdade e a ideia de que pode haver no Oriente Médio mulheres e homens iguais
Zein al-Rifai / AFP
Curdos na Turquia

Refugiados curdos sírios que fugiram de Kobane, na Síria, em campo de refugiados de Suruc, na Turquia

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

No filme Yol, “caminho” em turco, realizado a partir da prisão pelo realizador curdo Yilmaz Guney, são contadas as histórias de cinco presos que saem em licença precária da cadeia. Um deles dirige-se para a sua terra, no Curdistão ocupado pelos turcos. Numa das sequências mais belas pode ver-se o esforço dos cavalos de correrem livres pelos campos salpicados de mortos, em que os cadáveres de centenas de pessoas massacradas são transportadas em camionetas de caixa aberta, literalmente a escorrer sangue. Yilmaz teve uma vida difícil. Curdo na Turquia a contar histórias das suas gentes cedo chamou a atenção das autoridades. Foi preso pela primeira vez em 1974 por albergar anarquistas. Continua a escrever e a filmar. É preso novamente e é condenado a 15 anos de prisão. A acusação é de estar envolvido num atentado mortal. Na Turquia todos os curdos estão condenados. A história da pseudodemocracia turca é a história das prisões dos deputados, dirigentes, militantes e votantes dos partidos curdos, que são legalizados para depois serem presos todos aqueles que aparecem à luz do dia. Ser curdo é, na melhor das hipóteses, uma condenação à morte. Regra geral, são condenados a viver numa ditadura para sempre. Yilmaz nunca aceitou as grades que lhe impunham. Libertou-se da prisão pela escrita e pelo pensamento, e com ajuda de camaradas conseguiu dirigir Yol, um filme duro feito de carne e osso que ganhou a Palma de Ouro de Cannes em 1986. Posteriormente conseguiu mesmo escapar da cadeia e refugiar-se em França. Os turcos retiram-lhe a nacionalidade. Morreu de câncer com 47 anos, mas morreu sem o ferrete do opressor.

Os curdos são vítimas das fronteiras de regra e esquadro traçadas pelo colonialismo. São a maior nacionalidade sem estado. São mortos no Irã, assassinados na Turquia, gaseados no Iraque, reprimidos na Síria. Os burocratas de Bruxelas e os comandantes de drones de Washington declararam “terroristas” as organizações que combatem pela sua libertação. A vida tem sempre vários lados; os resistentes franceses eram enforcados como terroristas pelos nazis. Os judeus que morreram de armas na mão nas ruas do gueto de Varsóvia foram apelidados de bandidos, criminosos, pela imprensa dos seus carrascos. Os curdos resistiram contra tudo e contra todos durante dezenas de anos. A seu favor apenas a vontade de ser livres.

Uma noite em que dormi numa casa do PKK em Madrid, estava na cidade para preparar uma reportagem que fiz com as FARC colombianas, e tinha combinado a possibilidade de ir em reportagem para as áreas controladas pela guerrilha curda, vi uma série de vídeos de propaganda. Alguns tinham imagens de manifestantes curdos que se imolavam pelo fogo nas ruas da Alemanha, numa tentativa desesperada de chamar a atenção para um povo condenado à invisibilidade.

Com a queda do regime secular do Iraque e a guerra civil da Síria. as áreas curdas ganharam liberdade. “A Região Autônoma da Rojava é um dos poucos pontos brilhantes a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais responsáveis têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou armênio cristão, e pelo menos um dos três tem de ser uma mulher). Existe um exército feminista, a milícia YJA Star (União de Mulheres Livres, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico”, escreve David Graeber, antropólogo e ativista do Occupy Wall Street no The Guardian.

Hoje em Kobane, as centenas de combatentes curdos que se batem contra o Estado Islâmico — vigiados ao longe pelos tanques turcos, que estão lá para evitar qualquer vitória destas pessoas sobre a morte — são dirigidos por uma mulher. Mais uma vez os curdos estão cercados: o Estado Islâmico e a maior potência da NATO na região querem afogar em sangue a semente da liberdade dos curdos e provar que não pode haver na região um povo livre em que as mulheres e os homens são iguais.

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