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Cultura

Gonçalo Tavares: a literatura para percorrer o verso

por Bruno Lorenzatto — publicado 14/05/2014 18h48
Ao lançar no Brasil novo livro, inspirado em Borges, escritor português aposta na escrita como meio de revelar impasses e intervir na cidade. Por Bruno Lorenzatto
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Gonçalo Tavares

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

 

“Qualquer hábito, qualquer repetição de um ato por mais absurdo que seja,
rapidamente é absorvido: o excepcional transforma-se em poucas semanas;
em certas circunstâncias bastam dias para que o monstruoso
e o informe se faça normalidade e hábito.
No limite: fato que não se dá atenção, paisagem.”
Gonçalo M. Tavares, leitor de Jorge Luis Borges

 

“Qualquer hábito, qualquer repetição de um ato por mais absurdo que seja,rapidamente é absorvido: o excepcional transforma-se em poucas semanas;em certas circunstâncias bastam dias para que o monstruosoe o informe se faça normalidade e hábito.No limite: fato que não se dá atenção, paisagem.”Gonçalo M. Tavares, leitor de Jorge Luis Borges

 

Desde sua primeira publicação, Livro da dança (2001), o escritor português Gonçalo M. Tavares tem se destacado na literatura contemporânea. Seus procedimentos são múltiplos; transita com facilidade entre o ensaio, a poesia e a prosa, criando ressonâncias entre literatura e filosofia. Hoje o autor possui 30 livros publicados e obras traduzidas para mais de 30 línguas, em 46 países. José Saramago, no discuso de atribuição de um prêmio literário a Tavares em 2004, disse: “Gonçalo M. Tavares não tem o direito de escrever tão bem apenas aos 35 anos: dá vontade de lhe bater!”

Seu estilo assim poderia ser descrito: o mínimo de palavras produzindo o máximo de efeito estético – escassez de signos que engendra excesso de sentidos. Uma bomba prestes a explodir ou o oposto: um destroço. O que resta depois da explosão, matéria despedaçada e enigmática que fascina. A destruição de uma realidade e a construção de outra possível.

Elaborar um “mapa da desordem” – aquela que permanece sob as diversas ordens já pensadas (cartografar a desordem é sempre criar uma ordem possível). Mudar a velocidade com que se olha ao redor. Eis algumas definições da literatura, segundo Gonçalo Tavares. “A literatura é perversão”, diz o escritor. Perversão no sentido de que o gesto literário significa percorrer o verso, o lado contrário das coisas: fazer ver justamente aquilo que não está à mostra.

Assim, a literatura pressupõe uma crítica dos lugares-comuns e do pensamento bem-estabelecido. Por trás das evidências e dos consensos, ela descobre problemas e impasses. Diz respeito também à política, mas não no sentido tradicional. Para o autor português, “a literatura deve interferir na política através do aumento da lucidez individual das pessoas. Pessoalmente, não me interessa uma política partidária, mas uma política no sentido de intervenção na cidade, na pólis, na forma como os homens vivem, e penso que aí a literatura é essencial, por ser o espaço da reflexão, de uma certa distância em relação aos acontecimentos e às circunstâncias do mundo.*”

Em Matteo perdeu o emprego (2013), último livro de Tavares publicado no Brasil, o alfabeto aparece como sistema de classificação cuja lógica é absurda.

A história começa com Aaronson e quase termina com Matteo (pois há ainda Nedermeyer), entre eles personagens que são apresentadas por ordem alfabética. Um critério simples, mas que nada pode ordenar de forma coerente dada sua arbitrariedade. Após ler o posfácio do livro – belo ensaio que vem como espécie de suplemento à história, escrito pelo próprio Gonçalo – dá-se conta de que a ficção faz ver algo de absurdo no mundo real. É preciso então fazer um recuo.

No conto “O idioma analítico de John Wilkins”, de Jorge Luis Borges, descobrimos uma impensável enciclopédia chinesa em que os animais são classificados do seguinte modo: “(a) pertencentes ao Imperador; (b) embalsamados; (c) amestrados; (d) leitões; (e) sereias; (f) fabulosos; (g) cães vira-latas; (h) os que estão incluídos nesta classificação; (i) os que se agitam feito loucos; (j) inumeráveis; (k) desenhados com um pincel finíssimo de pelo de camelo; (l) et cetera; (m) os que acabaram de quebrar o vaso; (n) os que de longe parecem moscas.” Uma taxonomia que desconcerta por sua impossibilidade, pelo fracasso lógico que a estabelece e a impede de classificar. Não é a estranheza das descrições (que estabelecem as semelhanças e diferenças) de cada item que arruína a ordenação. Estes seres reais e imaginários poderiam se encontrar perfeitamente numa ficção, desde que um elo os ligasse – um espaço comum possível em que seriam justapostos ou enumerados; por exemplo, uma floresta imaginária. Mas, na enciclopédia chinesa, o espaço desse encontro é impossível: a sequência das letras do alfabeto. Como observa Michel Foucault, sobre o texto de Borges, “o que transgride toda imaginação, todo pensamento possível, é simplesmente a série alfabética (a, b, c, d) que liga a todas as outras cada uma dessas categorias**” (p. 10).

Voltando ao livro de Gonçalo Tavares, nele tomamos conhecimento de histórias e personagens que remetem ao realismo fantástico de Borges, tais como: um improvável homem que lava e restaura meticulosamente restos de objetos que resgata do lixo e secretamente os coloca como se fossem novos nas prateleiras de um supermercado; um professor e seus alunos que resistem ao prolongado e progressivo acúmulo de pilhas de sacos de lixo – devido à greve dos funcionários responsáveis pela coleta – que invadem a sala de aula (é assim que os estudantes, quando adultos, poderão suportar o mau cheiro e ser indiferentes ao que fede em suas vidas civilizadas); ou ainda, os últimos homens sensatos – que restam numa ilha de loucos – resolvem fugir e enlouquecem na “barca da razão”.

Mas se o espaço borgiano da impossível taxonomia dos animais é exclusivamente o vazio do alfabeto, aquilo que impossibilita a relação de uma coisa com a outra, a ordenação de Gonçalo fixa no espaço possível dos acontecimentos aleatórios nomes que seguem a ordem do alfabeto e nomeiam esses acontecimentos.

Na evolução do texto de Matteo perdeu o emprego, não há nenhum elo significativo que possa justificar ou dar consistência causal à combinação segundo a qual são ordenadas as personagens. Estas constituem pequenas narrativas praticamente independentes na medida em que através de um detalhe totalmente casual o leitor é obrigado a passar de Aaronson a Boiman, de Boiman a Camer e assim por diante. Experimenta-se certo desconforto nessa distribuição, constatado o caráter fortuito dos fatos que no interior da história ligam um nome a outro. O critério que faz o romance avançar e que fixa a sequência das personagens é a ordem alfabética.

Como um professor que recita a chamada em sala de aula ou um aluno que espera o momento de sua letra inicial para responder a chamada, para que alcancemos Matteo é necessário percorrer a inútil série do A até o M. “Como se os personagens entrassem em cena não devido ao que fazem, mas à primeira letra do seu nome. O alfabeto é algo que domina, e muito, a civilização ocidental, não é apenas algo que usamos para escrever, é algo que nos organiza.” E aqui chegamos a uma questão fundamental de Matteo perdeu o emprego – a literatura sempre exige uma reflexão sobre o mundo: tomamos consciência de uma ordem que não possui nenhuma lógica – a não ser a arbitrariedade e o acaso que a domina – como um sistema que opera no real, que interfere decisivamente na vida dos homens. Combinação abstrata, simplória, vazia de materialidade, mas que produz efeitos absolutamente objetivos. “Importa isto: o alfabeto como hierarquia, elemento aleatório que dá uma ordem que nos parece sensata. Eis um milagre” (p. 144).

Pelo sentimento de irrealidade que nos causa a ordem alfabética como princípio ordenador da narrativa de Gonçalo, somos jogados de volta à vida, onde antes não percebíamos esse poder surpreendente, quase injusto, das letras; e em sentido mais amplo a arbitrariedade de toda forma de classificação (toda ordenação pressupõe critérios específicos de semelhancas e diferenças). “Sabidamente não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjectural”, afirma Borges.

Pode-se dizer então que o real não existe sem as ficções que o engendram. É preciso que acreditemos em determinadas ficções para que a realidade seja vivida, mas também transformada, quando passamos de uma ficção a outra.

Estranho pensar que por ordem alfabética, somente por ela, podemos juntar no sistema escolar aleatoriamente as pessoas: Ana e Ana Carolina, se não possuem nada em comum, se veem na escola ligadas pelo alfabeto. Também no dicionário as palavras se misturam ao bel-prazer da tirania das letras: lá asno e astro estão mais próximos do que nunca serão no mundo real. Embora isso nos faça rir, há também as consequências perturbadoramente trágicas, “como na escolha dos judeus que seguiriam do gueto para o campo de extermínio. Uma escolha que, certas vezes, seguiu precisamente a ordem alfabética. Se o nome começava por F e a chamada ia já no G, o homem com o nome começado por F estava salvo – pelo menos temporariamente” (p. 157).
*Trecho extraído da entrevista de Gonçalo Tavares disponível em: http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2014/02/09/goncalo-m-tavares-o-meu-trabalho-e-iluminar-palavras/

** Trecho extraído do prefácio de As palavras e as coisas, de Michel Foucault. Editora Martins Fontes, São Paulo, 2007.