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Sociedade

Em São Paulo, a vez da memória operária

por Jéssica Moreira e Larissa Gould — publicado 27/05/2014 17h47
Periferia reivindica recuperar fábrica de cimento que abasteceu Brasil por três décadas, convertendo-a em Centro de Cultura e Universidade Livre
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Imagem: acervo de Nelson Camargo

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

Por Jéssica Moreira e Larissa Gould

Arlindo nasceu em 1950 no Recanto dos Humildes. Mas foi em 1957 que se mudou para a Vila Triângulo, vila operária da Companhia de Cimento Portland Perus, onde os trabalhadores como o pai de Arlindo, Seu Orlando, moravam com suas famílias. E foi ali, nas imediações da indústria, que se deram as maiores lembranças da infância e juventude do menino. Arlindo, como outros tantos jovens da época, já ocupava aquele espaço, antes das greves ou movimentos culturais.

Naquela época, final dos anos 50, os portões eram abertos, as famílias dos operários eram bem-vindas, fosse para levar as marmitas aos pais e maridos, fosse para as travessuras da molecada. “A gente pegava rabeira no trenzinho da fábrica. Quando tinha vagãozinho de cimento, eu entrava e lá ele [o guarda] não via. Não tinha porta, não tinha degrau, nada”.

A reconstrução da história pela memória

Seja pelas lembranças de infância da criançada, recordações dos trabalhadores ou dos moradores e comerciantes dos arredores, a Fábrica de Cimento de Perus faz parte da memória coletiva do bairro e região.

A construção da história local por meio das memórias da antiga indústria é fundamental para criação da identidade de seus moradores. Para além do resgate histórico, é sempre importante lembrar a importância socioeconômica da fábrica em território nacional.

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Para a história não ser esquecida, há mais de 30 anos os moradores, ex-operários, viúvas e filhos de “queixadas” (ver ao final) lutam para transformar o espaço em um Centro de Lazer, Cultura e Memória do Trabalhador. Em 2013, essa causa ganhou novo sentido, com o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus, que reúne os já ativos militantes e os novos simpatizantes da causa, incorporando nas reivindicações a construção de uma Universidade Livre e Colaborativa e centros de pesquisa para agregar o conhecimento comunitário.

Mas por que essa luta é tão importante e por que todos nós devemos incorporá-la?

Primeira fábrica de cimento do Brasil

Inaugurada em 1926, a Companhia de Cimento Porland Perus foi a principal abastecedora de cimento de São Paulo da data de seu lançamento até 1957, quando é construída a Cimento Santa Rita, em Itapevi. Segundo a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI-USP), a antiga indústria foi também a mais moderna e de melhor produção deste período. Além disso, ela foi expoente essencial em grandes construções da capital paulista, como a Av. 9 de Julho e a Biblioteca Mario de Andrade.

De acordo com o historiador Élcio Siqueira, em dissertação de mestrado sobre a indústria, a capacidade de produção da fábrica em 1927 era de 125 mil toneladas e, em 1930, de 200 mil. Siqueira cruza esses números com dados da Associação Brasileira de Produção de Cimento, que apontam que o Brasil consumia no período 496.582 toneladas de cimento, sendo que 125 mil vinham da fábrica de Perus, demonstrando a importância nacional da indústria.

Não era apenas a economia nacional que se beneficiava. A partir da fábrica, o próprio bairro passou a atrair funcionários de diversas regiões do país e do exterior, o que contribuiu para seu crescimento populacional e alavancou a economia local. Segundo Euler Sandeville, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e integrante do movimento, a fábrica data do início da industrialização paulistana, com uma produção em grande escala. “Até a década de 50, a fábrica oferecia cimento para a construção de SP e outros locais. Integrava também um complexo territorial afastado da área urbanizada. Assim, a fábrica é um testemunho importante de pelo menos duas fases da industrialização paulistana, que deve ser vista em conjunto com o patrimônio industrial e operário ao longo da orla ferroviária, em especial Brás e região, e com os processos de urbanização.”

Uma greve de sete anos

Para além das questões locais e urbanísticas, a fábrica traz a luta persistente dos trabalhadores em busca de seus direitos. Estes operários, conhecidos como “queixadas” (porco do mato que sempre luta em bando), mantiveram durante sete anos uma greve organizada pelo conceito de não-violência (de Mahatma Ghandi), conhecido no Brasil como firmeza-ativa-permanente. Ao final do sétimo ano, conseguiram conquistar boa parte de suas reivindicações e, ainda por cima, o direito de voltar a trabalhar. Dentre as reivindicações conquistadas, destaca-se o salário-família, algo pioneiro no Brasil.

Transformação imediata

A importância da fábrica, no entanto, vai além da historiografia. Ela se mostra como um elemento chave para o fortalecimento da identidade coletiva e social da população peruense. Estigmatizado pela grande mídia por ser um bairro em situação de vulnerabilidade social, Perus tem na trajetória da fábrica a oportunidade de mostrar que a história nacional também se faz nas periferias.

Imagem: Arthur Gazeta

Imagem: Arthur Gazeta

A urgência para a desapropriação e restauração das instalações é grande. O professor Sandeville explica que quanto mais essa reconstrução demora a ser feita, mais cara e difícil se torna. “O prédio fica em risco crescente com o abandono, sem qualquer punição ao proprietário ou qualquer ação efetiva do poder público até o momento. É urgente um estudo e um laudo técnico sobre o edifício. Sempre é possível restaurar, mas os custos aumentam com a deterioração estrutural do edifício”.

Independentemente da ação do poder público, as mudanças já podem ser notadas. Para o professor, a transformação do prédio industrial em uma Universidade Livre e Colaborativa, de certa forma, já está acontecendo. “Não estamos esperando, estamos fazendo criativamente, produzindo conhecimento, cultura, educação e a Fábrica já é nossa sede simbólica mesmo quando somos impedidos ainda de utilizá-la em sua potencia real, como são nossos espaços de aula outros tantos espaços de Perus que nos acolhem”, explica Sandeville, que desde 2012 traz aulas optativas da USP para o espaço.

Nas redes sociais

Assim como os meninos da geração de Arlindo já ocupavam o prédio, as ações do Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus, de outros coletivos e pessoas autônomas já fazem a difeença. Criado pelo movimento, o grupo no Facebook “Eu uso a Fábrica de Cimento para …”, já reúne mais de 300 pessoas, entre artistas, fotógrafos, jornalistas, professores e diversos cidadãos que de alguma forma usam ou usaram a Fábrica. A página oficial do movimento já tem mais de 1.500 amigos. Nos últimos três dias, conquistou 350 novos curtidores, com a divulgação da campanha#usopublicofabricadecimentoperus, que já recebeu mais de 50 contribuições.

Imagem: Sonia Bischain

Imagem: Sonia Bischain

Mas para a completa e legalizada utilização do prédio é imprescindível a desapropriação e regulamentação do terreno e do prédio. O projeto proposto pelo movimento inclui, além das instalações da fábrica, a vila operária e os casarões ao redor da fábrica. “Deve ser pensada em conjunto, a fábrica não é só o edifício produtivo, é um conjunto, e mais, uma configuração de paisagem”, afirma Sandeville.

O professor explica ainda que não é preciso muitas intervenções estruturais para que o prédio possa ser colocado em uso imediatamente. “O uso dessas instalações, para a universidade e o Centro de Memória do Trabalhador pode ser imediato. Com pequenas intervenções, já dá para instalar um núcleo básico, e ir aos poucos ampliando as áreas de uso, através de intervenções de custo muito baixo”.

I Caramanchão Cultural

Para relembrar as memórias e lutas da primeira companhia de cimento do Brasil, o Movimento pela Reapropriação da Fábrica de Cimento de Perus (região noroeste) realiza no dia 31 de maio o 1º Caramanchão Cultural, que acontece das 10h às 22h, em diversos pontos do bairro, inclusive no portão principal da antiga indústria.

Com mais de 20 atividades, a abertura do evento será às 10h, com exposição fotográfica no calçadão em frente à estação de trem da CPTM. Ainda pela manhã, a Praça Inácio Dias, CEU Perus e passarela de pedestres recebem workshops de literatura, brincadeiras, estampa de camiseta e palestra sobre direito à cidade.

A partir das 13h, artistas, moradores e demais participantes se concentram na praça, de onde sobem em cortejo até o refeitório da Fábrica de Cimento. Às 15h, o portão da indústria se transforma em um salão de baile, recordando as antigas festas que lá ocorriam. Para finalizar, bandas e grupos de dança dominam o palco até as 22h. (Vejaaqui a programação completa).

Para conhecer o movimento e a história completa da Fábrica, entre no bloghttp://movimentofabricaperus.wordpress.com/. A plataforma reuni a agenda do coletivo, datas reuniões, eventos e possui ainda um grande acervo de livros, reportagens e teses sobre os mais diversos aspectos da Fábrica de Cimento Portland Perus.

Quem eram os Queixadas?

Queixadas foi como ficaram conhecidos os sindicalistas do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Cimento, Cal e Gesso de São Paulo, que promoveram diversas greves e conquistaram direitos trabalhistas dos quais ainda hoje usufruímos. A greve mais conhecida do grupo foi a Grande Greve, que durou sete anos (1962-1969). O sindicado ficou assim conhecido, pois eram comparados ao porco do mato Queixada, ao fazer referência ao seu modo de enfrentamento “É o único bicho que quando se sente em perigo, se une em grupo, bate o queixo enfrenta a onça ou o caçador; este tem que se esconder” definiu Nelson Coutinho, em assembleia no sindicato.

Serviço

I Caramanchão Cultural
Data: 31/05 (sábado)
Horário: das 10h às 22h
Locais: Praça Inácio Dias, CEU Perus, Portão principal da Fábrica de Cimento, Passarela de pedestres, Calçadão
E-mail: [email protected]
Site :http://movimentofabricaperus.wordpress.com/
Facebook: https://www.facebook.com/movpelareapropriacaofabricacimentoperus
Imprensa: falar com Jéssica Moreira (11) [email protected] ou Larissa Gould [email protected]