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Sociedade

Conversa fiada, hábito conservador

por Katia Marko — publicado 30/01/2014 19h22
Como hábito de falar incessantemente reproduz valores e reforça competição. Por que diálogos terapêuticos, ou silêncio, podem ser alternativas
Imagem: Fabiano Millani, Silêncio

Imagem: Fabiano Millani, Silêncio

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

Após quase três meses de ausência, resolvi retomar a coluna Outro Viver tratando justamente disso, o silêncio. Em um mundo cada dia mais frenético, cheio de palavras, imagens, manuais e aplicativos, qual o valor do vazio? Pra tudo temos opiniões, explicações, justificativas, conceitos. Nossa mente não para nunca. Nem um segundo de descanso. Mas o que desses tantos pensamentos me pertence realmente?

“Acredito que 4/5 da conversa humana, de todos, no mundo todo, o tempo todo, é conversa fiada, o passatempo fundamental da humanidade.” Ao ler esta frase do psicanalista José Angelo Gaiarsa, no livro Reich – 1980, logo busquei inúmeros contrapontos. Mas acabei cedendo e compreendendo como utilizamos a fala para resistir às mudanças. Quando me proponho a observar mais profundamente o meu sistema de defesa, percebo que ao desobedecer meus velhos padrões de comportamento, o meu ego logo se inflama e faz todo o possível para sabotar minhas iniciativas e fazer com que eu volte ao normal dizendo: “mamãe tinha razão”.

Segundo Gaiarsa, a conversa fiada existe para impedir a veracidade, a intimidade, a emoção, o individual, o sentir. “Só é meu o aqui-agora, só nele posso fazer, acontecer, existir, preparar. Se perco meus momentos, muitos deles, no papo vazio, estou irrealizando-me o tempo todo e deixando o sistema se reforçar cada vez mais, em mim e no meu inteligente interlocutor. Não raro, estamos os dois falando como mudar o sistema, sem perceber que esta discussão é parte-legítima do sistema.”

O escritor explica, de forma bastante direta e clara, que a conversa fiada se compõe de exibição de excelência, de delírio jurídico e de fofoca. “As pessoas falam muito de quanto são boas, capazes, bem sucedidas, espertas, inteligentes, cumpridoras de seus deveres. Entram quase todas e quase sempre na exibição de poderio. Quem é melhor do que quem? Eu ou você? Meu time ou seu time? Minha casa ou sua casa? Meu carro ou seu carro? E este fenômeno independe de regime social ou econômico. Gosto de pensar que a única maneira capaz de impedir a luta de cada um contra todos (e o domínio dos poderosos) é a cooperação. Não se trata de ser bom, generoso, compreensivo. Se trata de aprender a cooperar, a trabalhar/funcionar juntos. O papo vazio serve demais à divisão, à oposição e à luta de cada um contra cada um e ao enfraquecimento de todos.”

Sobre o delírio jurídico da humanidade, Gaiarsa diz que ele responde, com certeza, por mais um tempo grande do papo vazio. As pessoas ficam, para fora (com o outro), ou para dentro (consigo mesmas), tentando explicar, justificar e provar que seus motivos e razões são legítimos – e que legitimam o que fazem. Legitimam, principalmente, tudo o que não fazem. Eu sei que devia, mas… O complemento desta interminável arenga jurídica, pela qual me protejo de sanções sociais hipotéticas e ameaçadoras, é o constante procurar provar/dizer quem é o culpado e quem é que devia.

“A busca do culpado é nosso machado de pedra cultural. A busca do bode expiatório é tática para não resolver. Como parte mais do que importante do delírio jurídico da humanidade, presente no papo vazio, temos as queixas, queixumes, lamentos, protestos e críticas, acusações e denúncias. Tudo o que sofri para ser, ou para continuar sendo, um cidadão honesto e respeitável, e tudo o que eu não recebi de volta por ser um bom filho, bom pai/mãe, bom profissional. A vítima é muito atuante em um número considerável de pessoas.”

Mas ainda tem uma outra fração importante do tempo do papo vazio: a fofoca nossa de cada dia. Se até aqui você ainda não se identificou, duvido que nunca tenha praticado o falar de tudo o que o outro é, e que não devia ser, a crítica a todo transgressor das normas que se têm como estabelecidas, nos pequenos grupos onde cada um vive. Na verdade, na visão de Gaiarsa, esta é uma agressão ao outro que faz de jeito diferente do meu. “Em termos familiares, esta fração de conversa vazia é relato de projeções que cada um faz, no outro, de todas aquelas características pessoais que, em seu pequeno mundo, não se deve ter. Entre a exibição de muitas virtudes pessoais, e a condenação dos vícios dos outros existe, como é fácil imaginar, uma secreta harmonia e uma profunda complementação. Projetar quer dizer: acreditar que o outro é capaz de fazer aquilo que secreta ou conscientemente eu também gostaria de ser capaz de fazer”.

O cardápio apresentado por Gaiarsa não parece nada apetitoso. Segundo ele, sobra um tanto, 10%, de conversas funcionais, ligadas à ação, influindo e sendo influídas por ela, pensadas com presença e atenção ao objeto da conversa, com cuidado na escolha das palavras, na construção de frases e no modo de dizê-las. “Toda conversa deste tipo é terapêutica, faz bem a ambos (ou a vários). A conversa é a maior e mais comum, das resistências ao diálogo, dentre os meios que usamos a fim de evitar o encontro, o pessoal, o emocional, o íntimo, o desejado, o temido…”

Quantidades enormes de conversa do mundo são sem sentido, porque as pessoas estão falando do que acham que “devia ser” e não do que experimentaram. A educação familiar é um bom exemplo. Até os 18 anos o filho deve ser obediente. Aos 19 ele precisa ter iniciativa e responsabilidade. Porém, não se dá à criança nem ao jovem a menor oportunidade de experimentar (de errar, de se machucar), de aprender a ter iniciativa e liberdade de ação. Acabam todos papagaios paralíticos que se distraem de sua paralisia falando, falando, falando… sobre como as coisas deviam ser!

Aprender a silenciar a mente e ter maior consciência da nossa fala não é fácil, mas garanto que tem um poder curador muito potente. Na Comunidade Osho Rachana, onde moro há 5 anos, praticamos meditações ativas, criadas pelo mestre indiano Osho. São técnicas criadas justamente para o ocidente que possibilitam primeiro limpar as emoções estagnadas e o tagarelar mental para, então, conseguir entrar em estado meditativo.

Normalmente, quando falamos em meditação, associamos com pensar, refletir. Mas não tem nada a ver com isso. Pelo contrário, meditar é silenciar a mente. É a observação dos pensamentos. Isso acontece quando há uma profunda conexão consigo mesmo. Às vezes, conseguimos por um segundo. Nestes pequenos momentos, é possível sentir toda a beleza do ser humano, conectar consigo mesmo e com a existência.

Neste ano de 2014, que promete ser bem ruidoso, o meu maior desejo é estar bem presente e centrada em mim para não me perder por aí.

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Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma.    Mantém o site:http://www.engenhocomarte.com.br