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Sociedade

Brasil, país de “transições canceladas”?

por Alexandre Pilati — publicado 09/07/2014 19h01, última modificação 10/07/2014 10h20
Inspirada em Machado e Brecht, “A Lata de Lixo da História”, de Roberto Schwarz, enxerga um País sempre atormentado pela força do conservadorismo
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Imagem: Pedro Bruno, Pátria II, 1919

[Este é o blog do site Outras Palavras em CartaCapital. Aqui você vê o site completo]

No meio da cena mais reveladora do país em A lata de lixo da história (Cia das Letras, 2014), peça de Roberto Schwarz recém publicada em segunda edição, lemos uma fala que, como tantas outras da obra, faz pensar. Diz um dos personagens envolvido no pretenso “levante popular”: “Nós vamos derrubar a Casa Verde, não tem dúvida. Mas acho que não vai ser suficiente. O que estou sentindo é uma azia complexa, geral, exigente – uma azia da alma”. O personagem refere-se à possível ofensiva contra o hospício do personagem machadiano Simão Bacamarte e, ao mesmo tempo, demonstra uma espécie muito grave de perspectiva negativista com relação ao que pode fazer o povo contra a opressão. É uma fala que expõe agressivamente um sentimento geral do Brasil à época da ditadura e que tem a ver com o tino conservador da nação, cujos movimentos transformadores, mesmo os mais retumbantes, conservam sempre algo de irresoluto. Um irresoluto que mora no estômago do país e que, na melhor das hipóteses, se converte numa “azia da alma” brasileira. Àquele tempo, essa azia era uma premonição de que o atraso venceria e que a história avançaria não apesar dele, mas por causa dele.

Por isso, a peça de Schwarz merece esta segunda edição 50 anos após o golpe militar e também uma leitura atenta, que lhe sublinhe a força de conexão entre duas conjunturas brasileiras: a daquele infeliz regime de exceção e a de hoje. Como há meio século, um país aparentemente à beira da renovação tem de engolir em seco, quando vislumbra o resistente fantasma do conservadorismo soprar-lhe perigosamente no ouvido. Escravidão, revolução sem revolução, entrega ao capital internacional, blitz dos proprietários sobre o Estado que deveria solidarizar irrestritamente com os debaixo: elementos da comédia brasileira que estão na peça e que evidenciam, como afirma Schwarz, que “De lá para cá, muita coisa mudou, mas nem tudo”.

A grande mediação entre tempos brasileiros é O alienista Machado de Assis, o escritor que estrutura a mais aguda perspectiva sobre o mando à brasileira, que converte capricho e zelo pela propriedade em destino comunitário geral, sempre em desfavor dos oprimidos. O alienista de Schwarz pretende mesmo é ser desalienante. No ótimo prefácio a esta edição da obra, o estudioso de Machado nos interpela para a produtividade da leitura machadiana dos diversos momentos brasileiros: “Não era só o velho Machado que emprestava personagens e situações para falar da repressão em nosso presente. O caminho inverso também valia, sugerindo uma leitura menos convencional do mestre e, através dele, do passado brasileiro. O festival de desfaçatez armado por nossas elites logo em seguida ao golpe, com sua salada de modernização, truculência e provincianismo, ensinava a reconhecer aspectos até então recalcados da ironia machadiana”. O achado estético e crítico de Schwarz, então, está aqui em ler dialeticamente o presente brasileiro pela via machadiana e conferir a Machado, pela acurada atenção ao momento histórico, uma dolorida e incrível atualidade. O gesto resume-se em ficar com o sumo do texto machadiano, ou seja, a alegoria do debate cientificista acerca da normalidade e da loucura em contexto de paroxístico provincianismo, agregando-lhe negatividade adicional, pela interpretação do clássico aderente ao tempo do golpe e eivada de negatividade. Com isso, o crítico/dramaturgo dá uma lição ao Brasil de hoje, em que há, na crítica e nas artes, um grave déficit na capacidade intelectual e artística de avaliar a conjuntura presente e exprimi-la em chave negativa.

Chamam a atenção na construção de A lata de lixo da história alguns elementos de forma muito bem articulados para este destino de negatividade a que o texto se entrega. O dado estruturador básico é a técnica do corte, que faz girar uma máquina de mudanças, conversões e incertezas própria ao tipo brasileiro de articulação política. Na primeira rubrica do texto, esta técnica é apresentada pelo autor: “Nesta peça tudo é questão de ritmo e corte, pois ela é construída sobre transições canceladas. A passagem da chanchada à atrocidade, as conversões rapidíssimas em matéria de convicção, a brevidade com que se despacham as discurseiras, bem como a alternância de asneira e cinismo, fazem figura da história contemporânea”. Separadas por segundos de escuridão, as cenas, que não se vinculam imediatamente, apreendem a volubilidade do movimento da classe dominante brasileira diante das encruzilhadas criadas pela opressão militar. Essa relação entre a forma dramática descontínua e o conteúdo de atualidade histórica é muito bem sublinhada pelas rubricas, que são verdadeiras intervenções de crítica literária, muito mais do que meras indicações cênicas. Num entremeio de fala do personagem principal, que iria referir-se ao Brasil, lê-se, por exemplo: “ouvem-se barulhos horripilantes, e Simão em homenagem à censura e à ditadura de 1964 muda a peça para outro país”. Assim, numa espécie de técnica retrointerpretativa, a peça vai configurando, não apenas aos olhos do leitor que tem acesso às rubricas, mas também ao possível espectador, uma refinada forma de metalinguagem crítica e politicamente consistente. O metateatro tem, pois, direção política evidente. O espectador/leitor a esse respeito acha amparo interpretativo nas falas e nas figuras dos “Notáveis”, que, salvo engano, são os verdadeiros protagonistas da peça. As falas desses “Notáveis” expõem de modo cru a hipocrisia e as intenções ocultas das classes dominantes no xadrez ideológico do Brasil pós-golpe. Além disso, com tino teatral e pedagógico aguerrido, o autor confere a essas falas o poder de explicar tanto os movimentos da peça e quanto os do país a que ela busca dar figura estética e crítica. Um dos oradores “Notáveis”, lá pelas tantas, solta uma afirmação reveladora da posição desses personagens no contexto da obra, que é também figuração do conservadorismo terrífico da sociedade brasileira: “Não podemos, por ora, dispensar forma alguma de autoridade. Precisamos do que abominamos, isso é que é.”

Como se vê o leitor/espectador deve estar preparado para “levar na cara” uns violentos golpes das falas das personagens. Assim se cria um espelho com a indicação cênica do autor, que é a de dispor bonecos negros e animais pelo palco, “que serão maltratados de várias maneiras, conforme a circunstância”. As frases violentas em A lata de lixo da história vão se tornando cada vez mais intensivas e frequentes e, com isso, aos poucos, o riso bem humorado que era a tônica no início vai se tornando histeria, misturada, nas palavras de Schwarz a “medo e angústia”. Um ápice desse continuum é a cena 12, que põe em cena o “regime bacamarte” e na qual se lê mais uma violenta frase de um “Notável”: “Não sou dogmático, e tudo que aumente o rendimento da propriedade conta com minha simpatia”.

Tudo isso, entretanto, não se perde em negativismo ensimesmado ou apocalíptico. Atenta ao legado de Brecht, a peça de Roberto Schwarz aposta na possibilidade de intervenção política veloz do teatro, forma artística em que espectadores e atores se unem tensamente em um mesmo desespero pela solução do problema posto no palco. O desfecho da última cena, que dá título à obra e configura o desejo de lançar ao depósito de velharias o que Schwarz chama de “as práticas e teorias responsáveis por formas caducas de opressão” é exemplar nesse sentido. Golpeado por um “Notável” que celebra a feliz solução de compromisso entre as elites, o capital e a opressão, um boneco, daqueles que sempre estiveram em cena e que na verdade é um homem, revida e lança o agressor na dita “lata de lixo da história”. Haveria, portanto, algo disponível como desfecho progressista para aquela conjuntura? Este é também um convite à reflexão sobre a nossa experiência histórica atual: haveria hoje a quem revidar? Haveria lata de lixo a que lançar opressores? Haveria um espaço progressista da cultura como aquele que era o do teatro nos anos da ditadura? que tipo de humor nos reconciliaria com a desrazão opressora de nosso tempo? Em outras palavras, o irresoluto do país ainda é capaz de hoje gerar em nós uma “azia complexa”? De todo modo, é este nervo crítico exigente de A lata de lixo da história que gostaríamos de ver mais vezes na produção cultural atual, pois ele é tensionado pelas contradições brasileiras que são próprias à conjuntura histórica de nosso tempo.