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Cultura

O criativo Rodrigo Aragão mostra que nem um pouco no seu segundo longa-metragem

Zumbis do Espírito Santo, uma contradição?

por Orlando Margarido — publicado 25/11/2013 14h30

São Miguel do Gostoso -- Não vi o primeiro longa de Rodrigo Aragão, Mangue Negro, mas pelo que li a respeito tem um cenário apenas diferente para o mesmo gênero de Mar Negro, que foi apresentado aqui na Mostra de Gostoso. E qual é a do capixaba Aragão? Terror, e mais especificamente o de zumbis. A ideia de início pode se anunciar trash, afinal é este em geral o nosso, do cinema brasileiro, tom na corrente de horror. Mas a surpresa talvez seja perceber que Aragão quer mais do que simplesmente entreter com sustos, o que de fato ocorre, a julgar pela reação da plateia na sessão, formada por muitas crianças e adolescentes, embora ja passasse das 23h. Li num jornal local de Natal uma definição que achei perfeita. O diretor faz um eco-terror. Sim, ecológico no ponto de partida, mas não chato na execução. É mesmo de uma elaboração a quem queira ver. Dois pescadores em alto mar encontram a noite uma criatura disforme e gosmenta, coberta de um liquido escuro. É o início da pandemia que se espalha pela comunidade, a base do consumo de peixe contaminado (dois curtas do diretor se chamam Peixe Podre) e muitas mordidas. Com o mínimo orçamento, o diretor faz milagres, e nisso não parece contradizer seu Estado de origem. Comento mais depois na edição impressa da CartaCapital.

Entre Vales

Também foi exibido no telão montado na areia da praia de Maceió, uma das divisões de SMG, este novo filme de Phillippe Barcinski. Já havia sido programado em algumas mostras importantes, como a do Festival Latino-Americano, mas perdi. De cara, a chamar atenção, um desempenho notável de Angelo Antônio, um de seus mergulhos viscerais a que o ator tem nos acostumado no cinema. Quando o drama começa, vemos seu personagem catando lixo num aterro sanitário. Mas não é um tipo que esperamos depender dessa sobrevivência. Em paralelo, ele é apresentado como um pai de familia de classe média alta, amoroso para seu filho pequeno, e um tanto distante da mulher, profissional liberal as voltas com as exigências de trabalho. Isto em uma metrópole como São Paulo se afigura uma situação bastante trivial. Talvez por saber dela, Barcinski faz uso do embaralhamento da ordem, de modo a nos inquietar sobre o caminho a que levou Vicente, o protagonista, ao lixão. É um recurso caro ao diretor, que fez dele até motivo e título de um curta-metragem, Palíndromo. Conforme a trama nos dois tempos  se apresenta, as revelações surgem no entanto menos surpreendentes do que se poderia querer. Vicente perde o casamento, o trabalho e, enfim, o mais precioso, o filho e, claro, na acepção óbvia, vai se tornando um dejeto humano e se agregando ao lixão. Há uma certa frieza na condução deste drama, assim como um formalismo, que nos afasta um tanto da tragedia desse homem urbano, tom que parece também interessar o cineasta, a levar em conta seu longa anterior, Não por Acaso. Por sorte conta com um ator exemplar no minimalismo, na representação em tom menor que valoriza a contenção frente aos distúrbios e massacre da vida na grande cidade, que dá envergadura e verdade a um situação que de outra forma soaria um tanto irreal.

E o passinho hein?

A onda dos documentários tem dessas vantagens. Nunca havia atinado na dimensão dessa cultura carioca da dança deerivada do break americano e misturada ao funk. Pois A Batalha do Passinho, de Emilio Domingos, veio me apresentar essa geração de jovens que se envolve com os chamados passinhos em vez de partir para o tráfico nas comunidades de morro. O formato não é inovador, baseado em entrevistas com os melhores da dança, suas aspirações e vocabulario muito particular, mas o que vale mesmo sao ve-los em ação em competiçoes, ate mesmo paraolimpicas. O que é tambem significativo para a comunidade de jovens em SMG, que através do cinema também busca um rumo.