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Xingu, Taviani...

por Orlando Margarido — publicado 11/02/2012 18h23, última modificação 11/02/2012 18h23

Berlim – Que dia! Estou chegando agora da primeira sessão de Xingu, o novo filme de Cao Hamburger escalado para o Panorama. Há poucos títulos brasileiros nesta edição da Berlinale, todos em mostras paralelas, que concorrem em prêmios específicos. Entre os curtas, há L, de Thais Fujinaga, um papa-prêmios nos festivais recentes no Brasil. Um outro longa-metragem é Olhe pra Mim de Novo, de Kiko Goifman e sua mulher Claudia Priscila, já exibido também em festivais por aí. Documentário controvertido esse entre os críticos pela abordagem do personagem Lúcio, na verdade uma mulher que se assumiu homem, implantou um pênis, isso no interior nordestino. Creio que na Berlinale é um assunto sob medida, pela tradição de bom acolhimento de temas ligados a diversidade sexual. Não é a toa que aqui se atribui o prêmio para filmes sobre gays mais conhecido entre os festivais, o Teddy Bear. A primeira sessão acontece amanhã, vamos ver no que dá.
Mas voltemos a Xingu. Como a sessão de gala é apenas na próxima quarta ainda não havia nenhum representante do filme por aqui. Mesmo assim, eu e mais um grupo de quatro jornalistas optamos por essa estréia. Uma pena Cao não estar. Foi uma sessão bonita, lotada, numa sala que deve beirar oitocentos lugares na mítica Berlin Alexanderplatz que vocês sabem, é título da série de Fassbinder. Se não foi uma acolhida com aplausos arrebatadores, houve entusiasmo. Antes de tudo, quero dizer que o filme me emocionou. Estava pronto para desconfiar de mais uma leitura indígena no cinema que é sempre tão perigosa, mas Cao segura a onda e conta uma bela aventura, aquela dos irmãos Vilas Boas numa pioneira descoberta da floresta do Xingu nos anos 40 até a criaçãodo parque indígena em 1961. Se alistam como peões para trabalhar na selva, mas querem mesmo é tomar contato com os índios, experiência nunca feita até então. Primeiro vão Cláudio e Leonardo, interpretados por João Miguel e Caio Blat. Depois chega Orlando, papel de Felipe Camargo. Cláudio e Orlando entraram para a história, mas eu confesso que não conhecia o destino de Leonardo. Vocês vão saber o que acontece vendo o filme. É uma história de sonho desses homens, que pensam levar civilização aos indígenas, mas também carregam doenças consigo. Esse questionamento é feito, mas para um Brasil que se abria, se expandia, buscava o progresso, pensar em proteger as tribos da morte certa por exploradores de terras era mais importante do que mante-los intocados. Há, claro, uma certa dose de heroísmo e boa vontade que me parece liberdade na narrativa, mas nada que comprometa o painel. Menos no que se preocupar em ser um relato fundamentado, creio que o diretor pensou em nos tocar com um sonho de conquista, e também de beleza. A cena final, com o close no rosto de um índio de uma tribo até então intocada, é de abalar.
Melhor que ter a expectativa transformada com Xingu, foi testemunhar a ótima experiência que nos ofereceu nesta manhã os irmãos Taviani. Fazia tempo para mim que os parceiros andavam fora de forma. O último filme sobre o massacre dos armênios pelos turcos, que creio passou em mostras no Brasil com o nome de A Casa das Cotovias, em que pese o valor do drama, não passava de um melodrama histórico penoso de ver. Com Cesare Deve Morrire, ou Cesar Deve Morrer, eles voltam a competição de um grande festival com um trabalho ousado, de linguagem sofisticada que mescla teatro e o cinema documental e ficcional. Porque o teatro, aqui, está dentro de uma prisão de segurança máxima na Itália, onde um diretor faz uma experiência de montar o Julio Cesar de Shakespeare com os prisioneiros. A partir daí, perde-se um pouco da noção das fronteiras de linguagem, como na ótima cena inicial da audição, que parece improvisada, mas eles disseram hoje na coletiva de imprensa ser ensaiada. A prisão, claro, é uma metáfora da tragédia romana que opõem o imperador e o traidor Brutus. Os presos são em parte condenados reais, outros atores, ou melhor até se tornaram atores depois de cumprirem pena e voltaram para fazer o filme. São homens de diferentes regiões italianas, cada com um seu dialeto e também rusgas que aproveitam a peça para pôr em cena. Depois da arte, isto agora é que se tornou uma verdadeira prisão para mim, diz um dos detentos ao retornar a cela depois da bem-sucedida montagem apresentada a visitantes. Os Taviani, de tantos filmes cruciais e de tom político importante, voltam a boa forma e desde já com grandes chances de premio nesta Berlinale. Tenho entrevista marcada com ambos na segunda-feira e volto para contar mais.
Com essa boa surpresa, não restou muito mais do que simpatia ao concorrente alemão visto na sequência. Barbara é o título do filme de Christian Petzold, diretor da nova onda do cinema local, e também da personagem principal, interpretada por Nina Hoss. Atriz preferida de Petzold, estrela local, ela pode ser lembrada por A Massai Branca, exibido no Brasil. Ela é a médica que foi presa pela Stasi, a polícia secreta da Alemanha oriental, e depois enviada a um hospital de província de poucos recursos. Ali se envolverá com um colega que foi condenado por erro médico e uma garota doente e grávida, enquanto planeja a fuga para o exterior. Já houve dramas bem melhores sobre o período, como A Vida dos Outros, e aqui pode-se imaginar condescendência da seleção por ser um título da casa. Não é nem isso que se pode falar de Dictado, título espanhol da competição, exibido em sessão antecipada para a imprensa ontem à noite. Decalque piorado da recente, e muitas vezes boa, onda de filmes de terror do país, o filme ainda procura raízes no Cria Cuervos de Carlos Saura. Testa-se aqui o suspense psicológico na história de jovem casal sem filhos que adota uma menina de ligações no passado com a morte misteriosa da irmã do pai. O comentário hoje era de que a imprensa espanhola presente não entendia a presença do filme na seleção. E muito menos nós.

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