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Cultura

47º Festival de Brasília

Vitória de "Branco Sai" consagra a vez deles

por Orlando Margarido — publicado 24/09/2014 19h56, última modificação 25/09/2014 11h20
O melhor filme para o júri, ainda que com gosto requentado, destaca a chegada de novos diretores como Adirley Queirós a frente dos festivais de tradição

De manhã escrevi um rápido saldo da premiação e no momento de salvar na ferramenta do blog tudo se perdeu. Com vôo marcado, só agora retorno ao tema. A essa altura vocês já sabem que Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, foi o grande vencedor da noite, fazendo barba, cabelo e bigode como se diz. Isto se juntarmos o Troféu Candango oficial aos prêmios da Mostra Brasília, onde Adirley também concorreu, em dupla seleção. Nenhuma novidade que o filme, brasiliense em síntese mas que o diretor prefere seja reconhecido como da satélite Ceilândia onde vive, tenha sido consagrado, e isso talvez seja um ponto passível de discussão.

A boa edição de Brasília este ano se marcou pela nova geração que tomou conta da competição oficial. Renovou-se, por assim dizer, um evento com tradição, politizado, no qual sempre se espera o melhor da produção nacional. A curadoria não se equivocou neste ponto e trouxe uma moçada atinada, que faz um cinema de pontas diversas, mais reflexivo alguns, de gênero outros, como Adirley mesmo, mas sempre com um pensamento a estruturá-lo. Um pouco mais de equilíbrio, com um nome veterano a apontar outro caminho, teria feito bem. Mas enfim, levou-se frescor a Brasília e talvez o termo político tenha que ser enquadrado em outra dimensão que não aquele de sentido engajado, com filmes de resistência, surgido nos anos 60 e do qual Brasília foi o representante mais feroz.

Se a maioria era de produção inédita, um ponto elogiável, não me parece fazer sentido contudo consagrar um filme que, sem dúvida merecedor do prêmio, rodou eventos anteriores e também conquistou seu quinhão por lá. Isso se não houvesse opções a altura, mas havia, e o filme de André Novais, Ela Volta na Quinta, seria uma admirável. A mescla documental e de ficção tão em voga, valendo-se da família do próprio realizador, negra diga-se em função da raridade, para tratar de uma crise de casamento dos pais, é corajosa. Ganhou prêmios secundários, mas importantes, de intérpretes coadjuvantes, se se pensar que não são atores profissionais.

Mas isso é uma visão, um gostar mais ou menos na comparação com demais filmes. Novais poderia ter levado prêmios mais representativos de sua ousadia, especialmente porque também me pareceu exagerado o número de atribuições principais e na parte técnica a Brasil S/A, prêmios de melhor roteiro e direção para Marcelo Pedroso. Dignos sim, mas uma melhor equação teria ajudado também Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro, lembrado apenas pela fotografia e intérprete feminina. Enfim,  melhor concentrar do que distribuir prêmios, e o júri marcou posição também pelo que não escolheu, a rigor o controverso Pingo d'Água, sem prêmios, e Sem Pena, merecido ganhador do prêmio do júri popular, ou seja, o público que o aplaudiu efusivamente na sessão. Aliás o documentário sobre a injusta justiça brasileira estréia logo agora, dia 2, não percam. No saldo geral, um festival digno e uma premiação idem.

Por falar em distributivismo, houve uma iniciativa que deu outro sentido a palavra e deixou o Cine Brasília surpreso e mesmo emocionado. Quando reunidos no palco para a foto final, os diretores foram representados em carta de protesto quanto ao alto valor do prêmio principal em detrimento das somas bem mais modestas dos demais. Isso, segundo as equipes, cria uma animosidade de competição desnecessária. E aí eis que em bloco, os seis diretores concorrentes fecharam por antecipação dividir os 250 mil reais entre todos, fosse quem fosse o premiado. Atitude inimaginável se ali estivessem, digamos, os medalhões que tanto frequentaram Brasília no passado. A ver se a atitude terá ressonância na direção do festival para quem sabe na próxima edição ajustar os valores. Política também fora da tela, é isso.

Abaixo os premiados:

Melhor filme – Branco sai, Preto fica, de Adirley Queirós

 

Melhor filme pelo júri popular – Sem pena, de Eugenio Puppo

 

Melhor direção - Marcelo Pedroso, por Brasil S/A

 

Melhor ator  – Marquim do Tropa, por Branco sai, Preto fica

 

Melhor atriz  – Dandara de Morais, por Ventos de Agosto

 

Melhor ator coadjuvante  – Renato Novais de Oliveira, por Ela volta na quinta

 

Melhor atriz coadjuvante  – Élida Silpe, por Ela volta na quinta

 

Melhor roteiro  – Marcelo Pedroso, por Brasil S/A

 

Melhor fotografia – Gabriel Mascaro, por Ventos de Agosto

 

Melhor direção de arte -- Denise Vieira, por Branco sai, Preto fica

 

Melhor trilha sonora – Mateus Alves, por Brasil S/A

 

Melhor som – Pablo Lamar, por Brasil S/A

 

Melhor montagem – Daniel Bandeira, por Brasil S/A

 

MOSTRA COMPETITIVA DE FILMES DE CURTA-METRAGEM

 

Melhor filme – Sem coração, de Nara Normande e Tião

 

Melhor filme pelo júri popular  – Crônicas de uma cidade inventada, de Luísa Caetano

 

Melhor direção  - Nara Normande e Tião, por Sem coração

 

Melhor ator - Zé Dias, por Geru

 

Melhor atriz – Maeve Jinkings, por Estátua!

 

Melhor roteiro  – Gabriela Amaral Almeida, por Estátua!

 

Melhor fotografia  – Beto Martins, por Loja de répteis

 

Melhor direção de arte  – Juliano Dornelles, por Loja de répteis

 

Melhor trilha sonora  – Piero Bianchi, Vinícius Nunes e Mateus Alves , por Loja de répteis

 

Melhor som  – Fábio Baldo, por Geru

 

Melhor montagem  - Nara Normande e Tião, por Sem coração