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Veneza hora 18

por Orlando Margarido — publicado 29/08/2012 16h26, última modificação 29/08/2012 16h26

Veneza – Olá, já estou no Lido di Venezia, a ilha onde acontece o Festival de Cinema que começo a cobrir pelo blog a partir de hoje. Uma maratona e tanto esta, logo depois do Festival de Gramado. E com novidades. A essa altura devem saber que há nova curadoria nesta 69a edição. Saiu Marco Muller, que adorava o cinema asiático, e nem sempre o bom cinema asiático, e entrou, ou melhor voltou ao posto, Alberto Barbera. O italiano dirigiu a mostra mais antiga do mundo no final dos anos 90 e estava responsável pelo Festival de Turim e o Museu do Cinema, sobre o qual falamos numa entrevista a CartaCapital pouco antes de ser anunciado como o novo comandante. Hoje, na tradicional coletiva do júri, Barbera teve que responder a pergunta sobre não ter dado a mesma atenção ao oriente que seu antecessor. Ele lembrou que foi o primeiro a colocar há mais de uma década um filme coreano em competição e é apenas casual, próprio do material que lhe foi apresentado, não ter disponivel um filme argentino ou brasileiro.

Barbera já fez um belo trabalho resumindo a 18, ainda um numero ambicioso, os títulos em competição. Já chegamos a ver 23 produçoes concorrendo ao Leao de Ouro. Cansativo, controproducente, e um exagero que nem sempre se justificava. Temos ainda uma mistura estimulante de nomes já reconhecidos, como o francês Olivier Assayas (Carlos), consagrados como Marco Bellocchio, Brian de Palma e Terence Malick, e desconhecidos. Por outro lado, o diretor da mostra caprichou em filmes colaterais, como se chamam aqui as produçoes fora de concurso, com 16 titulos, sem contar os curtas-metragens. Estão entre eles Spike Lee, com o documentário sobre o disco Bad de Michael Jackson, e o mais que veterano Manoel de Oliveira.

Também Mira Nair. A indiana foi escalada para abrir o festival esta noite e a imprensa assistiu a esta manhã The Reluctant Fundamentalist, numa tradução literal O Fundamentalista Relutante. Não foi um começo promissor, como parece ser a função dos filmes de abertura, que mais parecem se colocar como entretenimento antes da munição pesada. Nair, faz tempo, deixou um rastro apagado depois do sucesso de seu Um Casamento á Indiana, premiado com o Leao de Ouro em 2001. O foco familiar desta comédia dramática é tocado de leve agora numa drama que ambiciona o político na história de um paquistanes moldado pelos Estados Unidos. Mas isso sera contado em flashback quando Changez, e o nome nao sinaliza a palavra mudanças ao acaso, esta de volta a seu país de origem como um professor que aparentemente incita seus alunos a revolta contra a dominação americana. O rapaz conta sua historia a um espião disfarçado de jornalista, do momento em que se forma numa universidade americana a ascensão numa grande corporação de Nova York que interfere em empresas não lucrativas. Conhece então uma fotógrafa que vem a ser filha de um dos proprietários. Até que vem o 11 de setembro e a coisa enrosca para ele. Tudo muito óbvio, sem nuanças para a discussão que poderia ser interessante, sobre a política e loucura do período, ou étnica e de identidade, no caso do jovem confrontado com seus valores de origem. Mesmo sua família surge em um estereótipo da classe alta envolvida em festas e casamentos.

Tornou-se mais penoso ver o filme depois da experiência que tivemos, eu e alguns colegas brasileiros, na noite de ontem na Arena San Polo. A comparação é inevitável. Trata-se de uma das belissimas piazzas de Veneza, um campo como chamam, rodeado de predio históricos, onde todos os anos o festival monta uma grande tela ao ar livre e exibe um classico restaurado. Coube a Giuseppe de Santis e seu Roma Ore 11 a honra desta vez, exibição precedida pela apresentação da grande cúpula do festival, como o presidente Paolo Baratta e Barbera, além da viúva do diretor morto em 1997. Ela lembrou a colaboração no roteiro do grande escritor Cesare Zavattini, importante adição pois a história parte de um acontecimento trágico que justifica o título. No início dos anos 50, ainda portanto sob a crise gerada pela guerra, centenas de jovens mulheres acorrem a um anúncio de posto de datilógrafa num escritório de contabilidade. Amontoam-se nas escadas quando uma das garotas fura a fila e gera uma revolta que acaba por fazer ruir a área interna do prédio. Há muitos feridos, e uma jovem morre. De Santis dramatiza em parte com atores e em parte com não profissionais a vida naquele momento dessas jovens que apenas tem o sonho de trabalhar. Não se prende, portanto, só a ocorrencia e o mais interessante é compreender como esta afetara a vida de todos. Belissimo filme, inclusive com uma análise de como procede, ou deveria proceder, a imprensa do período, afinal origem da história. Volto depois para falar do primeiro concorrente oficial, o russo Izmena, ou traição. Até.

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