Cultura

Berlinale

Vai, não vai

por Orlando Margarido — publicado 12/02/2014 18h44
Pode-se dizer que há filmes dignos, mas esta é uma das piores seleções da Berlinale em tempos

Berlim -- Num almoço rápido, e muito raro pela agenda corrida de todos, com outros trës colegas jornalistas, lembrou-se a confusão despertada pela incerteza de que The Grand Budapest Hotel integrava o concurso da Berlinale. Vá lá que o site oficial desde o início assinalou o filme de Wes Anderson na competição, mas é tradicional que o filme de abertura dos grandes festivais seja exibido fora de concurso. E mais ainda quando é uma produção americana, com elenco estelar, enfim, mais um título comercial do que voltado a uma linguagem experimental. Bem, Anderson pode ter lá sua peculiaridade no cinema atual, seu jeito excêntrico de filmar, mas seus projetos já ganharam essa condição de mercado, sem muita novidade. O fato é que fiquei pensando se a direção artística da Berlinale não elevou-o a seção competitiva depois de ver a fragilidade da seleção como um todo. Há exceções, mas nunca a safra foi tão fraca como este ano.

Uma exceção, mas que não se eleva muito a regra, é o concorrente argentino exibido hoje pela manhã. La Tercera Orilla, ou em inglës The Third Side of the River. A diretor Celina Murga toma emprestado o título de um dos grandes contos de Guimarães Rosa, A Terceira Margem do Rio, filmado pelo nosso Nelson Pereira dos Santos. Mas o fez sem se dar muita conta, embora tenha dito conhecer o livro. E de fato não há muitas aproximações a fazer. O adolescente Nicolás é o centro da trama, um tipo introvertido, de olhar enfezado, mas carinhoso e atento aos irmãos menores. A mãe também revela carinho. Seu problema é o pai, como nos será aos poucos trazido. A família, ou melhor, as família moram numa cidade de província. Ali, diz Murga, é comum um homem ter duas famílias e Nicolás vive essa situação tensa. Seu pai se divide entre uma casa e outra. Mas por ser o filho varão foi escolhido para ser o sucessor na clínica e no rancho. O pai impõe, não quer saber das aspirações do filho. Nicolás constrói aos poucos seu plano de libertação. Vai a violência, mas não talvez aquela explosiva que se possa esperar. A diretor explicou ter preferido mudar o rumo dos acontecimentos reais. Seu filme é lacunar, deixa muito no ar, e eu conto até muita mais do que deveria ou está dito na tela. É uma proposta que se filia ao movimento recente do cinema argentino, quem tem Lucrécia Martel como líder. Talvez falte uma ambição maior a sua colega, mas achei o filme impactante e bem acima da média geral. Amanhã converso com ela e trago mais notícia.

Em seguida, tivemos o novo filme de Claudia Llosa, que ganhou por aqui há alguns anos com La Teta Assustada. O elemento fantástico era o que fazia muito do filme, e agora está de novo presente em Aloft. Jennifer Connely é a mãe de dois garotos que ao descobrir que um deles vai morrer apela a um espécie de curandeiro. Mas descobre ter ela mesma o dom de curar. Ela aceita ajudar na reabilitação de um menino paralítico e então vem a tragédia. Há uma morte e isso separará a família. O filme se dá em dois tempos. No presente, o filho mais velho (Cillian Murphy), que há muito não vê a mãe, aceita levar uma jornalista até ela, moradora agora no deserto gelado do norte do Canadá, onde recebe os doentes. Haverá o acerto de contas. O filme tem sua estatura dramática, bons atores, mas me pareceu essencialmente convencional, sem o apelo diferenciado e particular de La Teta, devedora em grande parte de um encontro da realizadora com sua cultura peruana. Agora faz um filme um tanto sem identidade, anódino, o que é comum quando diretores saem de seu território para uma produção internacional mais ambiciosa. Mas ainda sim, há delicadeza, que combinou com o filme de Celina Murga.

No oposto, ou seja, no explícito, desmedido, excessivo e, principalmente, algo trash, está outro concorrente chinês, Black Cool, Thin Ice parece saído em parte do painel das mazelas atuais da China realizado recentemente por Jia Zhangke. Mas o diretor Diao Yinan está longe de ter o talento do compatriota e pode, se tanto, divertir com uma linha Tarantino de violência e um humor peculiar. Numa mina de carvão surgem membros decepados de um homem. A polícia chega a uma bela jovem com quem a vítima se relacionava, e logo descobre outras mortes vinculadas a ela. A idéia de ser uma viúva negra vai aos poucos se dissolvendo conforme o investigador, logo também atraído, avança em investigações contrárias as provas. Amanhã veremos o útlimo competidor do país, mas é torcer que o diretor da Berlinale Dieter Kosslick não reedite aqui uma sucursal asiática de filmes ruins como fez seu colega Marco Muller nos tempos em que dirigiu o Festival de Veneza. Exceção honrosa, claro, do mais novo filme de Yoji Yamada, também agendado para amanhã. É uma pena, mas já com idade avançada e saúde debilitada, o mestre e discípulo de outro mestre japonês, Yasujiro Ozu, não vem a Berlim. Aproveitem para ver juntos aí no CineSesc de São Paulo, a homenagem de Yamada a Ozu, e o filme deste que lhe inspirou. Até.