Cultura

Vai mal...

por Orlando Margarido — publicado 30/08/2013 11h09, última modificação 01/09/2013 09h51
Noite penosa e manhã decepcionante dentro e fora da competição
AFP
Nicolas Cage

Cage beija a mulher ao chegar ao festival

David Gordon Green deixou uma boa impressão no Festival de Berlim deste ano, quando apresentou Prince Avalanche. Um drama de humor um tanto peculiar sobre dois trabalhadores de estradas, e cunhados, onde pintam aquelas faixas de sinalização no pavimento.

O júri gostou e premiou Gordon Green como melhor diretor, um exagero, vá lá, mas não de todo condenável. Não é bem o que se pode dizer de Joe, seu novo filme apresentado pela manhã no Lido. Sim, o realizador filma muito e sonha com um remake de Suspiria, de Dario Argento. Costuma alternar produções mais hollywoodianas, como Prova de Amor, com filmes independentes. É o caso aqui, ainda que tenha Nicolas Cage como protagonista.

No início, a trama faz lembrar Prince Avalanche, ao focar a amizade, um pressuposto ambiental e o cenário de floresta, agora não açodada pelo fogo, mas pela chuva. Quando ela vem, o personagem-título de Cage e seus funcionários tem de parar de incutir veneno em árvores que dizem já estarem fracas.

Ali se plantará eucaliptos para um novo empreendedor. Quem vai pedir emprego a Joe é o garoto Gary (Tye Sheridan, de Árvore da VidaAmor Bandido, prestes a estrear no Brasil), vindo de uma família que de normal não tem nada. O pai bebe, o espanca e o rouba, a mãe é ausente e a irmã traumatizada e muda. Mas Joe também é uma figura pouco assentada, violenta, e claro, reconhece-se no adolescente e o ajuda. Não é um filme ruim, mas renovador de um quadro de mazelas americanas há muito explorada. Green não traz nada de novo e como outros aposta no chocante leviano da matança e do sangue.

Talvez por essa configuração, um tema banalizado e em nada original, os organizadores tiveram a ideia de colocar em seguida o novo filme de Paul Schrader, The Canyons. O diretor é presidente do júri da seção Horizonte, e claro, seu filme está fora da competição. Era só o que faltava...Na proporção de um roteirista e realizador respeitado e de quem sempre se espera algo razoável, creio ter visto um dos piores filmes dos últimos tempos! Sim, havia expectativa, alguns colegas já haviam visto o filme e indicaram, e é um livro de Bret Easton Elllis. O fato de ter Lindsay Lohan me batia apenas como curiosidade. O saldo geral muito ruim, inclusive das interpretações, a moça da confusão até que não se saiu mal. Há uma história engraçada que Schrader conta num dos jornais oficiais do festival. Lohan estava com frescura para tirar a roupa em cena e ele garantiu que filmaria ele mesmo as tomadas...nu!

A "atriz" fez sua aparição direitinho, ainda que não seja muito mais do que mostrar os seios e algumas marcas estranhas no corpo, mas Schrader comenta que por fim ele apenas tirou parcialmente a roupa. Um blefe, diz.

Ah sim, o filme. Lohan é a namorada do momento de um produtor de cinema garanhão e de caráter duvidoso (James Deen) em Los Angeles. Se este a engana com amantes, ela também não faz por menos e vai para cama com o namorado da assistente de Deen, um bonitão que quer fazer carreira de ator e está escalado na próxima produção da dupla. Entre menagés, encontros de casais e outras situações que servem a um tom de pornô soft, com nu frontal masculino inclusive, se dá o conhecido jogo de poder em Hollywood. Com uma identidade fria de publicidade de uísque, o filme não serve nem um bom prato de erotismo.

Bem, isso tudo de manhã, depois de uma sessão também duríssima noite passada. Que The Police Officer's Wife, título em inglês do filme alemão, tenha três horas de duração já era razão suficiente para o desânimo, já que num festival isso se torna um obstáculo e tanto, é cansativo e nos obriga a deixar outras obrigações, como escrever e mesmo comer, diga se. Mas se há qualidade para tanto, ainda vá lá. E,pior, não foi o caso. O diretor Philip Grôning propõe uma espécie de conto de fadas as avessas, em breves capítulos, e por isso eles são 59. Mas a trama não é nada fabular.

O tal policial de uma pequena cidade vive com a mulher e a pequena filha. A esta trata entre o carinho e a rudeza, mas a mulher trata com socos. Sim, esta se resigna, já devem ter imaginado, e o roteiro segue entre o cotidiano e problemas eventuais do oficial no trabalho. Pode se apontar algum interesse na forma de contar de Groning, mas se houvesse o conteúdo mais reflexivo e crítico do drama. Como está, torna o programa penoso e arrisca a tornar o dado trágico da situação em mero exercício de estilo. Esperemos mais dos próximos competidores, o mínimo de boa vontade que se pode ter num dos festivais mais importantes do mundo.