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Un saluto a tutti!

por Orlando Margarido — publicado 20/01/2012 13h13, última modificação 20/01/2012 13h13

Uma saudação a todos. É o que quer dizer o título aí em cima deste primeiro post no novo blog da Carta Capital, e por que em italiano, vocês vão entender na sequência. A convite da revista, transfiro o meu blog particular para cá, que será desativado. Faz mais de três anos agora que colaboro regularmente com a publicação semanal, eminentemente sobre cinema, mas com pitacos também nas artes plásticas, além de reportagens e perfis. Acredito nessa boa convivência e a relação prazerosa e benéfica entre as artes. Por isso o espaço anterior se chamava Cinema e algo mais, e assim continuará. Do lado de lá, na redação, conto na revista impressa com o profissionalismo, a amizade e a erudição de Rosane Pavam, a editora responsável pela seção cultural. Foi ela quem me ofereceu a oportunidade de passar a escrever na Carta e a ela dedico este post de estréia.

E aqui começo a justificar o título. Rosane, sangue italiano, escreveu a biografia de Ugo Giorgetti, o diretor de Boleiros, para a Coleção Aplauso e levou seu entusiasmo pelo trabalho do cineasta para a academia, onde analisou a comédia na filmografia deste paulistano. Estamos falando do humor cínico, irreverente de Festa e Sábado, por exemplo. O estudo deverá se ampliar agora para a comédia italiana, um desafio e tanto. Mas não foi o cinema de imediato que nos aproximou.  Nos conhecemos há pelo menos duas décadas, mais a distância profissional no início, com amigos em comum, e fomos conviver na redação do caderno Fim de Semana, da Gazeta Mercantil, ela uma das responsáveis pela edição, no inícios dos anos 2000. Histórico esse projeto, não porque estive nele, mas por ser uma feliz junção de bons profissionais e o empenho raro de uma empresa em tocar uma caprichada publicação cultural num jornal que era voltado a economia! O titular, talvez se lembrem, era Daniel Piza, cuja morte no finalzinho de 2011, aos 41 anos, nos chocou a todos. Não vou entrar nos méritos e deméritos, que todos temos, da figura de Daniel, mas apenas apontar o chefe aberto e generoso, sempre disposto a dialogar, que foi no período de três anos em que com ele convivi. Nos instigava a ler e discutir de tudo, sair da tal área de especialização. A mim, deu a chance de cobrir pela primeira vez um festival de cinema internacional. Berlim ou Veneza? perguntou, dado que Cannes era da alçada de Marcelo Rezende. Escolhi Veneza, e fiz em seguida meu primeiro giro pela Itália, país que suspeitava viver do passado, o que não está longe de ser verdade, mas que passei a cultivar pela língua, boa comida e a arte exponencial em cada canto. Sobre o cinema atual de lá, falamos outra hora. Para Veneza ainda vou anualmente durante o festival, assim como Cannes e Berlim, coberturas que vocês poderão acompanhar agora pelo blog. Tudo isso, enfim, para dizer que não tive a oportunidade de homenagear Daniel por escrito, então fica agora, com atraso, essas lembranças.

Mas de volta a Itália. Nas duas últimas semanas, percebi as boas coincidências que me levavam a nomes e sobrenomes oriundi. Estão todas ligadas ao cinema, claro. Ou quase. Antes quero dizer que visitei a redação de Carta pela primeira vez para acertar com Gianni Carta e Fernando Vives os caminhos do blog. Fiz fotos com a querida e simpática Olga Vlahou, e apertei a mão do legendário Mino Carta, que me aconselhou "insistência e persistência". Nem preciso dizer, é o dono da publicação. Ao sair para rua, não pude deixar de reparar. A redação fica ao lado do Massimo, uma das lendas da gastronomia paulistana, e em frente a Tabacaria Roma! Exagero no meu apetite por coincidências? Vocês me dizem.

Agora, o cinema. Num bom ciclo de clássicos que a Cinemateca Brasileira promove, assisti pela primeira vez a Trópicos, filme de 1969 de Gianni Amico. Gianni quem? Nos anos 60, este era o “amico” italiano do Brasil. Promoveu não só todo o Cinema Novo na Itália, em festival que organizava em Gênova, como também a melhor música popular que se fazia então. Era um entusiasta do nosso país. Mas isso não o impediu de uma leitura mais rigorosa das enormes desigualdades que via aqui. Trópicos é em muito essa avaliação. O diretor chega a entrar em off (em italiano, pois parece que chegou a arranhar só mais tarde o português) expondo os números do contraste entre norte e sul. O filme começa com os retirantes fugindo da seca no sertão nordestino, em momentos iniciais que é puro Vidas Secas, na fotografia estourada e na constituição de uma família em crise. Aliás, Nelson Pereira dos Santos, o mestre dessa grande adaptação de Graciliano Ramos, estará na próxima edição da Carta entrevistado e “perfilado” por mim a respeito de seu belíssimo documentário sobre Tom Jobim. Pedi-lhe uma palavra sobre Amico, a quem nunca entrevistei, e seu filme, mas o tempo exíguo de entrevista só lhe permitiu manifestar que ficou emocionado a época. Amico não usurpa, por assim dizer, o clássico de Nelson. Atesta todas as suas referências ao final, com créditos em homenagem ao próprio, Glauber Rocha e Saraceni.  Joel Barcellos faz o patriarca em busca de vida melhor no sul, entenda-se São Paulo. O filme termina com sua figura como operário da construção civil, mais um ser destituído de humanidade pela metrópole que cresce. É uma raridade, talvez hoje muito marcada pelo engajamento de Amico, morto em 1990, mas que o bom elenco (Antonio Pitanga novinho!) e as situações deixam em segundo plano. Vai ter reprise, confiram.

Para terminar isto que já é uma crônica, não posso me furtar a mencionar dois filmes que confirmam minha impressão de que todos os caminhos estavam me levando a Roma. Vocês já devem saber que o CCBB exibe uma retrospectiva do casal francês Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet, ela morta em 2006, ele em atividade incessante. São dois dos mais interessantes e exigentes realizadores dos anos 60 para cá, com um cinema estruturado na literatura e nos diálogos casados à imagem. Isso significa uma produção em boa parte declamatória. Os atores quase sempre se postam frente a câmera para recitar suas falas. Pois bem, Straub e Huillet viveram na Itália, e lá não só adaptaram Cesare Pavese e seus Diálogos de Leucó, como também Elio Vittorini, cuja obra rendeu Gente da Sicília, talvez o filme mais conhecido do casal. Mais pelos horários de que dispunha assisti a dois títulos dedicados a Roma antiga, a imperial das grandes conquistas, que vejam só, o Masp lembrará em exposição a partir do dia 25. O primeiro é Lições de História, baseado no Júlio César de Brecht. O segundo tem o longo título de Os olhos não querem sempre se fechar ou Talvez um dia Roma se permita fazer sua escolha. Ou simplesmente Othon, pois é desse imperador pouco lembrado de que trata a peça de Pierre Corneille. Portanto, esse casal indomável , nada imbuído do cinema facilitador, não está para brincadeira. É uma grande experiência conhecer seus filmes nesta primeira mostra completa sul-americana, com clássicos como Crônica de Anna Magdalena Bach. Sinto não poder mais acompanhá-la. Amanhã sigo à chuvosa Tiradentes para trazer a cobertura do festival para vocês. E depois, a gelada Berlim. Serão, asseguro, notas bem mais breves que essa. Até.