Cultura

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Uma ousadia a mais

por Orlando Margarido — publicado 03/03/2014 15h10, última modificação 04/03/2014 13h03
Alain Resnais não poderia sair desta em momento mais singular. Por Orlando Margarido
ALBERTO PIZZOLI / AFP
resnais

Foto de 2012 mostra Alain Resnais em Cannes

Eis que em meio a festa do Carnaval e da expectativa do Oscar, cada uma a sua maneira uma celebração efêmera e artificial, morre o mestre que não combinava com nenhum desses dois sentidos. Ou vá lá, havia o artifício, o falseamento, na fase mais recente do cinema de Resnais que se consuma com ênfase a partir de Smoking/No Smoking, no início dos anos 90, mas como dispositivo para dar atenção ao que era importante, as relações humanas, as questões amorosas. O resto era cenário.

Soube só ontem à noite, depois de uma rápida viagem, que o cineasta francês havia morrido. Não seria mais estranha a sensação pois no Festival de Berlim, em fevereiro, estive com os atores de seu mais novo filme, Aimer, Boire, Chanter - ou Amar, Beber, Cantar -, para que eles falassem do diretor, ausente pela delicada saúde aos 91 anos. Alguns são estreantes na trupe Resnais, como Sandrine Kimberlian, ou bisavam a participação em seus filmes, como Hippolyte Girardot, e deram a mesma referência da elegância e amabilidade do mestre, reconhecido também por dividir com eles a erudição acumulada em diversas áreas, da literatura a pintura.

Essa aula não acontecia por mera vaidade e se transformava em material para a filmagem, para a compreensão do roteiro, no caso aqui, como anteriormente, baseado em peça teatral de Alan Ayckbourn. Mas o encontro mais especial foi com Sabine Azéma, sua atriz preferida, musa, mulher. Essa dupla, tripla condição, garantiu ela, não a fazia diferente, e a mesma intimidade do trabalho que se esticava do set para a casa, em discussões, também era dividida com os demais atores. "Ele queria apenas o melhor de nós, e nos dava o melhor dele", lembrou Azéma.

Com o sucesso Medos Privados em Lugares Públicos, que permaneceu mais de dois anos em cartaz em São Paulo, o público de geração mais jovem reencontrou, conheceu?, Resnais. Para os cinéfilos, no entanto, as referências são mais longínquas, de Hiroshima, Mon Amour, um filme, um clássico transformador, que foi colocado por Michel Ciment quando na visita na última Mostra de São Paulo como responsável por uma cisão no cinema moderno, a Providence e Ano Passado em Marienbad. Preparava seu novo filme que teria roteiro dele próprio, uma raridade, senão uma estreia.

Berlim lhe concedeu o Prêmio Alfred Bauer por abrir novas perspectivas e experimentações. Talvez não tenha sido o caso de considerar Amar, Beber, Cantar como tal, pois o filme reedita princípios anteriores e os eleva ao máximo em seu modelo teatral, nada naturalista. Mas por toda a vida Resnais não fez outra coisa senão ousar, experimentar.