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Cultura

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Um sorriso para Tomie

por Orlando Margarido — publicado 12/02/2015 15h26, última modificação 12/02/2015 15h28
É o que merece a artista plástica, morta hoje aos 101 anos, que sempre nos recebia sorrindo

Já me preparava para dar meu resumo dos últimos dois dias da Berlinale, quando me deparo com a noticia da morte de Tomie Ohtake. Sei que o mais comum é expressar uma lágrima para alguém querido e significativo que nos deixa, mas nesse caso não consigo imaginar ela querer ser lembrada com tristeza.

Em todas as vezes que a entrevistei ou estive em algum compromisso em que ela estava presente, Tomie recebia a todos com um sorriso. Nada de uma obrigação apenas social, como se dá em eventos públicos muitas vezes, mas sincero. Ela parecia não acreditar que fosse reconhecida, querida, tomada além da figura talentosa, mas também  especial e dotada de uma humildade que nos igualava.

Num recente velório, e espero não estar cometendo uma indiscrição, familiares dela diziam que Tomie nos últimos tempos passou a falar da morte, a se dizer cansada, e que preferia ir. Sabemos que a noção oriental da morte é outra, mais prática, menos emocional, enxergando também o lado de quem está por perto, ao lado, responsável pelos cuidados.

Apenas que é difícil aceitar quando ela, a morte, vem, especialmente quando envolve um artista de quem não mais teremos novas demonstrações da sensibilidade. Para refletir sobre esse difícil periodo, o grande Kurosawa fez Madadayo, que significa ainda não. Ele mesmo pareceu se esquivar do fim até quando pode. O trabalho, claro, é o motor para tanto. Tomie, diziam, continuava trabalhando. Deixa muito para nos lembrarmos dela. Isso dá um certo consolo. Então um sorriso para ela e abraços a filhos e netos.