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Um samurai pelo cinema

por Orlando Margarido — publicado 15/06/2012 01h13, última modificação 15/06/2012 01h23

Caros, já pipocou pelos sites de informação e as redes sociais, mas aqui vai. Carlão Reichenbach morreu esta tarde em São Paulo, data em que completou 67 anos. Teve um ataque cardíaco. Quem com ele convivia, ou matinha contatos profissionais como muitos dos jornalistas de cinema, ou ainda dele se aproximava para um bate-papo, acolhedor e afável como era, sabia que ele se debatia com um problema de visão. Corria o risco de não mais enxergar e mesmo assim postergava uma operação, temeroso. Mas era isso. No mais, seguia com projetos e muitas ideias e muitos ideais, que discutia num ótimo blog dedicado ao cinema. Uma conversa com ele era uma aula de como encarar essa arte que anda tão depauperada de realizadores que a ela dediquem genuína atenção todo o tempo, como o respirar. Carlão também se distinguia por abordar o cinema pelo viés da cinefilia, pelo amor a obras de seus pares, constante na intenção de usufruir, apreender e mastigar ao seu jeito. Sentia-se essa humildade também na generosidade de falar a qualquer imprensa, da miúda a grande, que a bem da verdade pouco lhe dava trela. Desde o meu primeiro emprego na revista Visão, no final dos anos 80, me acostumei a ter em Carlão não necessariamente um entrevistado altivo que dita regras sobre sua produção cinematográfica, mas um interlocutor, alguém que oferece o que sabe (o que era muito!) sem nada querer em troca. Muito diferente de egos da área. Acompanhei seu empenho para filmar Garotas do ABC quando trabalhava num jornal da região. Foram anos de empenho e expectativa. Minha última conversa com ele, para não dizer entrevista que aqui não procede, foi há uns dois anos justamente para CartaCapital por conta do lançamento em DVD de Lilian M -- Relatório Confidencial.  Todas as mortes parecem surpreendentes em algum nível, mas essa nos pegou de jeito. Carlão ainda tinha muito o que fazer por aqui. Com ele vai um legado significativo do dito cinema marginal, categoria que parecia hoje mais um fardo do que uma apreciação cult, charmosa. Mas principalmente nos deixa o realizador original, pensante, pulsante, um amante do bom cinema. Talvez gostasse de saber, e nunca tive oportunidade de dizer, que o via como um samurai defendendo a honra dessa arte, ele que tanto gostou do cinema japonês e foi um frequentador assíduo do cine Niterói, na Liberdade. Em vez da espada, aqueles grandes óculos que marcavam sua figura nas salas de cinema. Nunca mais. Que descanse.