Cultura

Um pouco ao sol

por — publicado 05/09/2013 14h26
Na reta final, Veneza deixa um tanto do tom sombrio e traz alguma esperança com Gianni Amelio


Sumi alguns dias do blog por conta do material da semana na versão impressa de Carta Capital, como as estréias da próxima sexta, e o cotidiano corrido aqui, que inclui as coletivas, entrevistas e, claro, ver o os filmes. Esses são em sua maioria da competição, na média três por dias, mas tentamos na medida do possíver ver outros títulos de irresistível apelo. Entre esses, coloco bons documentários ligados ao cinema italiano, como o do crítico Lino Micciché, sobre o qual já comentei, e vocês encontram um texto na próxima edição da revista com declarações do filho, diretor do filme. Também vi retratos sobre o neorealismo, Anna Magnani... É o que muitas vezes vale a pena estar em Veneza. Por falar nos italianos, acabei de chegar de uma entrevista muito interessante com Gianni Amelio.

Já faz tempo que este cineasta não chega ao público brasileiro, ao menos no circuito comercial, mas vocês vão lembrar dele com Lamerica e Assim É que se Ria, filmes de sua fase mais política, e As Chaves de Casa, um drama, digamos, humanista. Agora apresenta L’Intrepido,de mesmo significado que temos no português. Esse homem intrépido é Antonio Pane, desempregado que apelou a uma função muito particular. Ele substitui funcionários que por alguma razão precisam se ausentar algumas horas ou dias do trabalho. Com isso, ele pula de ofício e ofício, nem sempre se dando bem. É também pai atento, carinhoso, enquanto estuda para concursos. Acima de tudo, é de um otimismo a toda prova, o que nem sempre adianta muito a quem o conheço, como uma jovem com tendência depressiva. Esse seria, digamos, a trama mais pessoal, intimista. No contexto mais amplo, Amelio reflete uma Itália de crise e desemprego, de pequenos expedientes que ajudam muitos a sobreviver. “Sobretudo é um filme sobre a perda de identidade, como se faz para mantê-la numa situação de desespero e sobreviver”, diz. Pane adverte um colega de construção civil, que reclama das opções disponíveis: “agradeça por ter um emprego e poder fazer greve”.

Com um pique um tanto irregular, por vezes óbvio, L’Intrepido conseguiu a proeza de trazer um tom mais humano e, se não feliz, muito menos sombrio e violento como tem sido o recorte geral da programação. Em muito porque Antonio Albanese, ator popular de comédias aqui na Itália, inclusive stand up, empresta uma face candida e envolvente ao personagem. Mas isso não fez o filme escapar de grossa vaia após o término da sessão. Como entender esse público de jornalistas que aplaude visões soturnas e de desequilíbrio do mundo e condena um trato mais terno da realidade atual? Os jornais italianos fizeram só repercurtir a má aceitação. Talvez isso ajude a explicar a opção de Alberto Barbera em arriscar por jovens realizadores, quando não estreantes, e seus filmes, nem todos bem entendido, pleno de vazio e falta de sentido. Tambem talvez por isso, Philomena, de Stephen Frears, esteja disparado na cotaçâo, pois é menos difícil aceitar seu drama marcadao por humor.  Recupero a seguir os títulos que ainda não comentei da competição, já na reta final, com apenas mais um título a ser exibido, por certo uma das piores seleções já tidas por aqui.  

Ana Arabia – Amos Gitai está mais uma vez as voltas com seu confronto preferido, aquele da convivência possível entre judeus de Israel e palestinos. Digo confronto porque esta sua guerra particular parece mais fadada a nunca chegar a um bom termo do que o próprio conflito que se arrasta no Oriente Médio. O que torna sua eterna vigilância um ato a nos despertar empatia e interesse é o cinema sofisticado e de novos caminhos. Desta vez, junto a um cenário intimista e pessoal como costuma ser dar em seus filmes, temos o recurso de um único plano sequência para apresentar a história. Uma jornalista (a bela Yuval Scharf) chega a uma espécie de vila de casas pobres, mas comunitárias, onde moram árabes e judeus. Ouve as histórias dos moradores, algumas em tom de lenda, outras reais, todos personagens interpretados por atores profissionais. Mas o tom geral é documental. Gitai contou ontem, quando o entrevistei, que escolheu esse local em Haifa, cidade onde nasceu aliás, pelo contraste de sua arquitetura simples, ou melhor a falta dela, com a escala grandiosa e midiática que tornou o universo arquitetônico um palco de estrelas, e não mais de serviço a humanidade. Ele se refere a comunidade como “bidonville”, mas ainda sim o conceito de favela, ou cortiço, não corresponde de todo a dignidade que ele retira daquele ambiente. E fazer isso num único plano sequencia, explicou, foi justamente para não interromper a narrativa, o fluxo dramático e humano que lhe é fundamental e sustenta o filme. É um belo trabalho, que no painel geral aqui me parece nao ter recebido a melhor das análises.

Under the Skin – A essa altura vocês já sabem por aí do papelão do filme de Jonathan Glazer por aqui e como Scarlett Johansson se deu mal na sua aparição como uma das estrelas do festival. Desculpem o trocadilho, mas papelão e do mais descartável. Mesmo assim, ela defendeu com veemência seu personagem alienígena, mulher em pele de gata, com os dotes físicos conhecidos, e que sai a caça de homens para seduzi los, dar fim neles e assim se alimentar, digamos. De uma frieza atroz e vazio de sentido, custa a crer que o climax seja sua revelação como a “aliena”, termo dos italianos que desde o início da edição já se estampava nos jornais e publicações locais. Quando se pensava haver chegado ao fundo do poço, expressão bem a calhar ao filme, eis que Veneza ainda tirou essa carta desprestigiada do bolso.

The Unknown Known – Uma cartada de Veneza, desta vez bem–sucedida e a se elogiar, foi a inclusão de dois documentários na competitiva principal. Este é um deles e de um diretor de peso no gênero. Errol Morris, de Névoa da Guerra, sobre Robert McNamara, agora se confronta com o ex–secretário de Defesa americano Donald Rumsfeld. Na pauta, claro, a estabanada invasão do Iraque por ele comandada, mas muito também de sua filosofia canhestra, suas contradições assumidas e um jogo de palavras reconhecível em qualquer político e especialmente espirituosa no caso. É o que explica o título, sobre o desconhecido que se sabe, o conhecido que não se quer saber e por aí vai. Morris pouco intervém, deixando talvez seu protagonista um tanto solto nas divagações e no seu caráter de mitômano. O diretor diz ter preferido assim. Disse na coletiva que não se doma um tipo como Rumsfeld, no sentido de tentar traze lo a realidade, e muito questionamento poderia virar uma batalha sem rumo. E disto, sabemos, Rumsfeld entende.

Stray Dogs (Jiaoyou) – Eis Tsai Ming Liang voltando ao seu universo, seu ninho, depois da experiência esquisitona com Visage, que nem chegou a ser lançado no Brasil. Isso quer dizer que este novo trabalho seja mais palatável? Longe disso. Mas por certo reconhecível em seu cenário lúgubre, as tomadas extensas, os poucos e debeis personagens e as falas mínimas conhecidas por quem segue o cinema do diretor de origem malaia que atua em Taiwan. A relação com os cães vira latas é direta, pois esses estao a solta na vida tanto quanto o pai de meia idade com os dois filhos pequenos que sustenta com bicos. Moram mal alojados num prédio abandonado, tentam se limpar num banheiro publico, e perambulam por periferias e locais isolados como um rio. Há também uma mulher que alimenta os cachorros e que em algum momento cruzará no caminho com a familia desestruturada. Nesse sentido, estamos no ideal temático proposto por Veneza, tudo muito destituido de beleza, de algum acolhimento de esperança, algum pingo de otimismo ou sol. Melhor que Tsai ao menos tenha uma elaboração mais poética e sofisticada desse mundo de destituídos em um cenário asiático que sabemos rico e sedutor nas ofertas de imóveis caros em construção. Pode ser exasperante para alguns suportar seus longos planos fixos, e o filme tem quase duas horas e meia, mas o sentido de constrição de seus personagens valida a intenção.