Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Orlando Margarido / Um porco ainda a digerir em noite animada

Sem categoria

Um porco ainda a digerir em noite animada

por Orlando Margarido — publicado 21/01/2012 18h41, última modificação 22/01/2012 18h23

Tiradentes – Depois de cumprir a agenda da manhã, ou quase tarde porque houve atrasos e percalços de organização, assistindo a debates, fazendo entrevistas e trocando idéias com colegas num rápido almoço, eis que repasso a vocês o resumo da noite de ontem. Foi a abertura da 15ª edição da Mostra de Tiradentes, como havia postado pouco antes de rumar a enorme tenda que se arma e desarma todo ano na praça principal da cidade. E que noite! Minha primeira estada por aqui aconteceu somente ano passado, mas comparando agora e falando com jornalistas que vem a mais tempo, creio que ninguém nunca viu uma abertura tão esticada. Isso, digo, até Billi Pig começar, o filme de Belmonte escalado para a largada. Com tem no elenco Selton Mello e Grazi Massafera, que veio grávida acompanha do marido Cauã Reymond, vocês podem imaginar a histeria das (e dos) fãs. Até por ordem na tenda, tudo atrasou. E vieram as apresentações e discursos protocolares, com direito a execução do hino nacional (todos em pé) e canções mineiras, além de exibição de vídeos com paisagens da terra. A mineiridade foi o tom da noite, com Marcus Viana acompanhando tudo com o violino. Mas se causou certa impaciência, a programação foi brindada com um emocionado discurso de Raquel Hallak, uma das idealizadoras do evento. Raquel foi as lágrimas ao apresentar o alentado volume de textos e críticas que assinala o aniversário da mostra. Havia mais novidade. O Sesi local já se prontificou a transformar o atual auditório da sede do evento num cinema mais capacitado. Hoje ele já funciona em sessões especiais, mas em breve ficará aberto ao público durante todo o ano.
Outro que engasgou ao agradecer a homenagem foi o próprio Selton. Ele é mineiro de Passos, como fez questão de lembrar. Mas não é por isso, claro, que o ator e diretor foi lembrado aqui. Selton está nas nuvens com o sucesso de O Palhaço, sua segunda incursão na direção, e quem viu o filme sabe o valor que tem para ele as referências da terra, pois o filme se passa em Minas e como protagonista, o herdeiro da tradição clownesca do pai (papel de Paulo José), Selton chega a ir a cidade onde nasceu. Nada que tenha muito a ver com sua figura em Billi Pig. Ou, na verdade, talvez até tenha. O vendedor de seguros fracassado, marido apenas por contingência do vulcão sexual que é sua mulher vivida por Grazi, e a quem deixa seguidas vezes esperando na cama, imaginem, vem numa linhagem de personagens de certa bizarrice, desconectados das exigências da vida, metidos e alguma crise pessoal. Vocês vão lembrar do cara do penhor em O Cheiro do Ralo, do marido com alucinações em A Mulher Invisível, e do próprio Benjamim, palhaço que não quer mais fazer rir. A diferença com Belmonte é que o diretor parte para a comédia desbragada, chanchadeira e cola tantos gêneros que, digamos, a tipificação de Selton não implica tanto no caso.
E é aí que a porca torce o rabo, se me permitem o trocadilho. Fiquei animado no início com Billi Pig. O humor de gênero absurdo se impõe logo de cara com a personagem de Grazi, Marivalda, pretendente a atriz que tem um porco, ou melhor uma porquinha, de brinquedo de estimação. Sonha com ele, e para desespero do marido Wanderley, passa a dialogar com ele. Só Marivalda ouve o suíno. Histórias paralelas vão se sucedendo: o padre safado de Milton Gonçalves, o bicheiro de Otavio Muller, cuja filha leva um tiro, a dona da funerária quase a falência de Preta Lee. Onde vai parar tudo isso¿ As tramas vão se cruzar, essa não é a questão, mas sob uma saraivada de referências e citações ao próprio cinema que muitas vezes nos jogam para fora da tela. Louve-se Belmonte se arriscar em seara tão diferente de seus dramas de cunho pessoal, crônica de uma juventude à deriva. Há uma irreverência mesmo nesses filmes que se nota também agora, escondida num exagero de humor, numa irregularidade que incomoda. Há ótimos momentos, em geral com o casal protagonista, com bons coadjuvantes a endossar o humor. Os colegas se dividiram, o que prova ao menos que o filme tem alto valor para discussão. Jean Claude Bernardet, que aqui está para a exibição logo mais de Hoje, o filme de Tata Amaral do qual é um dos roteiristas, e convidado de mesas de debates, embarcou na proposta. Conversamos e ele me falou justamente do potencial de sátira e citação do filme. Inegável, mas creio que aqui é o caso de pegar ou largar. Quero uma nova chance com Billi Pig, mas penso que por enquanto não “o peguei”. Saio agora para uma sessão paralela de Djalioh, que não tenho referências, e depois vou rever o drama de Tata, premiado em Brasília, e que gosto muito incondicionalmente.