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Tantos personagens

por Orlando Margarido — publicado 12/04/2013 21h06, última modificação 15/04/2013 21h44

 

Festival É Tudo Verdade – Muito bom o saldo da programação de documentários que consegui acompanhar desde o final de semana passado. Minha agenda incluiu um bate-papo com Stig Björkman, o crítico sueco e diretor de Fanny, Alexander e Eu, que remete, como vocês podem imaginar, a um dos filmes mais conhecidos de Ingmar Bergman, para muitos o preferido. Björkman, também jurado nesta edição, é um especialista no cineasta sueco, e seu livro de entrevistas, lançado nos anos 80, creio, uma referência. Há outro, mais recente, em parceria com Olivier Assayas. Foi uma conversa rápida com Stig, pois havia filme a julgar, mas ele me contou sobre o sucesso da versão teatral de Fanny e Alexander que foi aos palcos em Estocolmo no ano passado. É sobre esta montagem de que nos fala o documentário. Stig liga a câmera para acompanhar a preparação do espetáculo, os ensaios, a ansiedade dos atores, e com eles entramos na jornada. É talvez, ele concordou, mais sobre o ato de representar, no caso um script nascido para o cinema, do que propriamente um pensamento sobre a obra. Mas isso também está lá. Conversamos também sobre a autobiografia muito particular de Bergman, Lanterna Mágica, que acabe de ganhar reedição pela CosacNaify. Registro o encontro na edição da Carta Capital que está nas bancas.

Vocês vão reparar nesse balanço como os documentários exibidos se pautam por personagens, alguns grandes, famosos, outros nem tanto, mesmo anônimos. É sempre um diagnóstico interessante dessas vidas com muito a revelar, mas gostaria de ter visto também filmes que caminhassem para uma zona mais experimental no gênero. Falo isso com um pensamento direcionado, como nos bons projetos que vi no Festival de Tiradentes, caso de Matéria de Composição. Poderiam estar numa seção paralela, talvez até mesmo criada com esse fim. Não é uma reclamação ao bom painel do festival de Amir Labaki, mas quem sabe uma sugestão a se pensar nos próximos anos. Separo por filmes para facilitar a leitura.

 

Ozualdo Candeias e o Cinema -- Um desses personagens é nosso realizador que como poucos sustenta o epíteto de marginal, mas pelo talento de um cinema surpreendente é pouco lembrado. Não teve a fama contínua, por exemplo, de Carlão Reichenbach, que anda tendo merecidas homenagens depois de sua morte, como na bonita noite de abertura do Festival dos Melhores do CineSesc. Carlão estava ativo, com projetos, pouco antes de nos deixar. Já Ozualdo Candeias havia parado de filmar desde 1992, quando lançou O Vigilante, e morreria em 2007.

Não são cineastas de mesma geração, mas sim de afinidades de interesse e, principalmente, de movimento e lugar, pois ambos ligaram-se a Boca do Lixo. Carlão, inclusive, pode ser visto em várias imagens de arquivo acolhidas pelo documentário com direção de Eugênio Puppo. Também produtor, ele se dedica a mais de uma década a reavivar a memória de Candeias. Organizou, inclusive, uma mostra completa de seus filmes no CCBB em 2002, quando pude conhecer muitos títulos que nunca havia visto. O diretor, tido como arredio a entrevistas e a aparecer em público, chegou a participar de um debate, diga-se, um tanto tenso. Pouco afeito a comentar seu cinema, deixava mais para os especialistas e o público falarem.

É esse um dos grandes feitos do documentário. Puppo aglutinou diversos depoimentos de Candeias formando uma longa entrevista. A voz do diretor, apenas ela, atravessa toda a fita enquanto se vislumbra seus filmes. Foram 35, a começar de A Margem, uma estréia feita, segundo ele mesmo, para mostrar quem “estava abaixo da classe média”, num momento em que o cinema só mostrava “quem estava acima”. É a investigação de uma figura singular do nosso cinema, que foi caminhoneiro (aliás, universo recorrente em seus filmes) e começou por acaso com uma câmera ao aceitar fazer peças publicitárias no interior do País. Esse era parte de seu universo, o Brasil de suas raízes, filho de agricultores que era. Mas não as simplificava. Levou Hamlet para uma fazenda decadente, com uma família complexa como se sabe em Shakespeare. A outra face de seu cinema era a metrópole, como São Paulo, aquela que destrói a ingenuidade de quem aqui chega para sobreviver, como em Zézero. Ouvir suas aventuras na própria narrativa é um interessante jogo também de como Candeias tornava simples suas ideias, enquanto a crítica as idolatra e as refina, merecidamente.

Filha-Problema – Não há como não sair surpreso e impactado deste retrato da pianista Martha Argerich realizado por sua filha. O pouco que sabíamos desta que é uma das maiores intérpretes da cena moderna diz respeito a reclusão, a contrariedade de falar a jornalistas, ao temperamento difícil, e por que não dizer, certa arrogância da estrela que de fato é. Sua figura arredia se mostrou apenas um tanto no documentário sobre o amigo e contumaz parceiro Nelson Freire, o genial pianista brasileiro. Tudo, ou quase tudo, se desmancha agora frente a câmera. Claro que a razão de estar falando a filha facilita esse despojamento da casca de diva incitada pela mídia. Mas logo descobriremos que não é uma relação tão harmoniosa e simples assim. Há problemas, como em todas as relações entre pais e filhos, e pode-se imaginar o agravante de ter uma mãe consagrada, com sua vida e seus interesses voltados a música (e saberemos isso radical), sempre fora de casa em turnês, ensaios, gravações... A vantagem, se é que se pode usar o termo, é que Stéphanie, a filha, a adora e disto nasce uma encontro mais pessoal que profissional. A figura musical e mesmo a mãe distante, que passava horas cercada por fãs a dar autógrafos, situação que a surpreendia e criava ciúmes, a ponto dela machucar uma entusiasta quando era criança. Stéphanie assina o sobrenome da mãe. Mas não exatamente por opção. Seu pai, o também pianista Stephen Kovacevich, terceiro marido de Argerich, foi igualmente presença distante e ainda hoje se visitam com pouca regularidade. Não houve laços fortes para que a menina, então com dois anos quando os pais se separaram, assumisse mais tarde o sobrenome paterno. Há uma cena emocionada, apenas da parte dela, quando ambos tentam reaver por telefone a documentação na embaixada da Suíça, onde então a família morava, provando ser ela filha de Kovacevich. Mera formalidade burocrática para ele, mas para ela tem sentido afeito, emotivo.

O filme seguirá em parte nesse triângulo e Stéphanie voltará no tempo para nos mostrar a bela menina nascida na Argentina que não queria de imediato a carreira de pianista. Percorrerá seu trajeto um tanto errático, com casamentos difíceis e filhos nem sempre bem acomodados ao cotidiano exigente de uma estrela. O caso mais conflituoso ronda a filha mais velha de Argerich, Lyda Chen, do primeiro casamento com o maestro e compositor Robert Chen. Jovem e dedicada a crescer na carreira, a pianista entregou a menina aos cuidados de terceiros, e só foi reecontrá-la por esforços de Lyda, já adolescente e determinada a se fazer notar. A tal ponto de se tornar violinista respeitada e tocar com a mãe com concertos. Vemos, assim, uma figura genial mas também geniosa, cheia de temperamento, como se diz, um tanto maluquete em seus desejos e nos caminhos tortuosos próprios de pessoas incomuns.  É nesse molde que Argerich se encaixa com perfeição e não se pode cobrá-la da falta de sinceridade.

 

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