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Simone, hoje e amanhã

por Orlando Margarido — publicado 20/01/2013 19h49, última modificação 20/01/2013 19h49

Tiradentes – Primeiro dia de programação por aqui, ontem, já corrido e não consegui parar e postar alguma coisa. Mas foi benéfico pois pude assistir novos filmes, rever alguns, além de acompanhar debates. Havia ainda uma entrevista com Simone Spoladore que deverá estar na próxima edição impressa da Carta Capital. A atriz que é a cara da nova produção cinematográfica brasileira é a homenageada do evento. Digo nova mas já se vão dez anos que nos acostumamos a ver sua beleza e talento emprestados para uma gama de personagens que costumam trafegar num universo mais alternativo, independente, poucas vezes convencionais. Lembrei ao falar com ela que mesmo Lucia Murat, realizadora veterana, a chamou não para uma dos papéis digamos normais, mas sim para um não personagem, na medida em que ela comparece como uma espécie de delírio, um sonho na memória dos amigos, ex-combatentes políticos que se reúnem justamente em função da morte iminente dessa amiga. Eu devo ser, sou por certo, um dos poucos que simpatiza com A Memória que me Contam, que já havia visto e comentado no blog em Brasília, e foi escalado para a homenagem. Fiquei tocado, mais do que surpreso, pois o filme não é de surpresas, pelo contrário, convencional e com resquícios de um cinema passado, com essa idéia da reunião e acerto de contas dos personagens. Mas acima de tudo, o recurso do personagem revivido por Simone na idealização de seus 30 anos é um dos bons apelos do filme.

Fiz uma provocação a Simone. Se com esse arco de interpretação em mais de vinte filmes numa década ela não tem medo, uma intuição no mínimo, de que pode se repetir, voltar aos mesmos tipos. Ela acredita que ainda esse sentimento não apareceu, mas talvez surja e estará pronta para mudar, como diz ter feito há cinco anos, quando diz ter passado por uma crise. Ela lembra que tinham lhe falado ontem ainda que agora seria um bom momento para se reinventar. Foi seu atual namorado. Simone veio a Tiradentes com ele e os pais. O companheiro é o fotógrafo chileno Inti Briones, que me foi apresentado por ela como profissional que trabalhou no simpático Bonsai e é parceiro frequente de José Luis Torres Leiva, de O Céu, a Terra e a Chuva. Mas descubro agora pesquisando que ele também trabalhou em filmes de Raoul Ruiz! Não poderia deixar passar essa e troquei algumas palavras com ele. Foram três filmes -- Dias de Campo, La Maison Nucingen e La Noche de Enfrente. Só não conheço o primeiro. Maison Nucingen foi apresentado há alguns anos na Mostra de São Paulo mas, disse a Briones, numa cópia digital de péssima qualidade, na qual quase não se via nada. La Noche estava na programação do ano passado, mas já tinha visto na Quinzena, em Cannes. Briones tinha uma convivência com Ruiz de longa data. Sua mãe, quando casada com um importante poeta chileno, era ´próximo do realizador. Trabalhar com ele, diz, era muito especial. "Ele agregava, acolhia a todos da equipe na realização do filme, todos opinavam, podiam dar sua contribuição". Briones sabia da responsabilidade de suceder colegas de prestígio como Ricardo Aronovich. "Ele se manteve lúcido e um grande mestre até o fim; e muito detalhista", conta. "Vivia dizendo a Valeria (Sarmiento, sua montadora e viúva) que ela tinha de subsituir um equipamento que já estava obsoleto antes que ele morresse, mas dizia como piada".

Crônicas

Ontem a tarde também houve a sessão de Nove Crônicas para um Coração aos Berros, primeiro longa-metragem de Gustavo Galvão, realizador de Brasília até então de bons curtas-metragens. Simone está no elenco, mais uma vez, deste filme de novo realizador. Ela diz adorar as propostas diversas que esses novatos lhe trazem. E desta vez com um capricho a mais. Gustavo diz ter pensado-criado o papel pensando nela. Brinquei com ela se isso é um elogio ou não. Afinal se trata de uma prostituta! Mas, claro, há nuanças interessantes entre esta mulher e seus clientes, pois ela sempre pede a eles que a tirem da vida. O quadro é só um dos vários que o filme estabelece, alguns com relação entre si, muito em função da puta que Simone faz com graça melancólica. Não é um formato original, pelo contrário, é um recurso já bem conhecido o de levar ao mesmo tempo varias histórias. Simone chama a atenção do cenário onde se dá algumas delas, um edifício decadente, paredes sujas e sem reboco, dando um pouco a noção das vidas destituídas ou vazias dos personagens. Vi com interesse, mas especialmente em função do ótimo elenco, de quem o filme é tributário. São ótimos atores, como Julio Andrade, Denise Weinberg, mãe e filho discutindo o fracasso do sonho de ser arquiteto do primeiro, que se tornou um funcionário burocrático. Andrade é Gonzaguinha no filme de Breno Silveira, e como vocês sabem, tenta se acertar com a figura difícil do pai, como também enfrenta neste longa. Há também, e talvez o melhor, André Frateschi, o filho do Celso Frateschi, que já faz tempo mostra o bom gene familiar na atuação. Ele, de certa forma, representa a si mesmo, um músico idealista que não quer o rock banal, comum, e persegue uma canção especial. André também tem uma banda independente em São Paulo. Surgem ainda um hilário Marat Descartes, em dupla performance, ou talvez uma só, pois o faxineiro de dia me pareceu o travesti que surge como a consciência do personagem de Leonardo Medeiros, um tipo travado que mobilizou a vida e se alimenta de lasanhas congeladas. Um bom início de projeto no longa, que se Galvão burilar nas próximas investidas pode chegar a algo mais original. E só para constar, também houve a sessão de Eles Voltam, bom filme pernambucano da geração que está surpreendendo, e que também já comentei no blog. Hoje de manhã acompanhamos o bom debate com Inácio Araujo e equipe na mesa. Marcelo Lordello, o diretor, que subiu conosco a serrra de Belo Horizonte para cá mesmo se emocionou e foi ao choro ao lembrar o quanto se empenho com a história. Por agora é só, saio para uma noite com tres filmes em seguida. Nada em competição. A Aurora, mostra competitiva, começa apenas amanhã. Até!

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