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Sim para Larraín, não para Seidl

por Orlando Margarido — publicado 18/05/2012 15h11, última modificação 18/05/2012 15h14

Cannes – De forma breve, quero apenas registrar o novo filme de Apichatpong Weerasethakul, o tailandês que ganhou a Palma de Ouro por Tio Boonme que Pode Recordar suas Vidas Passadas. Chama-se Mekong Hotel, um média-metragem exibido ontem fora de competição. Vou entrevista-lo e quero entender mais dessa lenda sobre espíritos que se alimentam de vísceras. O cenário é o local do título, um hotel a beira do rio Mekong. O próprio diretor surge no filme conversando com um violonista sobre tais histórias. Então entram em cena personagens. Seriam seres humanos ou almas penadas pagando seu infortúnio ali? É o tema preferido de Joe, o apelido do diretor. Deixo para contar-lhes mais depois da conversa com ele.

Hoje foi um dia de escolha aqui em Cannes, situação muito comum num festival desta envergadura. Há de se optar por um ou outro programa quando coincidem, mesmo que eles sejam atraentes, como era o caso. O filme da competição da manhã era o de Matteo Garrone, o diretor de Gomorra. Ele não continua no encalço do tema da máfia, mas parte para outra instituição italiana, a televisão, ao abordar a praga universal dos reality shows. Bem, só comento o que li a respeito. Amanhã vou recupera-lo no que chamam aqui de exibição do dia seguinte. Pois troquei, e não me arrependo nem um pouco, pelo novo filme de Pablo Larraín, No. Sim, simplesmente um “não” o título. O filme está na Quinzena dos Realizadores, que começa a se mostrar mais interessante que a competição até agora, excetuando, claro, o filme de Audiard. O chileno tem um tema obsessivo. Desde seu primeiro filme, Toni Manero, persegue o período da ditadura em seu país perpetrada pelo general Pinochet. Neste drama, único a estrear no Brasil até agora, tratava da vida de um sósia de John Travolta em Embalos do Sábado a Noite, em pleno momento de fogo cerrado. No segundo, Post Mortem, concentrou a história no legista que exumou o corpo de Allende, o presidente vitimado pelo golpe. É sempre o mesmo ator, Alfredo Castro, agora no papel de antagonista a Gael García Bernal. A escolha do “não” diz respeito ao plebiscito de 1988 que possibilitou aos chilenos escolher entre a continuidade ou o fim do governo Pinochet. Bernal é o jovem publicitário de ideologia mais prática do que política que aceita fazer a campanha pelo não. Seu chefe e dono da firma publicitária (Castro) está aliado aos militares e bola a propaganda pelo sim. O detalhe é que esta tem muito mais tempo na televisão do que o rival, que dispõe apenas de quinze minutos. Ironico, espirituoso, Larraín vai mostrar esse confronto de ideologias de forma a dar conta dos absurdos de uma condição política como a do Chile na época. O filme é ótimo, teve recepção calorosa ao final e ainda um bate-papo com o diretor ao final. Ele lembrou, como costuma declarar em entrevistas, que quer recuperar um tempo que não chegou a testemunhar claramente. Conversei com ele rapidamente depois, e ainda pretendo entrevista-lo, e já esperando a resposta perguntei por que um filme como este não ganhou a competição oficial. Bem, não é o realizador que deve responder isso, mas ele entendeu que vinha junto um elogio e disse que o que aconteceu na sala, uma ovação e tanto, já vale a vinda a Cannes. Quem sabe por ter filmando em U-matic para dar uma noção mais adequada a época em que nascia a publicidade, o micro-ondas e as novas tecnologias da imagem No não tenha se enquadrado na preferência da concorrência principal. Pena, foi o melhor filme que vi até agora.
Elogios que não se pode fazer com certeza a Paradise. O concorrente austríaco, exibido ontem à noite, trouxe um quadro no mínimo controverso para se abordar, mas não pelo lado instigante, que nos deixa sem chão. O diretor Ulrich Seidl entrelaça, por assim dizer, dois estereótipos em seu filme. De um lado, a classe média de seu país, representada por mulheres solitárias que viajam para paraísos tropicais em busca de sol, mar, diversão, e algumas já em função do sexo com locais. Quem vai aprender esse caminho é a protagonista Teresa, gordinha ingênua e sem malícia, numa excursão a um resort no Quênia. Estimulada por uma colega, aproxima-se de um jovem negro e deixa-se seduzir até que ele cobra seu carinho e a atenção de seu corpo de uma forma menos direta. Engana-a pedindo dinheiro para familiares doentes etc. O filme reitera algumas dessas situações no limite de uma cena constrangedora, na qual as amigas de Teresa lhe oferecem um rapaz como presente de aniversário. Esta aí o outro lado do clichê, o do exótico, dos homens de raça diversa, bem dotados e servientes. Seidl não está preocupado na correção política, bem verdade, mas ao exagerar no sentido contrário renova velhas chagas da colononização europeia sem medir a fronteira entre a crítica e o mau gosto. Laurent Cantet mostrou quadro semelhante em Em Direção ao Sul, com uma visão também das mulheres solitárias em busca de aventuras sexuais, mas com a preocupação de contextualizar seus dramas e a miséria local. Seidl não tem esse respeito por seus personagens e se deu bem melhor quando em Dias de Cão, há mais de uma década, se fixou apenas em seus pares austríacos, num apanhado sem condescendência. Logo mais teremos por certo material melhor a discutir com o novo filme do romeno Cristian Mungiu, que em 2007 levou a Palma de Ouro com 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Volto com as novidades.