Cultura

Sem susto

por Orlando Margarido — publicado 20/09/2013 18h11
Correu bem a segunda noite de competição no que diz respeito a tecnologia. E também os filmes, alguns bons, outros nem tanto, ou seja, a normalidade

Apenas um rápido resumo por aqui, depois de um dia cheio de programação, com os debates de manhã e o primeiro dia do seminário dedicado ao olhar estrangeiro sobre o nosso cinema, com a participação de convidados como Randal Johnson, o brasilianista americano, e Gian Luigi de Rosa, italiano estudioso da área. Depois do cancelamento da sessão de Os Pobres Diabos por problemas na exibição digital, ontem não houve ocorrência com os curtas e longas-metragens. Há, isso sim, desequilíbrio na qualidade, portanto o normal quando se trata de um festival. Não vou adiantar muito dos curtas agora, pois quero tratar com uma visão mais geral, mas digo que ainda não vi nenhum que me instigou. Melhor destino nos reservou o longa de ficção baiano Depois da Chuva, da dupla Claudio Marques e Marilia Hughes, que conhecemos de bons curtas como Carreto. Não foi por acaso a recorrência a vários críticos de filmes como Os Sonhadores e Depois de Maio, este ainda mais presente por ser recente e ter a similaridade do título. Os diretores de pronto assumiram a influência na história do adolescente na Salvador dos anos 80 que se divide entre as descobertas naturais da idade, como a primeira paixão, e o engajamento político na retomada da democracia. Junta-se a um grupo de anarquistas, enquanto choca a normalidade da escola com atitudes de protesto como redações sobre o que pensa das instituições estabelecidas. Engaja-se também na formação do gremio estudantil. Em casa, sofre o descaso da mãe e a ausência do pai, depois da separação.É tudo muito delicado, sem grandes rompantes como na turma de Assayas que promove ataques de coquetel e vive experiências mais densas, até porque de idade um pouco mais madura. Isso veio a baila na discussão da manhã. Bem verdade que o filme refrea a questão amorosa e sexual do protagonista e sua namoradinha de escola. Postura dos realizadores para talvez não desviar muito da questão política, o momento das Diretas Já, da redemocratização. Válido, como também nortear o universo musical do filme pelo punk rock, no auge naquele momento no mundo, no Brasil, e claro, na Bahia. Senti falta, no entanto, de alguma raiz desse jovem com sua terra, seu entorno, o que os diretores compensam com uma adoção da música local renovada pelo punk. Mas nada que desestimule o bonito olhar geracional dos diretores numa estréia promissora no longa.

Menos decisivo me pareceu o documentário da noite, O Meste e o Divino. Na linha dos filmes de mote indígena, o viés da missão católica, no caso salesiana, é explorada aqui através de um missionário alemão que nos anos 50 chegou a uma tribo xavante e passou a filma-la. O diretor Tiago Campos o reencontra agora, aproveita seu farto material audiovisual em super-8, e faz uma ligação com o índio Divino que é discípulo deste dito mestre e passou a realizar suas próprias filmagens. Interessante conhecer a dimensão desta atuação de Adalbert Heide, o missionário, e de como manipulava um tanto o cenário e os personagens que tinha a seu dispor. Mas ao contornar essa figura peculiar, o diretor termina por não questionar muitas de suas atitudes, sua visao dos indígenas e da atuação da missão. Como o índio Divino, também de certa forma o idolatra, onde caberia a crítica. Lembro, nesse caso, da visão mais acertada, ainda que devedora de alguns exageros, do documentário Remissões do Rio Negro, também relativo a atuação das missões nas aldeias. Ali se vê que o relacionamento entre padres e índios era muito mais complexa do que nos faz crer esta empreitada.