Cultura

Paulínia Film Festival

Saldo inicial

por Orlando Margarido — publicado 24/07/2014 20h21
Cansaço retroativo e bons filmes para discutir na primeira noite de competição

 

Descontado o desgaste da primeira noite de competição que replicou os atrasos da abertura, como se uma maratona extenuante não tivesse relação com outra (para muitos provavelmente não, mas para jornalistas é o inferno), o saldo foi até que positivo. Já comentei antes a melhor surpresa da programação, a comédia fúnebre a la Brecht de Juliana Rojas. Tivemos mais dois brasileiros antes de encerrar as sessões já de madrugada. Aprendi a Jogar com Você é um documentário de Murilo Salles, diretor que há muito não se exercitava no registro. Justificou que só o faria se fosse por algum dispositivo menos tradicional. Nesse sentido seu filme é inusual, pois parte para a figura contemplada pelo dispositivo do cinema direto. Ou seja, a camera colada no personagem, seguindo seus passos a todo momento, nem sempre de forma natural, mas outras vezes com franqueza desconcertante. Ele é o DJ Duda, profissional do entorno de Brasília que sobrevive da música brega, aquela mais apelativa de referências sexuais, atributos da mulher etc. Com ele, aliás, seguem a mulher, uma cantora de mesma vertente, e mesmo o filho ainda criança, que já começa a ser introduzido ao universo fazendo pequenos trabalhos. O que interessa é que Duda se vira como pode para ganhar dinheiro e sustentar a vida simples mas preocupada com aparências, como revela o carro de luxo com o qual circula. É um brasileiro típico de determinado estrato social que se especializa na viração, aquele jeitinho que nosso povo encontra para se reinventar a cada momento e buscar a sobrevivência. Duda assume na tela seus expedientes nem sempre corretos e em outros momentos encena ajustes de conta, inclusive com a mulher, a quem destrata quando ela não se empenha por seus objetivos e a enche de elogios quando ela tira boa grana numa apresentação. A qualidade do longa também está em nos aproximar desse universo tão paralelo ao grande show business. Nesse sentido, me lembrou os excluídos de Adirley Queirós, que na mesma periferia de Brasília reencenam seu jeitinho, um candidato de partido fictício as eleições, um outro DJ que toca uma rádio comunitária etc.
Também tivemos Neblina, outro documentário, mas que se poderia dizer tradicional. A questão não é tanto a linguagem, mas a ambição desmedida da dupla Daniel Pátaro e Fernanda Machado. A partir do relato da criação da vila de Paranapiacaba pelos ingleses que vieram construir a São Paulo Railway, ligando Santos a Jundiaí para desaguar mercadorias no porto, o filme procura englobar simplesmente toda a política capitalista do mundo. Preocupados em dar lustre a sua tese, os diretores enxertam cenas documentais de época nao exatamente das passagens citadas, mas referentes como metáforas. Há algo de ingênuo nesse tipo de atitude, mas especialmente de inexperiência e arrogância juvenil que promove o que lhes parece preponderante falar sem dar conta de um contexto já muito explorado. Ficassem apenas na vila encravada na Serra do Mar e sua visão  hoje de um abandono quase surreal, de tom fantástico, como sugere o título, alcançariam melhor resultado.