Cultura

Recife quente

por — publicado 22/09/2013 18h11
A competição teve seu primeiro aplauso em cena aberta, em ritmo de música brega; e também uma discussão mais acirrada para um documentário controverso

O público do Cine Brasília, eminentemente formado por jovens universitários, é reconhecido por sua rápida resposta, em geral negativa, aos filmes exibidos. Pois ontem um raro aplauso em cena aberta marcou a noite da competição. Foi durante Amor, Plástico e Barulho, o primeiro longa de ficção da pernambucana Renata Pinheiro, e por ironia, em um momento desglamurizado, sem a trilha sonora repleta permeando tudo, como se dá na maior parte do filme. Música há, apenas que Maeve Jinkings, a protagonista, canta a capella para testar uma das músicas de seu show. Não apenas canta, mas interpreta sua dor e tristeza, suas decepções e amargura de ser uma cantora do brega que deveria estar no auge, mas encara cedo a decadência, na regra descartável que marca esse universo. "Chupa chupa a uva", diz o refrão simples e apelativo, como é de praxe, e para quem entende o resto,  joga o caroço fora. É arrepiante e comovente. Maeve nunca esteve tão bonita e sensual, e não apenas porque isso deriva da personagem, mas porque ela diz ter se destituído de todos os conceitos e preconceitos e foi aprender com as cantoras reais da música brega, como se vestir, se pentear, rebolar, usar o corpo, enfim, como ela sintetiza, aprender a ser mulher. O choque é grande para quem lembrar dela em O Som ao Redor como a dona de casa reprimida, assexuada, que usa uma máquina de lavar para seu prazer de forma mais inusitado. O filme parte muito dela, mas a construção de Renata e seu parceiro na assistência de direção Sergio Oliveira é sofisticada justamente para tentar desconstruir esse mundo tão repleto de artificialidades, imposições e falsos credos. A idéia, em muito alcançada, é buscar a humanidade que resta nessas meninas exploradas ou que querem se deixar  explorar pelo corpo, a voz, as atitudes. Mas não estará totalmente equivocado quem encontrar ali uma distorção dessa realidade na medida em que é complexo tentar encontrar um teor de verdade onde o que importa é a aparência. Brinquei no debate pela manhã, mas de alguma forma querendo encontrar os pontos de contato, que o filme é uma versão hetero de Tatuagem, em que Hilton Lacerda nos apresenta um núcleo de shows gay em Recife, e em pleno período da ditadura. Aqui há também um núcleo que se desmantela em parte pelo ciúmes, da jovem cantora que está chegando em busca de sucesso e ameaça o reinado da Jaqueline de Maeve. A atriz é Nash Laila, que pensava ser uma revelação, mas minha memória havia deixado de lado seu grande momento em Deserto Feliz, de Paulo Caldas. O fato é que no filme de Renata sai o contexto evidentemente político, e entra o das celebridades, também político se assim se quiser ver como o que domina nosso entorno. E se for o caso de buscar mais, há sempre a preocupação dos realizadores recifenses com o que está matando sua capital,a voracidade da especulação, que deve em breve engolir bairros populares, onde se passa o filme, como o Pina e Brasilia Teimosa.  Não por acaso Renata foi colaboradora de Tatuagem como diretora de arte, seu oficio original no cinema, e há varios atores aqui e lá. Mas isso é o genérico. No núcleo de pensamento, o filme se estabelece como crítico e também empático, como julgou a platéia brasiliense.

Imagem versus realidade

Rendeu boa e áspera discussão, no bom sentido, o documentário Morro dos Prazeres, de Maria Augusta Ramos. Com o filme, ela fecha sua trilogia da justiça, que anteriormente inclui os ótimos Justiça e Juízo. Vou confessar que ainda não refleti o suficiente sobre o novo projeto para fechar uma opinião, mas por certo ele me impactou bem menos que os anteriores. Isso não tem a ver necessariamente com qualidade, que existe, pois Maria Augusta é realizadora sofisticada, mas com o olhar que ela lança sobre a comunidade carioca do título, ou para nós ainda, uma favela, tomada pela tal unidade pacificadora. O ponto de partida é acompanhar o cotidiano da ação da UPP no morro e se dividir entre a rotina da policia militar e de alguns moradores. Destes não há muito o que somar ao que conhecemos por outros trabalhos semelhantes, exceção ao fato que poucas vezes vimos uma personagem como a garota lésbica e drogada na sua intmidade, no namoro, em casa, ou frente a frente com a promotoria. A questão complica quando vamos ao mundo dos policiais, com seus discursos e atos prontos, linguagem empolada como a tratar seu ofício ali como superior, da autoridade a quem tudo é permitido. Nao me pareceu existir uma mediação necessária por parte da cineasta para não se deixar levar por essa encenação do poder, que eles tanto dominam já em função das mídias tradicionais que enfrentam no dia a dia, a imprensa etc. Maria Augusta fala da surpresa de ter colhido o discurso de um oficial de alta patente sobre o símbolo do revólver como fálico, uma extensão do pênis. Sem dúvida soa absurdo, mas também previsto por alguém que se sabia frente a uma câmera. Prefiro qualquer discurso revoltado e genuíno de um dos moradores a estes da força policial. Não é um quadro fácil de se analisar, mas o caminho da realizadora seguramente não o torna mais claro para nós.