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Cultura

65 Festival de Berlim

Que viva México para Eisenstein

por Orlando Margarido — publicado 12/02/2015 16h18
A libertação não política, mas sexual, do cineasta russo, filmada com extravagância gráfica por Peter Greenaway

Havia muita expectativa, e a essa altura vocês já devem ter lido a respeito, mas Eisenstein em Guanajuato é a sensação, no bom e mau sentido, desta rota final da Berlinale. Isto porque se amou e se odiou na mesma medida a revisão com todo o barroquismo ao que o britânico Peter Greenaway costuma ter direito da passagem do pioneiro russo pelo México para tentar realizar um filme. Como se sabe, Que Viva México!, nunca foi concluído por ele,e há versões duvidosas e mal contadas que circulam. Acontece que Eisenstein aprontou muito aos produtores durante a estadia, filmou quilômetros de negativos, e é muito indicativo que se fale disso em quilômetros, como se antecipasse a noção futura de números, somas, bilheterias do mercado de cinema. Se Eisenstein já era uma figura extravagante em si, indomável em suas idiossincrasias, não se pode culpa apenas a esses caprichos de personalidade. É isso que Greenaway tenta nos apresentar, e que não é novidade. Muitos biógrafos se referem a homossexualidade reprimida do russo, que como tantos outros homens de culturas fechadas, opressoras, frias em todo os sentidos da palavra, não se seguravam no calor e erotismo dos trópicos, e acediam...

Heteros ou gays. O fato é que Eisenstein encontrou nos braços de um funcionário escalado para acompanhá-lo por Guanajuato o prazer desconhecido, ou ao menos mantido no armário. Talvez por aí, bem na metade do filme para demonstrar a virada em sua vida, como se debateu na coletiva de imprensa, comece a indisposição da platéia de jornalistas. A cena em que Cañeda, o acompanhante, avança para Eisenstein, ambos já nus, e o leva a cama para a penetração é tão detalhada e coreografada como Greenaway faz com seus portraits, os tableaux vivants das biografias de pintores como Rembrandt e o famoso quadro deste Nightwatching. Quando o jovem mexicano, aliás marido e pai de família zeloso, católico, rouba o vidro de azeite da mesa de jantar ja´sabemos que o líquido fará as vezes da manteiga em O Último Tango em Paris. Eisenstein é representado como um tipo egoísta, caprichoso, tão nervoso e falante quase a beira da histeria. Parece temer algo que não sabe bem o que é. O amante, se não modifica sua personalidade totalmente, contribui para uma tranquilidade e uma nova maneira de encarara a vida. Não se sabe se a transformação teria impacto maior em seu cinema, mas Greenaway nos desnuda o mito, e nos traz mais perto o homem, mais do que o realizador. E isto com diversão, humor, o que talvez explique também a pouca aceitação. Afinal não se pode tocar alguns ícones.

E dos Balcãs...

Falta apenas o competidor vietnamita, que será exibido amanhã de manhã, para encerrar a competição. Mais dois títulos exibidos entre ontem e hoje reforçaram a impressão de um descompasso meticuloso da seleção, um filme bom, um filme mediano. Comecemos por esse. O romeno Aferim! desvia os pungentes dramas urbanos e atuais que o país tem apresentado, a exemplo de Instinto Materno, ótimo filme que venceu o Urso de Ouro há dois anos, para ir ao passado do século XIX e dar conta das raízes da miséria, opressão e violência ao povo cigano. Um caçador de fugitivos pago por um rico proprietário para resgatar um escravo que roubou segue junto com seu filho levando o terror por comunidades ciganas do interior do país. É um tipo bufão, duro no trato e irônico em suas observações, ao filho inclusive, que procurar formar, e este acaba tomando todo o registro fo filme. Rodado em preto-e-branco, tem seu interesse como painel de um periodo que parece ser medieval nas relações, mas é apenas de dois séculos antes. Me parece cada vez mais que há na Berlinale uma obrigação de fazer representar determinadas cinematografias, que se valorizam por certo, como a romena, mas nem por todos os seus filmes. Assim também se dá com um chinês, e que por favor não se pense em premia-lo, Gone with the Bullets, pastiche de um cinemão americano, com musicais, noir etc, apenas divertido até a metade, e desnecessário depois.

Não entra nesse critério, me pareceu, o italiano da estreante Laura Bispuri. Vergine Giurata, ou Virgem Jurada, faz a ponte entre Itália e Albânia, quando se evoca o antigo código de honra deste último país, que já rendeu tantos filmes, inclusive Abril Despedaçado de Walter Salles, baseado em Ismail Kadaré. Mas a diretora adiciona um ponto muito interessante e incômodo, da jovem que para escapar a sina da mulher de casamento forçado e a uma quase escravidão num vilarejo de montanha, passa a se masculinizar. Mas não se pense em hormônios ou coisa assim. Basta pegar num rifle, caçar, tocar um rebanho, cortar o cabelo e se vestir como homem para ser considerada e respeitada como tal. Há uma cerimônia entre homens que a jovem Hana promete se manter intacta. Vai quebrar o juramento, mais para frente, já na Itália, onde foi em busca da irmã e sua família. Tenso e sombrio, por falar inclusive na atualidade. Mais uma vez, o primitivo, como no romeno, parece estar mais próximo do que se supõe. Gostei e amanhã entrevisto a diretora, para lembra com ela de filmes em que a questão de gênero e identidade está presente, caso de Tomboy.