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Cultura

Quando o brutal faz bem

por Orlando Margarido — publicado 23/09/2013 17h59
Paulo Sacramento chegou para incomodar, e fazer refletir, em alto e bom som na reta final de Brasília; e no documentário, a capital federal vista por um incômodo Joaquim Pedro

O título lembra um crescendo, uma recorrência, e não só porque extraído do Finnegans Wake de Joyce e pela sonoridade. No penúltimo dia da competição ontem, o paulista (de Santo André) Paulo Sacramento, há muito morador da nossa brutal, traumática e querida São Paulo, apresentou Riocorrente. E por que ressalto tanto a origem urbana de Paulo? Sua primeira ficção é devedora dessa ambientação da metrópole que nos exige mais do que talvez nos dê em troca. Mas longe ser apenas isso o longa. Como disse no debate hoje, é impossível dar conta da demanda de intepretações que o filme requer. Então falemos que a princípio seu impacto e muitos dos elementos envolvidos, narrativos, técnicos, estéticos etc se aproximam de O Som ao Redor. O filme de Kleber Mendonça será por um bom tempo referência para esse mal estar urbano que cerca as grandes cidades brasileiras, e ao que parece´já as médias, e há de se cometer alguma impropriedae ou injustiça nas comparações. Por certo no elemento sonoro, de pesquisa e sempre presente em cenas determinantes, os projetos se aproximam. Nem tanto nas preocupações e, digamos, trama desenvolvida pelos realizadores. A de Sacramento é em certa medida banal, mas não fraca, quando nos apresenta um triângulo amoroso entre um rapaz desiludido e adepto de expedientes como roubos (Lee Taylor) para sobreviver, um jornalista (Roberto Áudio) e sua namorada (Simone Iliescu), que sempre retorna ao primeiro numa relação áspera. O fato definidor não é tanto o contexto dessas relações, mas como elas se inserem na dureza da cidade, quando parecem elas mesmas estraçalhadas sem piedade por esse cotidiano. Sobre tudo isso, Sacramento compõem uma massa sonora, como se referiu o Luiz Zanin, quase insuportável a percepção e incômoda mesmo no sentido físico. Enfim, a realidade de São Paulo, confrontada com os cortes brutos de uma montagem que não nos poupa, nem um milímetro, do peso de habitar essa cidade. Há algum respiro? sim, como também sentimos no dia a dia, caso contrário cairiamos fora ou definhariamos. Para mim essa abertura se dá em dois flancos, na personalidade ambivalente do personagem de Taylor, ótimo ator de teatro agora também em projetos recentes de cinema, que adota um menino negro de rua problemático, para dizer o mínimo, que tatua no corpo a palavra "maldito", e ainda procura um olhar terno como quando acompanha um jogo de bilhar entre um mestre e uma criança. Por outro lado, Sacramento, filho do crítico de arte Enock Sacramento, aproveita essa herança em referências da arte concreta, portanto muito minimalista e geométrica que nos remete a arquitetura urbana, e na rica simbologia da obra de Marcello Grassmann. Este deve ser o último registro do artista, morto em junho, que surge ele mesmo justificando seu partido artístico. Há outro grande profissional que o filme homenageia. É de Aluysio Raulino a fotografia, um de seus últimos trabalhos no formato longa, prolifico que era. Com Sacramento, que detém o comando quase completo de sua obra como produtor e roteirista, Raulino configurou um dos filmes mais inflamáveis da produção paulista recente. O termo não é casual, e a´te mesmo um trocadilho raso. Mas vale a pena ver a cena final para sabe-la de antologia, em que a tecnologia dá grande força, sim, mas o valor maior está na representação de um contexto desafiador a 30 milhões de moradores. Esses rios, talvez nada correntes, que se incendeiam ou assim deveria acontecer para nos chamar a realidade. Sacramento dá sua contribuição para tanto, e não se incomoda em fazê-lo de modo extravagante quando necessário.

Brasília, cidade aberta

Os filmes não são reunidos casualmente numa programação de festival, como se sabe. E Brasília também foi alvo ontem de uma memória incômoda, ou melhor, de um cinema incômodo no documentário Plano B. Getsemane Silva, realizador local, foi atrás do percurso controverso do filme Brasília - Contradições de uma Cidade Nova, retrato documental da capital recém-inaugurada realizado por Joaquim Pedro de Andrade em 1967. Tratava-se de um projeto de encomenda da Olivetti italiana, respaldado por um diretor da empresa interessado em apresentar o projeto de Niemeyer por uma perspectiva, digamos, reverente. Até aí nada demais para um feito que chegava ao mundo como assombroso, uma nova arquitetura, moderna, funcional, em pleno centro do País, em meio ao cerrado. Mas do diretor do Cinema Novo, um dos mais intelectualizados e sofisticados do grupo, não se poderia esperar tal visão. E lá foi Joaquim Pedro com a câmera mostrar as mazelas, a pobreza, enfim, o lado B da Brasília maravilhosa do plano piloto. Isso escoltado por Jean-Claude Bernardet, então professor na Universidade de Brasília, e com o apoio da escritor Edla Van Steen, que trabalhava no departamento cultural da Olivetti. O resultado não agradou a empresa e o filme chegou a ser exibido numa única sessão do Festival de Brasília, depois então recolhido e esquecido. Voltou a baila anos depois, primeiro quando o próprio festival o reexibiu e em seguida quando as filhas de Joaquim Pedro resgataram o documentário para restauro e o incluiram num pacote de DVDs. A única exigência para tanto da Olivetti foi retirar seu nome da cartela de crédito. Getsemane segue esse caminho tortuoso e o vincula as mudanças e configuração atual de Brasília, onde se sabe afinal terem sido os excluídos enviados para as chamadas cidades satélites nos anos 70, de crescimento desgovernado. Com Bernardet e Edla em depoimentos, refaz-se também a perspectiva de Joaquim Pedro quanto a sua obra, e a polêmica condenação dele por Niemeyer, que num texto publicado em seguida a estréia teria feito suas críticas. O crítico e professor garante ter o arquiteto reprovado o filme pessoalmente ao diretor, mas publicamente o teria aceitao. Mais rico que isso, no entanto, é a discussão em torno do destino da cidade nessas últimas década, numa visão circular que parte do ano zero da cidade, construída pelos candangos aos quais Vladimir Carvalho restituiu o esforço e a dignidade em Conterrâneos Velhos de Guerra, até chegar ao Palácio da Alvorada atual, onde trabalha uma neta de um desses primeiros e esquecidos moradores de Brasília.