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Proezas dentro e fora da tela

por Orlando Margarido — publicado 25/01/2013 19h23, última modificação 01/02/2013 00h31

Tiradentes – Abro a internet hoje e vejo que Zózimo Bulbul morreu, atores de grandes filmes nacionais, nome recorrente de Cacá Diegues, Glauber, Nelson Pereira, por exemplo. Se não me engano, foi um dos primeiros intérpretes negros protagonista na televisão. Também era diretor mas creio nunca ter visto nenhum desses trabalhos. Sua morte tem um significado todo especial para quem está aqui no festival e já explico por que. E nessa justificativa também cabe outra. Fiquei longe do blog por alguns dias para dar conta do material para Carta Capital, nas bancas hoje, da programação exigente do festival e até de um acidente inesperado. Meu colega de Belém Ismaelino Pinto, em sua estréia em Tiradentes, desequilibrou-se no que se pode chamar de calçada por aqui, caiu e fraturou o braço. Fomos ao hospital de madrugada e a coisa se estendeu. Houve até uma inesperada e truculenta revista da polícia local na rua. Está tudo bem agora e ele já está em casa.
Relato essa história mais em função de uma sessão muito bacana que tivemos por aqui, a exibição do raro Proezas de Satanás na Vila do Leva e Traz, um filme de 1967 do baiano Paulo Gil Soares. E por que especial¿ Antes de tudo porque foi filmado em Tiradentes, com atores profissionais mas também participação de moradores locais. Zózimo Bulbul é um deles, mas foram os tiradentinos que fizeram a diferença e a festa durante a exibição, comentando os locais e os conhecidos da cidade. De quebra, a organização trouxe lavradores das proximidades que nunca haviam estado no cinema.
Proezas... é uma fábula que tinha tudo para se tornar um quadro político datado e realizado sobre princípios do período, quando ser crítico e engajado a ideias de esquerda valiam mais do que pensar no bom cinema. Há, claro, essa toada crítica transformada numa bem engendrada metáfora, em muito sintonizado com o cinema de Glauber. É numa Tiradentes em crise que se passa a história, quando a descoberta de petróleo nas proximidades, apontada por uma velha vidente em sonho ao protagonista (Emanuel Cavalcanti), começa a esvaziar a cidade. A prostituta, o padre, todos partem, e só ficam o dono do bar, sua mulher, a devota (Isabella), um velho cego cantador (Jofre Soares) e seu companheiro guia. É a situação frágil ideal para o aparecimento do diabo em forma de um jovem de boa lábia, ladino e vestido de preto, óbvia relação com o petróleo. Com as tais proezas, algumas milagrosas, congregará facilmente adeptos a sua causa, com um discurso messiânico de salvação e depois, triunfo sarcástico maior, na representação de um candidato político. Isto até o momento em que um catador de almas (Joel Barcellos) irrompa para destrona-lo. Interessante trazer a temática ao presente. Fiz uma relação mesmo com o que se passa em Santos, seu dito progresso desenfreado, sua verticalização exagerada, em função do pré-sal. Cairia bem aqui a figura do mal representada por um empreiteiro ambicioso. Gostei muito do filme e a Cinemateca Brasileira, dona de uma cópia ainda que precária, poderia exibir de tempos em tempos para as novas gerações.
Mas chega do velho-novo e vamos ao novo-novo, que as vezes também faz uso do velho. Acompanhei todos os filmes até agora da Mostra Aurora, seção competitiva e recheada por novos realizadores, e alguns outros das demais curadorias. Pontuo a seguir minhas impressões na ordem em que vi e aos poucos, pois as sessões e debates prosseguem:
Ventos de Valls – O documentário de Pablo Lobato é o primeiro filme da produtora mineira Teia de que me lembro a me decepcionar. Mesmo Balança mas Não Cai, de Leonardo Barcelos, exibido aqui ano passado tinha aspectos interessantes, aquele edifício decadente sendo renovado para renascer, que serviu a imagens muito elaboradas, de estética da vídeo-arte, uma característica dos realizadores da Teia. Lembrarei deste filme mais adiante com Matéria de Composição. Há essa preocupação estética de Lobato também, mas excessiva, de resultado vazio. Falo das paisagens, do tal vento do título. Bonito no início, se torna repetitivo até o final. Não é, contudo, minha principal dificuldade com o filme. Lobato filma uma família de espanhóis emigrados. Estabeleceram-se no Brasil quando o patriarca decidiu fugir da Guerra Civil. A mulher do diretor, terceira geração, e a filha de ambos, filmada insistentemente, ocupam seu espaço no projeto. A família é visitada na Espanha, e na pequena cidade de Valls, onde se dá uma tradição das pirâmides humanas, também mostrada mais do que o necessário. O clã conversa em torno da mesa, conta histórias, relembra canções. Um belo momento é o relato de um dos irmãos, um psicólogo, sobre a morte trágica do pai. De certa forma, Lobato tenta compor uma memória que é tema recorrente de seus colegas de produtora. Mas no caso aqui ela parece mais significativa ao diretor do que para nós, o público.
Sinais de Cinza – Este é um bom caso que faz uso do “velho” a que me referi, no bom sentido da memória, com um tratamento estético a dar leveza e empatia com o material. O longa do baiano Henrique Dantas parte de seu curta-metragem anterior Ser Tão Cinzento, já exibido em festivais, também sobre o cineasta Olney São Paulo, seu conterrâneo. Documenta agora a totalidade da produção de Olney, que foi uma das revelações surpreendentes, chega a catorze filmes. Hoje seguem raros e desconhecidos, e segundo Dantas, com necessidade urgente de restauração. Mas principalmente o filme conta o destino trágico do realizador em função de um equívoco das forças da ditadura militar. Um de seus trabalhos mais conhecidos é Manhã Cinzenta, uma ficção de média-metragem que justamente expõe a politização de um jovem e sua pegada em armas. Tema espinhoso para o momento de 1969. A coisa ficou pesada para Olney quando no primeiro sequestro de um avião pelo MR-8 propagou-se que o filme havia sido exibido a bordo. Lenda ou não, Olney foi relacionado ao grupo, preso e torturado. O filme, por sua vez, confiscado, e apenas uma cópia se salvou na Cinemateca do MAM. Olney nunca se recuperou do trauma, teve dificuldades em seguir com seu trabalho devido a saúde abalada, embora ainda tenha dirigido antes de morrer O Forte, produção complexa e de resultado irregular devido a vários problemas. Dantas resgata a porção sertaneja, digamos assim, de Olney com filmes seminais como Grito da Terra. Entre outras curiosidades, Orlando Senna lembra que Orson Welles viu Manhã Cinzenta e se disse impactado. Se um dia recuperado, o legado de Olney terá aqui um belo documento de apoio.

 

Matéria de Composição – O filme mais radical apresentado na Mostra Aurora, na forma e no conteúdo, já nos impõe sua conotação abstrata no título dúbio. A composição se relaciona ao material da música que é a pedra de toque do documentário de Pedro Aspahan. Mas também soa como decomposição, e aí a matéria é da casa demolida que servirá como imagem a trilha. Aspahan convidou três compositores diferentes, um deles na verdade um grupo de câmara, para criar essa trilha que acompanha a residência sendo derrubada por operários. Mostra-se os músicos na criação perante a tela onde as imagens são exibidas. Eles ensaiam, debatem, conversam, especialmente Teodomiro Goulart, uma figuraça, ou apenas silenciam, como faz outro compositor frente ao desafio. Mas Aspahan não faz apenas de seu filme um objeto abstrato, que em alguns momentos lembra o Tônica Dominante, de Lina Chamie, talvez mais pela raridade no nosso cinema de impor a música como personagem central. A ideia da destruição da casa vem em função da especulação imobiliária pela qual passa Belo Horizonte, terra do diretor, e no mais as grandes cidades brasileiras. Apenas que toca no tema de modo inusitado e muito elaborado, que como acontece a música clássica, seja talvez para gostos requintados.

 

Ferrolho – O paraibano Taciano Valério me pareceu a melhor surpresa desta edição de Tiradentes. Não exatamente pela qualidade superior a outros bons filmes, equilibrado as demais propostas, mas porque ele mostrou dois longas muito interessantes que formarão uma trilogia. Não havia comentado Onde Borges Tudo Vê, longa de abertura e fora de concurso,porque imaginava encontrar em Ferrolho, este competitivo,uma complementação. Pode-se forçar algumas semelhanças, como a noção geográfica diferenciada, ou fora do centro cinematográfico do país, tema afinal deste ano; ou o fato de terem personagens um tanto a margem, um tanto incomuns, envolvido em algum tipo de quebra da moral vigente e legalidade; ou mesmo na forma de Taciano filmar, a câmera na fronte dos personagens, filtrada pelos vidros, seja de um carro ou de um ônibus. Mas o próprio diretor comenta apenas que os filmes se ligam pela ausência de cor. E se no primeiro o p&b não me pareceu relevante, em Ferrolho, o recurso cresce e desempenha uma noção abstrata que aos poucos toma conta da mise-en-scene. Alguns críticos, e por certo o júri da crítica, achariam a expressão exagerada, mas Taciano tem sim uma elaboração no trato da imagem.

Penso nos interiores das residências de uma classe média local, do bar do personagem de Everaldo Pontes, também o protagonista cego do filme anterior, e mesmo da casa simples da família disfuncional que é centro da trama. Esse cuidado contrasta com os enquadramentos noturnos da cidade pernambucana de Caruaru, inesperada, ao menos para mim, em sua extensão e modernidade de edifícios altos. Tinha para mim somente a imagem da tradicional feira, que o diretor também visita, inclusive de forma documental com depoimentos de comerciantes. O clã principal está ligado a ela através do ofício do barro, tirando do material a conhecida estatuária que faz a fama de Caruaru. Taciano, por sua vez, tira do barro o trabalho ainda braçal para prepará-lo e ser usado na arte e faz imagens, que se não viajei muito, me lembraram as fotos de Sebastião Salgado e do artista plástico Matthew Barney. É entre esses polos que circula o personagem principal, um jovem fanático por futebol e seu time que justamente invade aquelas casas para se divertir. Não rouba nada, ou se tanto, uma calcinha de favor a um amigo. Deixa, contudo, uma marca, digamos, escatológica. Há uma referência imediata, claro, ao filme Casa Vazia, de Kim Ki-duk, que Taciano diz ter visto somente depois de ouvir as comparações. Para mim está parecendo que ele tem mais a ver com o diretor sul-coreano do que imagina. Um Kim Ki-duk da Paraíba, que nos traz um cinema brutal, sem firulas. O júri, pelo que sei, nem considerou o filme para um sério debate. Pena.

Nas Minhas Mãos Eu Não Quero Pregos – Seria exagero dizer que o documentário fica refém de seu objeto, pois personagem aqui me parece limitado. Mas pouco se faz de esforço para além de apresentar o escultor Maurino de Araújo e sua arte popular, de cunho religioso baseado no barroco mineiro e algum traço ingênuo. Sujeito arisco, avesso as mídias e ao universo de badalação das artes plásticas, Maurino é um daqueles casos que surpreendem os especialistas com seu trabalho original. Tem reconhecimento internacional, mas esconde-se num bairro popular de Belo Horizonte. Acabou por se tornar uma figura folclórica na cidade ao sair dançando e gesticulando com um guarda-chuva aberto pelas ruas. Sua fama de louco deixou sua produção em segundo plano e especialistas e colecionadores são reunidos no filme para dar sua opinião, como Emanoel Araújo. Para um filme voltado ao contexto das artes plásticas, faltou cuidado maior na apresentação das obras, e só mesmo ao final, uma demonstração da liberdade do artista consegue empatia.

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