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Paulo Moura em vestígios

por Orlando Margarido — publicado 05/04/2013 21h23, última modificação 06/04/2013 21h52

Festival É Tudo Verdade – Não é casual por certo a nova edição do festival de documentários ter iniciado ontem, aqui em São Paulo, onde afinal tem sua base, com o longa Paulo Moura – Alma Brasileira. Seu diretor Eduardo Escorel é nome recorrente no gênero e está ligado a ele ao menos desde Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho, do qual foi montador nos anos 80. Pautou-se pelo político nos seus mais recentes filmes, na investigação das guerras e revoluções no Brasil dos anos 30, material que complementará em breve com um retrato do Estado Novo, e pela ligação entre um campo social e mais íntimo em O Tempo e o Lugar. Mas, sobretudo,  a escolha de seu novo filme reverbera uma das maiores correntes, senão a maior, do documentário brasileiro contemporâneo, aquela ligada a música. Desta, bem sabemos, é feita boa parte da nossa cultura, do nosso cotidiano e expressão por aqui, o que explica a variedade de títulos. Não é neste sentido mais genérico, de painel crítico ou histórico, no entanto, que Escorel se aproxima do tema. Há música, claro, mas há também um personagem, uma figura a ser melhor desvendada e mostrada ao público, que cresce na tela tanto quanto seu talento musical afinadíssimo.
Paulo Moura, clarinetista e saxofonista, nos começa a ser apresentado não sem antes um testemunho na própria voz do diretor. Escorel preparava-se em 2010 para filmá-lo quando o músico foi internado numa clínica carioca e logo em seguida morreu. Houve tempo apenas para Moura se reunir a parceiros e ali mesmo, no hospital, participar de um sarau. O momento foi gravado, mas não está no filme, e novamente, já ao final, Escorel explica que não recebeu autorização para tanto. Pode-se imaginar algum cuidado por parte dos familiares em preservar sua imagem. Afinal, é um tipo simpático, falante, zombeteiro consigo mesmo que vemos aflorar na tela. E por quais meios Moura surge? Escorel não desistiu do projeto com a morte do músico apelou a gravações de arquivo, não só de apresentações em palcos, no estúdio etc, mas com entrevistas, como por exemplo a realizada pelo diretor finlandês Mika Kaurismaki para seu filme Brasileirinho. Há mesmo os bastidores da filmagem, com Moura se preparando. Entre um depoimento e outro, se passeia por grandes momentos como intérprete, com títulos como o que dá nome ao filme, composição de Zeca Freitas, Manhã de Carnaval, de Luis Bonfá e Antonio Maria, ou com peças de sua autoria, como Guadeloupe.

Temos, assim, uma espécie de anti-filme, que não é aquele imaginado por seu autor, mas o possível buscado nos vestígios que o personagem deixou, como também dito no filme. E talvez nasça daí boa parte da beleza e sensibilidade desta abordagem, na qual se nota lacunas inevitáveis, compensadas com um toque mais informal. Única presença, por assim dizer, factual é a da mulher de Moura, Halina Grynberg, que contudo surge representada apenas pelas mãos ou num retrato da residência, o casal ainda jovem. Ela remexe numa velha caixa com retratos e os comenta, um momento solitário do marido, ou outro na grande noite da bossa nova no Carnegie Hall de Nova York. A passagem, claro, nos faz lembrar Tom Jobim, cujo recente documentário de Nelson Pereira dos Santos nos faz crer no poder da história, das grandes trajetórias pessoais, apenas pela imagem, e claro, a música de qualidade. No caso de Moura, este percurso notável talvez não seja tão evidente assim a algumas gerações, dado mesmo a certa modéstia, de seu comportamento inocente que também se exprime na tela. Músicos talentosos nem sempre tem personalidade estelar, como no caso do tímido Nelson Freire, outra a merecer belo retrato documental, e Escorel também foi feliz por perceber o merecimento desta homenagem.

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