Cultura

Pasolini final

por — publicado 04/09/2014 12h15

Quando conversei com Abel Ferrara em Paulinia, onde esteve com o filme sobre Dominique Strauss Kahn, lembrei a ele de seu gosto pelos personagens masculinos que se lançam em alguma forma de debacle. Vao ao limite com a constancia de quem nao tem amor a vida. Talvez Pasolini nao se encaixe com exatidao nesse time, mas ele corria o risco e sabia dele ao buscar os garotos de programa de Termini, ragazzi di vita como dizem os italianos, para exercitar seu prazer sexual. Terminou morto por um ou um grupo deles e os ultimos momentos antes do assassinato em Ostia foram aqueles que Ferrara escolheu para levar a tela. Ele sempre teve em seu cinema esse desejo de expor o lado, digamos, mais obscuro da personalidade humana. Na conversa ele refutou contudo esse ponto de vista agora. Disse adorar o trabalho de Pasolini como cineasta, escritor, poeta… no inicio do filme o reporter pergunta a ele (Willen Dafoe o interpreta) como prefere ser apresentado. No meu passaporte tem somente a palavra escritor, Pasolini responde. Uma outra entrevista a um jornalista italiano será definidora também do pensamento do artista, sua visão do mundo, da Itália. Ferrara usa o recurso para mostrar as idéias do italiano, enquanto correm outras ações, a estruturação de um novo filme, da escrita, seu cotidiano com a mãe e os amigos como Laura Betti. O novo filme é então encenado por um caminho tocante. Ninetto Davoli, que foi o jovem ator de Pasolini a partir dosa nos 60 em filmes como O Evangelho Segundo Mateus, interpreta um pai sonhador e divertido que vai a Roma com o filho (Ricardo Scamarcio interpretando o jovem Davoli) seguindo uma estrela divina. Havia um certo temor do que Ferrara poderia fazer com esse painel final da vida de Pasolini, mas se não afronta ninguém, o diretor também não chega a nos conquistar por completo. Complica o fato do personagem de Pasolini falar inglês e poucas palavras em italiano, numa alternancia que também atinge o elenco todo, cortando a fruição.

Pasolini não é um filme que trouxe novidade a competição de Veneza. E isso não è um problema apenas da proposta de Ferrara. Em geral, os títulos deste ano são dignos, bons até, mas sem potencia, originalidade, como já comentei anteriormente. Ontem tivemos dois casos simbólicos. O primeiro, o frances Le Dernier Coup de Marteau, acompanha a jornada de maturidade de um adolescente que mora com a mãe, vitima de cancer, num trailer a beira mar. Quando fica sabendo do retorno a cidade do pai, um maestro que o abandonou, vai procura lo e tenta a reaproximação. Esse confronto dificil è suavizado pela descoberta do primeiro amor, o gosto pelo futebol, em que tenta se profissionalizar, entre outros pequenos movimentos. Movimento, aliás, é o tema certa, pois a musica classica e sua condução sera uma espécie de metafora da vida do menino. Bonito, tocante, mas que não fica na cabeça, como a primeira sinfonia de Mahler na trilha.

Um pouco mais forte me pareceu o drama chines Red Amnesia, e voces já devem perceber que o red aqui traz o sentido do vermelho da revolução comunista. Esse passado vem assombrar uma velha senhora que mora sozinha e procura de todo modo ajudar e estar presente na vida dos filhos, embora esses não a aceitem do mesmo modo. Um dia, telefonemas anonimos começam  a chegar, uma violencia começa a crescer e ela acaba por se aproximar de um jovem misterioso. Uma escolha errada no passado, que fez a familia mudar do interior para Pequim, será o caminho do esclarecimento. O chines Wang Xiaoshuai è bom em trabalhar com atores anciãos, e sua atriz aqui è exemplar para um premio. No mais, um fiilme recorrente dessa contradição entre a nova e velha China.