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Cultura

Berlim

Para um festival fraco, uma premiação pior ainda

por Orlando Margarido — publicado 15/02/2014 18h19
Filme chinês de violência e humor negro vence o Urso de Ouro, apenas o coroamento de um juízo final com muitos equívocos

Berlim -- Tinha pensado no título inicial deste post como Schamus on You! Mas como saí há pouco da transmissão da premiação soltando a frase para quem quisesse ouvir, não duvido que alguns colegas vão usa-la. Explico. O presidente do júri desta esquecível Berlinale é o produtor James Schamus e a frase um jogo de palavras com shame on You, ou, te envergonha! É no mínimo que se pode dizer da atribuição dos Ursos, em última análise, sempre uma decisão final do presidente. Logo de cara é bom ressaltar que Praia do Futuro não levou nada. A organização teve, no entanto, a descortesia de trazer Wagner Moura e seu parceiro de set, o alemão Clemens Schicks, ao Berlinale Palast para a cerimônia. Isso sempre indica ao menos algum prêmio. Cheguei a pensar na possibilidade de um premio duplo de melhor interpretação. Seria bonito, afinal. Mas o tempo passava, o suspense crescia, e tudo indicava reconhecimento maior. E nada. Praia do Futuro tem grandes qualidades, e só aumenta sua envergadura conforme se pensa nos demais competidores.

E o que poderia ser pior do que a escolha deste Black Coal, Tin Ice? Sim, houve filmes talvez até piores, mas neste caso trata-se de uma produção irrelevante. Não temos aqui um Jia Zhangke que busca em Toque de Pecado um retrato cru, exagerado mesmo, das mazelas da China. A violência no país cresceu de modo bárbaro, se quiserem entender a etimologia original da palavra. Jia precisou recrudescer para dar conta dela, abandonando certa poesia do realismo que colheu nos filmes anteriores. Seu colega Diao Yinan não tem o talento nem a habilidade de Jia. Traz um caso policial entre o drama violento e o humor negro sobre estranhas mortes de homens ligados a uma mesma mulher. Não é uma viúva negra, como se pode pensar de início. Logo na primeira cena, uma mão decepada surge na esteira de uma mina de carvão. Um investigador da polícia passa a segui-la. O ator, Liao Fan, ganhou o prêmio de melhor interpreação, o que só faz piorar a noite.

O filme é uma sequencia de algumas bizarrices, sangue a granel, recursos que dão o tom de um cinema muito popular mas pouco original da China. Há beleza em algumas, poucas, cenas. A patinação no gelo. O final com fogos de artifício, numa interpretação aberta. Isso me fez pensar se o diretor da Berlinale, Dieter Kosslic, não quer tornar o festival a nova sucursal dos filmes asiáticos como fez seu antigo colega Marco Muller, quando presidia Veneza. Não bastasse, até um título chinês ainda com mais problemas que esse foi lembrado. Blind Massage levou um prêmio de contribuição artística. Típico ato de correção política, já que trata de um núcleo de massagistas cegos e seu cotidiano e relacionamentos. A atriz principal, deficiente visual, subiu ao palco para buscar o prêmio, guiada por um intérprete. De contribuição o filme não tem nada, é quadrado, meloso, cafona mesmo, se a definição cabe no cinema.

Dito assim, parece que nada se salva. Bem, é quase isso. Os prêmios que me pareceram ao menos respeitáveis são o de atriz para Chisai Ouchi, de Little House, o filme de Yamada, que subiu de quimono ao palco para agradecer, mesma vestimenta com a qual eu a entrevistei. Ela só tem 23 anos e aquele talento contido de muitas intérpretes japonesas. Outro, ainda que irônico, é o tradicional prêmio de inovação Alfred Bauer para Aimer, Boire, Chanter, de Resnais. Mas como, se ele tem apostado no mesmo modelo mínimo de encenação, teatral, intimista? É verdade que não havia sido tão radical como agora, com cenários artificiais, onde se aboliu até as portas (substituidas por cortinas), segundo seus atores por não querer o entra-e-sai marcado pelo bater das portas. Claro, Resnais está com mais de 90 anos e a Berlinale não queria deixar passar em branco sua participação por aqui. Ele está com a saúde enfraquecida, e não veio.

E os grandes favoritos da competição? Ao menos um, Richard Linklater, subiu ao palco visivelmente desapontado e falou um tanto contrariado sobre o premio de direção por Boyhood. O fime foi consagrado por aqui, preferido entre a critica, segundo os rankings de revistas diárias do festival. Era dada como certa sua escolha para o Urso de Ouro. Não era o meu, por certo, mas com essa configuração de longe preferia o feito de filmar o crescimento de um garoto durante dez anos. Nesse sentido, ele leva para casa o Urso de Prata certo por um projeto que é eminentemente de direção. Também Wes Anderson era muito comentado, e para mim acho demais até mesmo o Grande Premio do Júri por The Grand Budapest Hotel. Mandou um bilhete, não ficou para sustentar seu prêmio.

Curioso que esse júri dispensou até mesmo uma saudação ao bom cinema da casa que se viu por aqui, em especial Jack e Stations of the Cross, sendo que este levou melhor roteiro. E só. Esta será por certa uma edição marcada por princípios equivocados desde seu início. Será que valerá a pena prosseguir numa avaliação no futuro?