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Cultura

65 Festival de Berlim

Panahi vai de táxi e Herzog de camelo

por Orlando Margarido — publicado 06/02/2015 16h30
Enquanto o diretor iraniano confere dimensão criativa ao seu cerco, o colega alemão retrocede para um cinema convencional e aborrecido

Por esta ninguém esperava. Ou não? Prata da casa, Herzog tem realizado projetos documentais de fôlego, poderosos mesmo, como a sua série no corredor da morte de prisões americanas e o belo Caverna dos Sonhos Esquecidos. Agora volta a ficcão, mas por meio de uma história real. Melhor teria sido, quem sabe, documentá-la. Seu Queen of the Desert só não é constrangedor porque é producao caprichada, daquelas de que somente um diretor respeitado consegue levantar recursos. E elenco. Sua rainha do deserto é interpretada por ninguém menos que Nicole Kidman. Seus parceiros, James Franco e Robert Pattinson.A platéia de jornalistas não segurou a risada quando o último apareceu em traje beduíno. Não por sugerir tanto algum ridículo, mas é que ver a estrela de Crepúsculo surgir assim... Pattinson é T.S. Lawrence, e se você pensou em Lawrence da Arábia como referência a Herzog, acertou. Tudo remete ao filme de David Lean, inclusive a trilha sonora. Curioso que ontem perguntaram a Isabel Coixet se ela havia se inspirado no diretor inglês para Nobody Wants the Night. Ela preferiu Flaherty, e fez mais sentido. Há muito em comum entre os dois filmes. A exploradora de Coixet, também real, enfrenta o gelado Polo Norte para achar o marido.Lá era a neve, agora é a areia e a dureza do deserto. E é a desilusão de uma paixão, quando seu escolhido morre, que leva a personagem  de Kidman a fazer do povo árabe e aquele cenário sua justificativa de vida.Gertrude Bell é seu nome, a tal mulher independente e a frente de seu tempo, que paga o preço por isso ao não encontrar na Inglaterra pretendente a altura. Herzog nâo nos poupa do registro convencional, do romance dramatizado ao tipo desafiador de Bell que abrirá caminho a conquistas do povo árabe. Claro, a colonização, o embante entre a dita educação civilizada e a ancestral estão em pauta, mas fica a pergunta da razão de abordar tudo de maneira tão conservadora.

Pelo contrário, Jafar Panahi nos trouxe de novo o caminho criativo que lhe é permitido no Irã. Como se sabe, ele cumpre uma espécie de degredo simbólico, pois obrigado pelas autoridades a se afastar de uma terra que lhe é tão cara, o cinema. Como em Isto Não É um Filme e Cortinas Fechadas, ele se utiliza da autorreferência e se coloca como protagonista e retoma situações de seus filmes anteriores, quando ainda não era um perseguido oficial. O filme se chama Táxi, e ele próprio é o condutor pelas ruas de Teerã. Podemos pensar se tratar de início de um documentário, mas logo as passagens vão expondo sua encenaçao, sem com que isso percam força. Há a discussão entre uma professora e outro passageiro, um pequeno escroque. Vem entao um vendedor de filmes piratas. O táxi é coletivo. As pessoas vão entrando e saindo. Lembra Cuba. Duas senhoras entram com um pequeno aquário com um peixe, referencia a Balão Branco. E quem lembrou da adorável menina do filme de Panahi, vai se encantar com esta agora, apresentada como sobrinha do diretor. Ela tem de fazer um filme para a escola, e todo o tempo questiona o talento e reputação do tio. Hilário. Mas Panahi, claro, não fez o filme para se divertir. Sua difícil condição e a de um país severo e autoritário, também atrelado a pesada carga religiosa, se evidencia a todo momento, em especial quando uma advogada surge com um ramo de flores. Belo filme, e com a tradição política da Berlinale não deve passar em branco pela premiação.