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Cultura

Cannes

Os últimos como primeiros

por Orlando Margarido — publicado 24/05/2015 13h06
Da Hungria e do México vem os concorrentes mais potentes de uma competição mediana
Divulgação
Saul Fia

Cena de Saul Fia: primeiro filme exigido no festival desponta como favorito

Saul Fia, ou o filho de Saul, foi o segundo filme exibido na competição e de pronto ganhou o boca a boca no festival. Se não unânime, o concorrente húngaro saiu disparado na preferência de boa parte da imprensa especializada. As sessões lotaram e somente hoje, com a reprise de todos os competidores a Palma de Ouro, foi possível recuperar o drama impactante do estreante László Nemes. Não é raro encontrar certa aversão  atual dos espectadores ao tema do holocausto, compreensível em termos, tamanha a constância de sua evocação pelo cinema. Mas há algo tão pulsante e incômodo em Saul Fia, no partido estético opressivo e na abordagem, que se pode dizer tratar-se de uma exceção obrigatória.

A Fipresci, a federação internacional dos críticos de cinema, já reconheceu a contundência da produção e ontem concedeu a ela seu prêmio. Costuma ser um indicador precioso para a decisão do júri oficial, resultado que saberemos logo mais, a partir de 19h no horário local, cinco horas a mais do que no Brasil. Além do mérito próprio, Saul Fia pode se beneficiar de um status em geral mediano de seus concorrentes, muitos realizadores estabelecidos que em maior ou menor grau desapontaram. Curioso, contudo, que os três últimos títulos exibidos ressoam uma temática que lhe são comuns. Se há a óbvia relação com a morte num filme sobre o genocídio dos judeus, nem tanto se poderia esperar em Valley of Love Chronic um olhar do trauma de quem desaparece e deixa marcas, sendo sobretudo este ente querido um filho.

A princípio o título húngaro parece desvendar de cara a situação filial. De certo modo, apenas. Saul (o ótimo Géza Röhrig, em interpretação contida) é o prisioneiro húngaro de um campo de concentração. Integra o chamado "sonderkommando", as unidades formadas por judeus obrigados pelos nazistas a lidar com o preparo e o descarte dos corpos das vítimas exterminadas nas câmeras de gás. É o horror maior entre os horrores, como qualificou Claude Lanzmann a partir das entrevistas em Shoah, o extenso documentário sobre a matança aos judeus. Com uma grande marca em "X" nas costas, estes homens colaboram para matar portanto sua própria gente, enquanto esperam a determinação para sua morte.

Entre um grupo recém-chegado, Saul se dá conta de um menino que agoniza e em seguida assiste sua morte final por injeção. Decide enterrá-lo na tradição judaica e para tanto precisa de um rabino. O obstáculo não são apenas os alemães, mas os próprios colegas, imanados em torno de um plano de revolta. Na tela em formato quadrado, o cenário escuro dos subterrâneos onde se dá a dizimação se torna ainda mais angustiante e claustrofóbico, com a câmera todo o tempo no rosto imutável do protagonista, buscando sobreviver para conseguir seu intento. Instala-se outra dúvida, talvez a maior em termos de narrativa, mas insignificante sobre a paternidade ou não. O filme atenta, afinal, há algo bem mais complexo sobre a que ponto pode ser rebaixada a dignidade humana.

Se a ética e outros valores parecem desaparecer por completo numa situação de limite como o holocausto, Chronic coloca em questão os mesmos preceitos na atualidade e em condição bem mais próxima e cotidiana. Tim Roth é o cuidador de doentes terminais que concilia uma tragédia do passado recente com a tentativa de superá-la pelos casos em tratamento. A perda do filho lhe deixa dedicado ao trabalho, e mais, ele assume as histórias dos pacientes como parte integrante da sua vida. Surgem percalços, como a acusação de uma família de assédio sexual. Quando ajuda uma doente de câncer a viabilizar uma atitude drástica, as realidades por fim se unem. Como em Depois de Lúcia, vencedor da seção Un Certain Regard há dois anos, o diretor mexicano  Michel Franco constrói de modo sofisticado e discreto sua crônica de uma morte anunciada, primeiro nos lugares fechados e fotografia clean que a tudo esmorece, como aquelas vidas que se esvaem, e em seguida no espaço exterior onde se dá o desfecho perturbador. O que não significa necessariamente inesperado, mas isso tem a ver com o desdobramento da competição, pois em registro bem menos original e algo constrangedor Gus Van Sant faz o mesmo em Sea of Trees. O epílogo de Chroniccontraria muitas opiniões por aqui. Isto não invalida a qualidade de um dos filmes mais bem delineados de uma competição morna.

É o que tenta também Guillaume Nicloux em Valley of Love, outro dos realizadores incensados em produção menor e agora mais ambicioso ao filmar nos Estados Unidos com Isabelle Huppert e Gerard Depardieu. As estrelas do cinema francês talvez sejam o melhor a acompanhar no drama do casal separado que viaja ao Vale da Morte americano impelido por um pedido em carta deixada pelo filho suicida. Ele promete surgir a eles, o que a espiritualizada personagem de Huppert acredita mais do que o ex-marido. Há a mesma construção em toada de suspense e pequenas alterações, mas tanto o percurso do roteiro quanto seu fecho não são a confirmação de um conflito familiar que poderia ser bem mais potente.     

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