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Cultura

Os primeiros (e uma novata)

por — publicado 29/08/2013 13h15, última modificação 29/08/2013 13h26
A competição oficial começa morna, mas com algo a se discutir

Passado o "evento" Clooney, que edição sim outra também comparece a Veneza, começaram os trabalhos oficiais. Esta manhã vimos os dois primeiros competidores da Venezia 70, a seção oficial da mostra, a qual se concederá os principais premios, entre eles, claro, o Leão de Ouro. Lembro-me de já ter sido pior este início, quando Marco Muller ainda era o diretor artístico. Dele restou ao menos uma boa piada entre nós, jornalistas brasileiros. Com sua saída, acabou o privilégio ao cinema asiático, que Muller adorava, nunca escondeu. Nos perguntavamos se era o caso de incluir tantos filmes chineses, japoneses ou coreanos etc, muitos ruins, e não aparecer nenhum brasileiro... Não que Alberto Barbera tenha mudado a situação. Este ano, fora a co_produção Amazonia, nosso cinema ficou fora até mesmo da paralela Horizonte, onde era habituê. Mas isso é outra história, mais complexa de averiguar. Fiz uma entrevista com Barbera há uns dois anos, em São Paulo, e ele atestou seu carinho com produção do País, e garantiu sempre leva la em conta quando da primeira fase de seu comando aqui. Este ano, nas entrevistas que concedeu, diz ter pensado uma seleção de realizadores mais jovens, alguns mesmo estreantes.

É o caso de Emma Dante, que assina o primeiro filme da casa em concurso,Via Castellana Bandiera. Diretora teatral de prestígio na Itália, ela é uma estreante no cinema e logo se adiantou a justificar na coletiva de imprensa que optou pela tela porque não conseguiria realizar a história no palco. Disto não há dúvida. Em Palermo, cidade onde nasceu, Emma cria um confronto dos mais inusitados, de contexto cultural particular e o uso de um recurso familiar a quem mora nas grandes cidades. Uma família volta para casa depois de um dia de trabalho no mar, com a matriarca ao volante, mulher já idosa e de tristeza irreparável pela perda de uma filha. Em outro núcleo, um casal de lésbicas se perde no caminho e vai parar na estreita rua onde mora a família, referência do título, no momento em que esta chega em casa. Os carros se encontram, e não há espaço para ambos passarem. Um terá que recuar. Mas as motoristas decidem fazer daquilo um duelo de honra e nenhuma arreda o pé do breque. Os vizinhos se intrometem, os homens da família brigam e a confusão se faz. Enquanto isso temos um retrato bem pouco reluzente daquele clã que vive de expedientes baratos, conversam, se é que se pode dizer assim, no dialeto siciliano e se entendem na sua rudeza. O oposto seria o apoio e o amor entre as mulheres homossexuais e entre uma delas e o filho adolescente que procura a via do entendimento.

Claro que a diretora, também uma das protagonistas lésbicas, quer compor um desenho mais ambicioso desta história no limite do absurdo, e não faltou quem perguntasse a ela porque sempre o sul meridional é o cenário dessas tramas que dão conta do italiano mais pobre, grosseiro e de temperamento cabeça-dura, o testardo, como se diz por aqui. Não se deixa de ter razão. Ano passado, Daniele Cipri, outro palermitano, apresentou aqui È Stato il Figlio, também uma visão bem radical e pouco sutil de uma familia disfuncional. A justificativa de Emma é ser Palermo sua casa, suas raízes e conhecer bem o povo sobre quem quer representar. Veio a baila também o tom óbvio de western que ela adota no conflito entre as duas mulheres, cada uma em seu carro, a mirar a outra, primeiro com ódio, depois com respeito. Tivesse Emma mais desenvoltura na direção talvez conseguisse render mais de um drama interessante. Pena que se perca em algumas situações reducionistas e apele a um fecho um tanto previsível e inverossímil.

Não é de verossimilhança que se sente falta em Tracks, o segundo concorrente da manhã, mas sim de alguma imprevisibilidade, de algum choque ou conflito que faça o filme sair de um prumo mediano. O diretor John Curran adapta a história verídica na Austrália (origem da produção) da jovem aventureira Robyn Davidson, que sob a influencia de um pai explorador atravessou o deserto do país sozinha, nos anos 70. Ou quase, já que levou consigo o cachorro e tres camelos. A priori neste tipo de aventura realista, sabe-se que ela foi bem-sucedida, na medida em que logo se aponta que a heroína contou sua história para uma revista, no caso a National Geographic. Mas não necessariamente se conhece a existência do fato. Temos, portanto,o interesse de saber como se deu a viagem, seus obstáculos e possíveis transtornos e sustos. Eles quase não vem, ao menos na pulsão de que já remarquei de mudar o clima da história, ou são os esperados.

Algo ainda me incomodou mais do que esse marasmo. Logo no início, há uma advertência aos povos aborígenes de que esses podem se sentir sensibilizados ao se verem representados na tela. No filme, eles surgirão como companheiros da jornada da jovem, respeitados em seus ritos e locais sagrados. A história da Austrália registra outro tratamento dos brancos em relação as etnias locais, que incluiu assassinatos em série e uma política de reeducação, chamada de assimilação. Ainda nos anos 70 não havia o reconhecimento a direitos desses nativos. Mesmo que o filme se detenha no sonho da jovem, cairia bem expor um tanto dessas contradições entre o passado, os anos 70 e hoje. Mas Curran é diretor correto, mas convencional, como se viu em filmes apenas bem narrados como O Véu Pintado. A correção aqui cumpre apenas uma história bem contada, própria para um documentário da National Geographic, o canal de TV. Mia Wasikowska também é competente como protagonista e não mais. Enfim, estamos no início, que se não desapontou de todo, também não surpreendeu.  CartaCapital