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os jovens Resnais e Kiarostami

por Orlando Margarido — publicado 21/05/2012 10h21, última modificação 21/05/2012 10h21

Cannes -- Caros, apenas um resumo rápido do que vimos aqui na competição entre a noite de ontem e a manhã de hoje, antes de seguir para a sessão de Pablo Trapero, que este ano com Elefante Branco está fora da oficial. E não é café pequeno. Os organizadores capricharam na agenda a nos fazer dormir com Kiarostami e acordar com Resnais. De uma certa forma é uma pena tamanha exigencia, pois confesso que não estava nas melhores condições para avaliar a surpresa que estes dois pesos-pesados da cinematografia mundial nos propuseram. O cansaço já começa a bater, ajudado por um tempo que nunca vi em Cannes, frio e chuvoso, numa media de 12 graus. Mas ainda resta disposição, claro. E Kiarostami talvez seja o que melhor se dispõe a arriscar nessa nova rodada. Seu filme se chama Like Someone in Love e mais uma vez trata-se como em Copia Fiel de uma produção internacional, agora no Japão. Uma estudante que trabalha como garota de programa e encrencada com um namorado vai atender um velho professor aposentado. Este, solitário, quer uma companhia e acaba por se interessar pelo bem-estar da jovem, perseguida pelo namorado. Com esta narrativa de poucos recursos dramáticos, o iraniano constroi um quadro de profundidade sobre relacionamentos, solidão e os limites do amor. Como todos quando estão amando, aponta o título. Os dialogos, especialmente a ocasiao em que o professor e o jovem irascível conversam no carro, são simples e geniais. Temos um tanto do formato de Copia Fiel, na conversa entre verdadeira e falsa do casal central, e isto talvez tire um pouco do impacto. Mas é possivel dizer que Kiarostami limou os excessos e tudo o que era artificial, justamente o mais provocativo no filme anterior, para se concentrar nas minimas significações dos personagens. Gostei muito, mas quero rever com olhos mais abertos.

Já Resnais tira de um jogo de encenação requintado um filme com frescor, ainda que o material e os interpretes sejam ja de algum dominio do espectador. Ele adapta uma peça de Jean Anouilh, autor tradicional da comédia francesa, baseada no mito de Orfeu e Euridice. O filme começa com o anuncio da morte de um dramaturgo a varios de seus amigos atores e que devem ir a casa do morto para o testamento. A metalinguagem já começa ai. Todos esses atores famosos do cinema frances interpretam a si mesmos, Lambert Wilson, Pierre Arditi, Michel Piccoli, e claro, Sabine Azema, musa de Resnais. Reunidos, tem uma surpresa. Uma filmagem mostra uma montagem rejuvenescida do mito e os proprios interpretes veteranos, antes envolvidos numa montagem da mesma historia, passam a contracenar e dialogar com o filme. Sâo varios os jogos portanto, o teatro dentro do teatro, o filme dentro do filme. Lembra em parte a mesma experiencia que Mathieu Amalric, no elenco aqui tambem, fez recentemente com um peça de Corneille, A Ilusao Comica. Mais do que ter gostado da proposta, fico positivamente surpreso com a jovialidade no nonagenario Resnais, ja pronto para realizar o filme seguinte. Até.

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