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Os finalmentes

por Orlando Margarido — publicado 24/09/2012 22h12, última modificação 24/09/2012 22h12

Brasília – Caros, daqui a pouco, às 20h, temos a entrega dos Candangos aos vencedores do festival. Relato rapidamente minha opinião sobre os quatro últimos concorrentes da edição.

Olho Nu – Quando se tem um personagem a se explorar como Ney Matogrosso, parece que não há a um realizador muito mais a fazer. Mas Joel Pizzini não se encolhe ante a figura, ou melhor as figuras prodigiosas do cantor, dentro e fora do palco, onde marcou seu estilo extravagante, sensual e provocativo, em contraponto ao Ney reservado, calmo e um tanto solitário que vemos na rotina de um sítio ou no conforto de um apartamento. Pizzini busca a relação mais íntima e genuína do músico através de um recurso poético, em que se soma uma elaborada reconstituição de seus hábitos cotidianos e um impressionante material de arquivo. Da gênese do Secos e Molhados a momentos de transição, como em Pescador de Pérolas, temos um Ney sintomaticamente desvendado para além do corpo que cansou de desnudar e rebolar nos shows. Como é prática no cinema de Pizzini mais recente, há talvez mais material do que o necessário nessa construção, o que redunda e torna o documentário um tanto mais longo do que era preciso. Ao mesmo tempo, o ritmo acelerado de informação e imagens, se combina com a energia do personagem, não deixa espaço para uma assimilação mais condizente ao espectador, um tempo para reflexão e, por que não, curtição desse grande artista. Não há nem ao menos uma música inteira ouvida no filme, o que o documentário de Walter Carvalho sobre Raul Seixas soube lançar mão para conquistar o público. Pizzini não veio a Brasília por ter compromissos na Europa e foi representado pela produtora, parceira constante e ex-mulher Paloma Rocha. Ponderei sobre esse aspecto feérico da montagem e ela justificou como sendo próprio da maneira de Pizzini conduzir seus trabalhos. Também necessário para acolher as faces e o extenso e variado percurso de Ney na vida e no palco. Mas é na seleção também que se engrandece um homenageado. Faria bem um enxugamento aqui e ali a este, ainda sim, belo filme.

Noite de Reis – Interessante como o filme de Vinícius Reis vem se somar a trabalhos delicados, de pequenos gestos e condução do olhar que já se viu em Eles Voltam e Era uma Vez Eu, Verônica. Na cidade de Parati, a tradição popular da festa de Reis serve como pano de fundo e se entrelaça ao drama de um casal que perdeu seu filho pequeno num incêndio de sua residência. Sabemos súbito da tragédia justamente pela cantoria do líder da festa que anda de casa em casa recitando casos da comunidade. Dora (Bianca Byington) é a mãe ainda marcada pela dor que continua a residir no local com a filha Júlia. O pai (o ator e diretor teatral Enrique Diaz) não aguentou o baque e partiu. Reaparece tempos depois para lidar com o fato trágico e causará desconforto e certa desconfiança a família que abandonou. O filme toma então o rumo dessa reconquista, quando Dora já buscava um caminho pessoal para prosseguir na vida, no cuidado com a filha etc. É de um fiapo de história, ainda que pesada na sua dramaticidade, que Vinícius banca seu filme e o conduz na dependência dos rostos e olhares, mais do que das poucas palavras, de seus protagonistas. Para tanto, precisava e conseguiu intérpretes talentosos. Senti apenas um registro ameno para uma situação que necessitava de maior impacto, no que pode se traduzir num confronto ou clímax.

Elena – Junto com Um Filme para Dirceu, e a indicação do nome no título parece dizer muito desse contexto, o último documentário exibido na competição me surge como exemplo de um equívoco da seleção brasiliense em separar os gêneros de documentário e ficção. Ao obrigar-se a cumprir um número de selecionados, Brasília abraçou produções nesse segmento, e talvez no outro, que talvez não merecessem o posto. Não digo que tenham qualidade ruim, apenas que um festival dessa trajetória e responsabilidade precisa extrair realmente o melhor de uma safra. Dirceu se enrosca no seu recurso dúbio de filme dentro do filme e na pouca elaboração. Elena, por sua vez, capricha no embrulho para nos fornecer um produto de validade limitada mais a quem o criou do que a quem vá apreciá-lo. Na primeira condição estão diretamente a diretora Petra Costa, irmã da personagem em questão, e a mãe de ambas. Elena é a jovem atriz mineira que no final dos anos 80 deixa Belo Horizonte e experiências como no grupo Boi Voador para tentar a sorte nos Estados Unidos. Entre idas e vindas, alguns convites e muita frustração, acaba por se deprimir, condição não só provocada pela carreira difícil mas também por certa tendência a melancolia. Tempo mais tarde, com a mãe e a irmã caçula já vivendo ao seu lado em Nova York, Elena se suicida. Petra refaz esse percurso de afeto e boas lembranças entre ela e a irmã por marcações do diário desta, algumas imagens caseiras em família e outras de um ambiente político que suscitou uma mudança de rumo nos anos 70. Tudo muito tocante, honesto e legítimo, mas que poucas vezes parece enlaçar o espectador e trazê-lo para o centro das relações, tornando-o mais participante do que mera testemunha. Nesse sentido, um caso similar e de acerto de proposta é Diário de uma Busca, que além de trazer a tona uma misteriosa passagem envolvendo a morte de um militante político, pai da realizadora, e ampliando-a a um contexto nacional,  também problematiza o fazer documental, o valor de levar ou não a tela um fato pessoal e fazer este pertencer a todos. Em suma, histórias que precisam ser medidas em sua relevância a todos, antes do que a alguns.

Esse Amor que nos Consome – Um fecho de ouro ao festival. Não só porque o belo trabalho de Allan Ribeiro, o último a ser exibido na competição na noite de ontem, tem qualidades intrínsecas, mas porque liquidou em definitivo a discussão da fronteira entre documentário e ficção, que é o maior questionamento feito a essa edição. Esse Amor... integrou o segundo round da noite, ou seja, aquele dedicado às ficções. Mas como se viu na tela do Teatro Cláudio Santoro, não se finca nem em um gênero, nem no outro. Por via das dúvidas, no processo de seleção, Allan se inscreveu nas duas categorias. E o próprio diretor e produtor Márcio Cury, integrante da equipe responsável pela ficção, testemunhou hoje no debate que ao constatar a qualidade do filme ficou receoso que nenhuma das seleções o escolhesse e lançou mão dele rapidamente. Conversamos a pouco num grupo de jornalistas com o coordenador do festival Sérgio Fidalgo e ele já avisou que a regra divisória será repensada. Mas isto é tema para outro post. Voltemos ao filme de Allan. Em Ensaio de Cinema, ele nos apresentou em formato curto a dupla de parceiros na arte e na vida Gatto Larsen e Rubens Barbot. No centro do Rio de Janeiro, eles tocam juntos uma companhia de dança de raízes afro, ou ao menos de temas recorrentes a essa tradição, de maneira quase artesanal, independente, em sistema de cooperativa. Agora a mesma dupla retorna na estréia em longa-metragem de Allan, que os contempla na mudança de casa, um prédio histórico um tanto debilitado e à venda, onde pensam e ensaiam provisoriamente seus atores-bailarinos. Poderia ser uma revisitação apenas ampliada do curta. Mas vai além e, na verdade, altera e soma algumas impressões do curta. O filme constata o dia a dia de ambos os protagonistas e seus colaboradores, nos passeios pelo centro de um Rio cinzento e chuvoso, contrário ao ensolarado cartão-postal, no encontro do simpático e generoso Barbot com personagens da rua, inclusive já surgidos em curtas anteriores de Allan, como A Dama do Peixoto. É pouco, quase nada de trama, que o diretor vai tecendo como uma colcha de retalhos que é símbolo do filme e surge num belo plano como o tableau vivant, um quadro vivo que surge já ao final integrando a todos da companhia. Um festival deve estar atento a raras incursões como esta, e se quase escorregou no momento de abraça-la, agora pode fazer mais e carimbar um aval longe da categorização fácil.