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Os bons, os dispensáveis e os polêmicos

por Orlando Margarido — publicado 24/05/2012 16h46, última modificação 24/05/2012 16h46

Cannes – Caros, estou há mais de dois dias sem postar pela correria aqui. Entrevistas, muitos filmes, filas gigantescas para tudo, e além disso, tendo que preparar meu material desta semana para a Carta. Vejam lá, a partir de sexta, um texto com entrevista de Pablo Larraín, que já comentei bastante aqui no blog, e também pequenas críticas do filme de Alain Resnais, de Pablo Trapero, com quem tive uma ótima conversa, e o novo do “jovem” Bernardo Bertolucci. Gostei muito de Io e Te, eu e você, sobre adolescente complicado, o que é quase um pleonasmo, que se tranca no porão de seu prédio para fugir do convívio social. Vocês poderão ver no Brasil, o filme foi comprado pela Califórnia. Vocês, claro, devem estar interessados na repercussão de On the Road, de Walter Salles, mas fiz um texto para o site de CartaCapital que depois reproduzo aqui. Apenas indico que gosto do filme, mesmo com seus problemas de queda de ritmo, o que acho a palavra certa pois embarquei logo de início no pique musical da proposta. Para facilitar a retomada aqui das análises dos filmes em competição de que não falei ainda vou separá-los em blocos:

The Angel’s Share – Não é o cinema político de Ken Loach na sua essência, mas por que não se divertir com um quarteto de jovens errantes determinados a consertar suas vidas numa última chance do crime? Loach, claro, não perde de vista os seus excluídos numa Escócia também marcada pela crise e mostra seu ótimo protagonista Paul Brannigan como reincidente num processo criminal depois de dar uma surra em um jovem e sua intenção de refazer a vida. Larga a bebida, torna-se pai, mas enquanto cumpre pena de auxílio a comunidade não consegue o respeito dos cunhados, que o perseguem. Descobre sua habilidade em reconhecer um bom uísque e propõe a amigos roubarem um raro barril da bebida que vale milhões. O título se refere a um momento de prazer especial que se obtem da bebida. Loach nunca é superficial e vai fundo nos detalhes, que cabe a nós também descobrir

Killing them Softly – O diretor Andrew Dominik, do ótimo O Assassinato de Jesse James deixa o universo do western pelo da jogatina ilegal em um estado americano. Mas o princípio de acerto de contas pela violência é o mesmo e aqui teremos um embate entre gangsteres modernos cuja painel de fundo é a crise americana e a eleição de Obama. Brad Pitt, o então Jesse James, faz o matador profissional contratado por um desses criminosos para abater um rival. Entre eles, dois pequenos e débeis marginais servindo de bode expiatório. Embora com um alvo interessante e certeiro na critica ao atual Estados Unidos, pouco se tem de original na trama além de violência a granel e tomadas que se pretendem sofisticadas. Não justifica estar na competição, e se está, é seguramente fazer média com um título cult com nomes de Hollywood.

Holy Motors – O filme de Leos Carax, que não fazia um longa-metragem há mais de dez anos, é uma espécie de ame-o ou deixe-o do festival. Eu fiquei na primeira turma e embarquei na aventura extravagante, de algum tom futurista, que é na verdade um painel das referências cinematográficas do diretor, com direito a citações literais de, A Bela e a Fera, Blade Runner e Max Mon Amour. Denis Lavant faz o personagem que se traveste de vários outros para cumprir fantasias que lhe chegam por ordens detalhadas. Roda Paris dentro de uma limousine equipada como um camarim, de onde sai como uma criatura miserável e horripilante ou um pai ciumento de sua filha adolescente. É tudo por fim cinema o que nos aponta Carax, e como tal, esta nunca foi uma linguagem de gênero e forma única. Muito menos o seu filme é assim, feito para agradar a todos.

 

Post Tenebras Lux – Como não poderia deixar de ser, o mexicano Carlos Reygadas leva desde já o troféu de filme enigmático da edição. Mas como são bonitos e cativantes seus enigmas! Fiquei todo o tempo tenso a espera de algum rompante trágico naquele tudo, e de certa foram ele vem, embora destituído de impacto. Começa com uma menina, criança ainda, num pasto em meio a vacas e cachorros que parecem que a qualquer momento vão ataca-la, sob uma iminente tempestade que se forma, deixando tudo escuro. A menina é filha de um casal que habita uma bonita propriedade numa zona de mata mexicana. O pai tem relações com os vizinhos pobres. Quando a família viaja, dois desses conhecidos aproveitam para roubar a casa, mas o dono retorna e os flagra. O pior vem com um tiro. Tudo isto não acontece numa narrativa linear. Reygadas inclui situações no mínimo estranhas, indo e vindo no tempo. Um diabo em forma de neón chega a um apartamento como se estivesse retornando do trabalho, para a surpresa de um garoto insone. Uma equipe de jovens jogadores de rugby se prepara para jogar. Numa sauna de swing, casais testam os limites da sexualidade. Parece e é  tudo desvinculado, mas interpretei como uma espécie de final dos tempos, os humanos confinados e em completa tensão. Gostaria de ter assistido a coletiva de imprensa, mas recuperarei depois com colegas para saber, afinal, qual a interpretação do diretor.