Cultura

Paulinia Film Festival

Ópera dos mortos

por Orlando Margarido — publicado 24/07/2014 18h23
A comédia brechtiana de Juliana Rojas que superou as expectativas

 

 

Ontem foi apenas a primeira noite de competição mas já se pode afirmar que tivemos a sessão mais surpreendente e original de todo o festival. Será afinal difícil superar a proposta irreverente de Juliana Rojas com sua comédia musical levada em um... cemitério! Sim, Sinfonia da Necrópole, é esse o nome de seu filme, tem como cenário o Cemitério do Araçá, em São Paulo, e uma extensão particular dele logo ao lado. Ao subir no palco com a equipe para apresentar o filme, Juliana já deu uma noção da particular simpatia que tem por esses locais que muita gente evita passar na porta, ou quando o faz, se benze. "Adoro passear em cemitérios, são lugares tão tranquilos, bonitos". Depois no debate desta manhã arremataria dizendo que costuma visita-los em suas viagens para ter uma idéia da história do lugar. Mas nem mesmo sabendo da apreciação desta jovem diretora poderíamos esperar o que se daria na tela. Deodato é contratado como coveiro, indicado pelo tio, também na profissão. Mas inapto para o trabalho, costuma desmaiar quando abre os túmulos. O responsável então aproveita uma iniciativa de modernização do cemitério para lhe passar o encargo de reorganizar os dados das sepulturas junto com uma executiva do serviço funerário. Este é o mote inicial. O que faz toda a diferença, no entanto, é o tom cômico e as canções compostas com a colaboração de Marco Dutra, parceiro habitual de Juliana, que hora ou outra surgem da boca dos atores, quebrando por completo o naturalismo que o projeto já na origem descarta.
Propostas como esta tendem a ser um desafio para que se evite o histrionismo, ou pior, a possibilidade do tom desandar por completo. Mas a diretora tem seguro seu intento com a inspiração em Brecht, e as canções de Kurt Weill sao referencia explícita, um ótimo elenco com atores vindos do teatro (em especial os protagonistas Eduardo Gomes, Luciana Paes e Hugo Villavicenzo), e um conceito farsesco combinado na medida com um estudo crítico. Como em Trabalhar Cansa, o longa anterior com Dutra, a questão das relações trabalhistas e as regras do mundo corporativo também estão presentes, como foi lembrado no debate da manhã. Já era quase meia-noite quando a sessão prevista para 21h30 teve início, atrasos que podem ser, sem ironia, matadores para a apreciação de filmes. Terminamos mortos,mas em estado de graça com um filme a que se lembre único na produção contemporânea nacional.

Ópera dos mortos
Ontem foi apenas a primeira noite de competição mas já se pode afirmar que tivemos a sessão mais surpreendente e original de todo o festival. Será afinal difícil superar a proposta irreverente de Juliana Rojas com sua comédia musical levada em um... cemitério! Sim, Sinfonia da Necrópole, é esse o nome de seu filme, tem como cenário o Cemitério do Araçá, em São Paulo, e uma extensão particular dele logo ao lado. Ao subir no palco com a equipe para apresentar o filme, Juliana já deu uma noção da particular simpatia que tem por esses locais que muita gente evita passar na porta, ou quando o faz, se benze. "Adoro passear em cemitérios, são lugares tão tranquilos, bonitos". Depois no debate desta manhã arremataria dizendo que costuma visita-los em suas viagens para ter uma idéia da história do lugar. Mas nem mesmo sabendo da apreciação desta jovem diretora poderíamos esperar o que se daria na tela. Deodato é contratado como coveiro, indicado pelo tio, também na profissão. Mas inapto para o trabalho, costuma desmaiar quando abre os túmulos. O responsável então aproveita uma iniciativa de modernização do cemitério para lhe passar o encargo de reorganizar os dados das sepulturas junto com uma executiva do serviço funerário. Este é o mote inicial. O que faz toda a diferença, no entanto, é o tom cômico e as canções compostas com a colaboração de Marco Dutra, parceiro habitual de Juliana, que hora ou outra surgem da boca dos atores, quebrando por completo o naturalismo que o projeto já na origem descarta.
Propostas como esta tendem a ser um desafio para que se evite o histrionismo, ou pior, a possibilidade do tom desandar por completo. Mas a diretora tem seguro seu intento com a inspiração em Brecht, e as canções de Kurt Weill sao referencia explícita, um ótimo elenco com atores vindos do teatro (em especial os protagonistas Eduardo Gomes, Luciana Paes e Hugo Villavicenzo), e um conceito farsesco combinado na medida com um estudo crítico. Como em Trabalhar Cansa, o longa anterior com Dutra, a questão das relações trabalhistas e as regras do mundo corporativo também estão presentes, como foi lembrado no debate da manhã. Já era quase meia-noite quando a sessão prevista para 21h30 teve início, atrasos que podem ser, sem ironia, matadores para a apreciação de filmes. Terminamos mortos,mas em estado de graça com um filme a que se lembre único na produção contemporânea nacional.