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O último River Phoenix

por Orlando Margarido — publicado 14/02/2013 17h28, última modificação 14/02/2013 17h28

Berlim – George Sluizer reapareceu hoje na Berlinale. George quem? Nos anos 60 e 70, esse holandês de origem nascido em Paris era próximo do Brasil e do círculo do Cinema Novo. Em 1972 realizou A Faca e o Rio no Nordeste, adaptando um romance de Odylo Costa Filho, com Jofre Soares e Ana Maria Miranda, ou a escritora depois conhecida apenas como Ana Miranda. Uma década depois voltou a Amazonia para participar da produção do famigerado Fitzcarraldo, de Herzog. Seus filmes posteriores, não muitos até hoje, sempre se marcaram por produções de identidade e lingua diversificadas, inclusive uma adaptação da Jangada de Pedra, de José Saramago. Mas não é por estas experiências que Sluizer foi convidado a Berlim. Seu mais recente filme, uma expressão delicada para o caso, é na verdade um longo e complexo projeto chamado Dark Blood. Você já pode ter ouvido falar dele. É o último trabalho de River Phoenix nas telas. O ator morreu em 1993, aos 23 anos, de overdose e não chegou a terminar o filme. Sluizer desde então lutou contra sua própria reticência em dar fim ao projeto e quando decidiu reaver o material e tentar remonta-lo deu de cara com problemas com a companhia de seguro, agora parte de uma holding, e só foi adiante porque soube que o filme seria destruido. Tudo isso entre 2007 e 2009. Hoje o filme foi exibido aqui, em sessão especial, fora de concurso.
Sluizer contou toda sua saga logo depois da exibição na coletiva de imprensa. Chegou numa cadeira de rodas em função de um aneurisma que o acometeu e deixou-o desenganado pelos médicos. Apesar disso, deu conta de recontar toda a história. Também foi devido a doença que demorou para concluir, por assim dizer, o filme. Na verdade, o grosso da história está ali, e as cenas não filmadas são completdas por uma narração em off dos diálogos do roteiro. Um casal de atores famosos (Jonathan Pryce e Judi Davis) atravessa o deserto americano para chegar a Los Angeles mas o carro quebra. Quem os acolhe é Boy, o apelido do personagem de Phoenix. Ele mora numa cabana isolada no meio da reserva indígena de seus antepassados, local que o governo americano utilizou para testes nucleares. Os efeitos da radiação levaram a morte muitos dos indígenas, inclusive a mulher de Boy. O rapaz, desde então, constroi uma espécie de retiro espiritual numa caverna, sonha em reconstruir uma vida que teve no passado. Enxerga na bela Judi Davis a mulher para isso. A tensão, então, se instala entre o trio.
O filme caminha para um thriller psicológico, gênero que Sluizer aprecia, como se viu em alguns de seus filmes exibidos na Mostra de São Paulo, onde já esteve, a exemplo de O Homem que Queria Saber. Mas é inevitável que a quebra nas cenas inexistentes tire um tanto do suspense entre o trio. E, claro, o destino final de Boy facilmente se torna sintomático do que aconteceria com Phoenix, na leitura metafórica de quem quiser fazer. Na coletiva, Pryce e o diretor relembraram a figura amorosa e simpática do ator na convivência. Pryce diz nunca ter percebido nenhuma ocorrência do jovem colega em relação as drogas. “Ele me chamava de senhor, era adorável”. “Certa vez, em São Francisco, ele viu que eu estava doente e foi a farmácia comprar uma aspirina, e já era bem conhecido naquela época”, lembrou Sluizer. Ele foi vago em relação a uma possível distribuição, mas apontou que há uma discussão positiva com a seguradora no momento para liberar o filme. “Isto é hoje. Amanhã ou depois eles podem dizer sim ou não”. Esperemos que a platéia possa rever os ultimos minutos de River.

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