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O tempo não para, quem para somos nós

por Orlando Margarido — publicado 23/01/2012 02h43, última modificação 23/01/2012 02h43

Tiradentes – Escolho a frase de Maria Sebastiana, a dona Bastu, personagem mineiríssima de 83 anos do documentário (com muitas interrogações) de Helvécio Marins e Clarissa Campolina, para “titular” esse post e assim dar conta da correria do final do dia de ontem e hoje aqui em Tiradentes. A sessão de Girimunho está acontecendo agora na tenda da praça principal da cidade. Assisti a apresentação do diretor, revi o início do filme e aqui estou para trazer a vocês um resumo desses dois dias. Vi o filme pela primeira vez numa sessão do Festival de Veneza, onde concorreu numa seção paralela, e de novo na Mostra paulistana. É muito bonito, tocante, comovente mesmo. Dona Bastu diz a frase para um rapaz, Batatinha, logo depois de perder o marido ferreiro, um festeiro chegado numa boa cachaça. O rapaz chora a perda e cobra as lágrimas da viúva. “Pra que”, replica ela. “Eu e ele fizemos um acordo para não chorar a morte do outro”. E a razão por que questiono o gênero documental ao qual o filme se associa na aparência se dá no limite em que os diretores tratam seus convocados ao filme. Além de Bastu, há também Maria do Boi, de mesma idade. Elas moram numa vila esquecida do interior mineiro, daquelas que herdaram de alguma maneira a tradição da cultura escravocrata. O filme trata do cotidiano desses moradores, mas até que ponto estão apenas sendo reais ou representando para a câmera é um dos dilemas, no bom sentido, do trabalho da dupla. Conversamos sobre isso em Veneza e Marins e Clarissa, claro, não querem desvendar todo o dispositivo, aliás muito requintado, utilizado para compreender aquele universo parado no tempo. Disseram apenas que ao aceitar ser filmada, falar sobre si e a vida, dona Bastu se tornou uma espécie de guia das filmagens. Mais um grande personagem que a recente safra documental brasileira vem nos apresentar.
Curioso ter esperado até aqui para fazer um balanço, porque outros dois filmes exibidos convocam o mesmo tipo de debate e exigências de leitura. Antes de Girimunho, que significa redemoinho no linguajar local, o público viu o documentário (agora no estrito senso) As Hiper Mulheres, já exibido no ano passado nos festivais de Gramado e Brasília com ótima aceitação da plateia. O que prova sua empatia apesar do tema não muito palatável. Essa investigação poderia se situar no campo etnográfico se agora um trio não nos introduzisse a um meio de modo tão inesperado. Esse meio, ainda que o título venha sugerir algo mais pop, é o indígena, mais especificamente da etnia Kuikuro. Por isso se explica a união do diretor Leonardo Sette ao antropólogo Carlos Fausto e a um jovem da tribo, Takumã Kuikuro. Por sorte eles contornam o que poderia ser um aborrecido estudo acadêmico ou pior, exótico, para traçar seu intento através de um ritual tradicional desses indígenas, uma festa liderada por mulheres como uma espécie de reafirmação da sexualidade feminina. Mas isso não é colocado de imediato. Primeiro se tem a impressão de circundar apenas cantos femininos, vocação da tribo que vem se perdendo por não contar mais seguidores preparados. Mas é depois, ao final, a revelação de que ali, no Alto Xingu, pelo menos, são as mulheres que mandam. Cativante, principalmente quando adota uma tradução (claro, ouve-se os indígenas em sua língua própria) popular e bem-humorada, o filme apenas escorrega em repisar algumas situações.
Mesmo sendo filmes de envergadura experimental, nenhum deles tem a radicalidade que nos trouxe Ricardo Miranda com Djalioh. Para mim foi o título que abriu a via mais empolgante desse festival em sua 15ª edição. Billi Pig pode lá correr seus riscos no emaranhado de citações e referências de gênero, mas é ainda sim um trabalho que aspira mais a um diálogo fácil e pronto com o público. Já Djalioh é pura invenção, e paradoxalmente, tradicional. Isso porque conta uma história, ponto, e pelo meio da narração em off, o que faz a diferença e a qualidade do filme. Miranda se inspira em Flaubert. O autor de Madame Bovary escreveu um conto baseado, até onde se sabe, em notícia de jornal. Em algum lugar primitivo, uma mulher negra teria sido atacada por um orangotango e dele gerado um filho. Essa criatura tornou-se para o escritor um objeto de estudo, e no conto, também na visão de um especialista francês. O formato como Miranda nos revela a história é sofisticado. Em cena, duas atrizes interpretam Adèle, a mãe, dividindo-se entre razão e emoção. Outro ator faz papel duplo, o do ser que foi parido e de Paul, o francês. Entre o interior e exterior de uma casa cercada por densa vegetação, fazem uma representação simbólica do que se conta. Um filme exigente, com diversas referências a autores como Sartre e Georges Bataille, que propõe um interessante questionamento do que é afinal o ator de representar. Há uma curiosidade nisso. O cinema conhece Ricardo mais pela faceta de montador de grandes filmes e diretores do Cinema Novo. Ele começou com ninguém menos que Glauber Rocha em Idade da Terra. Trabalhou com Saraceni e prosseguiu sempre numa toada alternativa, parceiro de Zé do Caixão e Ivan Cardoso. Mas também construiu carreira própria na direção experimental, na qual Artur Omar é seu principal companheiro. É mais dessa convivência última que nasce Djalioh, filme radical, o primeiro da nova fornada por aqui.
Talvez no meio do caminho desses três filmes esteja o ótimo Hoje, de Tata Amaral. No mesmo bloco da noite também esteve Vou Rifar Meu Coração, um caso de esquentado debate em Brasília, mais por complicadas questões de posicionamento, dentro e fora do filme, da diretora Ana Rieper. Vocês devem ter sacado que com esse título da canção de Lindomar Castilho o assunto não é outro. Trata-se de um documentário sobre a música dita brega, ao menos romântica e popularesca, desses grandes nomes de vendagem. Não vou me alongar, já tratei do filme, mas as opções em expor demais personagens folclóricos, e expor de menos, ou mesmo ocultar fatos são questionáveis. Brasília, ou melhor a jovem plateia atuante de lá, adorou, pois embalo musical o filme tem. Mas a escolha do júri foi outra. Preferiu Hoje para melhor filme. Tata, por esquecimento ou modéstia, provavelmente esta última, nem citou o feito ao público na apresentação de ontem a noite. Tata quebrou o pé pouco antes de embarcar para Tiradentes. Decidiu que queria vir de qualquer jeito defender seu filme. Nos encontramos já em Congonhas e o susto e o aborrecimento de andar de muletas logo se revelou uma diversão e um bom motivo para ficarmos conversando sobre o drama, digo do pé. Já escrevi sobre Hoje no meu blog particular. O debate em Brasília foi esclarecedor, inteligente, também porque estava na mesa o crítico Jean Claude Bernardet, um dos roteiristas. Ele reafirmou que não leu o livro Prova Contrária, de Fernando Bonassi, no qual o filme se baseia. “Fiz o filme que a Tata viu no livro”. Bernardet é radical, Tata mais pé no chão (um deles agora, pelo menos), sem abrir mão da emoção. O filme carrega essas duas vertentes com um raro equilíbrio. Retoma a cara e dura questão dos esquecidos da ditadura, mulheres, maridos e parentes que perderam seus entes no abismo do período e nunca tiveram um corpo para velar, fazer o luto, como Tata lembrou em conversa hoje. A personagem de Denise Fraga (você nunca viu a comediante tão séria e imbuída como neste filme) é uma dessas mulheres. Com o dinheiro da indenização tardia pelo companheiro de militância que perdeu, ela compra um apartamento. No dia da mudança, entre empecilhos domésticos como portas que não abrem, torneiras que não funcionam, Luis, o companheiro tido como desparecido (o uruguaio Cesar Troncoso) retorna. Inicia-se um diálogo duro, de culpa, a respeito de traição, pois houve delação, não natural, mas sob tortura como se sabe que a polícia da ditadura fazia. Tata e Bernardet usam de um expediente para incluir Luis no dia de felicidade de Vera, a companheira. Em Brasília, a assessoria do filme chegou a pedir que não se revelasse o dispositivo principal do filme. Aqui, em Tiradentes, os realizadores parecem ter relaxado na questão. Falaram francamente sobre o evidente. Luis é um fantasma, ou ao menos, uma cria da imaginação traumatizada de Vera. Essa revelação não derruba o filme, pelo contrário. É necessário vê-lo para entender como essa mulher se livrará dessa alma não devidamente expurgada. Todo o filme se passa no único ambiente do apartamento. É o que os franceses denominam de huis clos, um drama conflagrado entre quatro paredes. Tata não faz isso pela primeira vez. Desde Um Céu de Estrelas, passando por Através da Janela em grande parte, a opção existe. Há mais a ligar os filmes, como lembrou Bernardet na mesa. Uma navalha que não corta o rosto em Um Céu, o faz agora. Tata está fechando um ciclo, e com um filme que também faz ligação com um doloroso assunto de família. E não é que o curta-metragem de sua filha Carú leva justamente o título Um Assunto de Família. Foi exibido por aqui hoje, e com um toque de maturidade que promete dar boa continuidade ao nome da mãe. Esperemos o tempo, então, que não para. Amanhã tem mais. Desligo agora, até.

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