Política

Cine PE

O saldo

por Orlando Margarido — publicado 02/05/2014 18h11
Um desequilíbrio para refletir na maioridade

Logo mais acontece a premiação do 18º Cine PE. Houve bons competidores, equilibrados entre si, mas nenhum filme surpreendente, que significasse a diferença num festival em transição. O evento dos Bertini se internacionalizou, foi buscar fora material que o colocasse num patamar diferenciado de seus similares no País. Há quem note que a produção nacional ainda não é tão numerosa a ponto de atender com ineditismo todos os festivais que se multiplicaram pelo Brasil. Recife se ressentia da limitação de não poder trazer títulos inéditos e de qualidade para atender sua grade. Havia também o desejo do casal de ampliar-se, abrir-se ao mundo. Em que pese uma primeira edição remodelada e se leve em conta as dificuldades naturais da estréia, o resultado talvez seja menos complexo na seção internacional e mais problemática na brasileira, o que não se justificaria pela experiência do festival. O quadro complicado se atesta também pela perda vertiginosa de público, e não seria nada mal pensar em trazer o festival para a zona central da cidade, onde se dispõe de boa estrutura. Onde está, na fronteira de Olinda, cria-se outra dificuldade, a de acesso. Veremos a partir das 20h30 a decisão do júri oficial, agora apenas no registro da ficção, já que os documentários já foram laureados. A seguir, faço rápida análise dos competidores das últimas noites.

Todos Tenemos un Plan

O filme da argentina Ana Piterbag tem de cara duas qualidades fundamentais, mais uma interpretação vigorosa de Viggo Mortensen e o trabalho em um registro de thriller arriscado, que vai de um nuance comedido a violência explícita. A presença de Mortensen se explica pela co-produção internacional, mas a diretora explica que desde sempre pensou nele para o duplo personagem. Isto porque além do médico em crise existencial, o ator também interpreta o gêmeo, um tipo oposto a vida burguesa do irmão, que permaneceu na comunidade ribeirinha pobre onde nasceram e ali se tornou integrante de um trio de sequestradores. Este, ao descobrir-se com uma doença terminal, vai procurar o irmão doutor e lhe apresenta um revólver. Parecia disposto ao suicídio? Ou quer um acerto de contas com seu duplo que deu certo, digamos, na sociedade? Acontece que o irmão bem-sucedido está deprimido. A mulher (a bela Soledad Villamil, de O Segredo dos seus Olhos) cobra-lhe a adoção de uma criança. O médico quer sumir e vai ao limite para tanto, tomando o lugar do outro com o ônus do contexto de marginalidade. Um mundo masculino sobretudo, mas quebrado pela única personagem sincera e inocente, até onde é possível, uma garota que dará o sentido de esperança ao enredo. Muito especial a ambientação a beira do Tigre, marcado pelo rio e as diferenças sociais, representativa também da dualidade dos personagens. Se não chega a ser inovador, o filme tem valor ao conduzir com habilidade essas perspectivas dissonantes.

Mundo Deserto de Almas Negras

O concorrente paulista parecia apontar para uma distopia no mínimo curiosa. Em futuro incerto, a maior metrópole da América Latina não é mais dominada por uma classe média branca, mas sim negra, e aos brancos caberia o entorno, a periferia. Assim, o personagem principal, um advogado negro, atende por um lado a um milionário branco esnobe, manipulador, enquanto seu carro é dirigido por um motorista branco e tem de fugir de um criminoso recém-libertado da cadeia, branco também. Confesso que não entendi onde ficam as polarizações, exceto as óbvias, entre os dois mundos. Mas não é apenas isso que descamba no filme de Ruy Veridiano, excessivo na mise-en-scène, constrangedor na pobreza da narrativa, e se tiver, no contexto ético. A equipe, diretor, produtora, justificam que é um universo proposital, de muitas referências de exagero proposital que, parece, não somos iluminados o suficiente para entendê-las. Bem, a essa altura, é difícil acreditar que não seja uma saída honrosa para tamanho equívoco. É disparado  o pior filme desta seleção, embora com o andar das curadorias dos festivais, não se pode dizer que seja o pior entre os piores.

Anni Felici e O Menino no Espelho

Analiso em bloco os dois filmes porque o tema da infância os une. E não por acaso foram programados assim pela curadoria para uma das boas noites do festival. Anni Felici é do italiano Daniele Luchetti. Vocês o conhecem pelo belo filme Meu Irmão É Filho Único. O seguinte, La Nostra Vita, creio não ter sido exibido em circuito daqui, mas circulou pelos festivais internacionais. Em ambos, como agora, o registro familiar e delicado se impõe. Apenas que desta vez há o que parece um universo autobiográfico, visto pelos olhos de um garoto pré-adolescente que reconta sua vida nos anos 70, os tais anos felizes. Seu pai (Kim Rossi Stuart) é um artista performático que busca o reconhecimento crítico, o sucesso, mas está sempre as voltas com o desencanto. Quem segura a onda é a mulher (Miccaela Ramazzotti), considerada pelo marido não compatível com sua genialidade. Mas o amor e o ciúmes, entremeado pelas brigas constantes, mantém o casamento, ao que o garoto e seu irmão caçula assistem entre vítimas e críticos. O cinema entra na história na forma de uma câmera presenteada ao mais velho. Luchetti é habilidoso em conquistar a empatia do público, mas para um festival haveria a necessidade de filmes mais ambiciosos. E novos. Neste caso, o filme chegou a ser exibido dentro do Brasil em mostras, o que perde seu vigor.

Já O Menino no Espelho é a adaptação dos contos de Fernando Sabino e sua maior força está na bela produção de época que o diretor Guilherme Fiuza Zenha se empenhou. Ganharia mais com uma agilidade na trama. As estripulias do protagonista sugerem mais um filme sobre a infância, do que um filme infantil, como se disse por aqui, e nisto reside a opção de um tempo rarefeito para que se retorne a um cotidiano dos anos 20 na Belo Horizonte que foi recriada em Cataguases. Singelo, mas há de se perguntar se voltado a um público infantil ou a adultos com nostalgia.

Romance Policial

O ótimo debate hoje com o diretor Jorge Durán talvez diga mais do que as qualidades do filme. Durán é chileno de longa carreira por aqui, e seus filmes mais recentes, depois de longa pausa na direção e apenas no trabalho de roteirista para terceiros, privilegiam o Rio de Janeiro onde mora. Mas neste filme de gênero, como aponta o título, ele foi ao Chile para encenar no deserto do Atacama a experiência de um escritor em busca de inspiração e mesmo de um sentido de vida. É o personagem de Daniel de Oliveira. Ao chegar no vilarejo de San Pedro, o motorista que lhe deu carona aparece morto. Mais do que as pistas recaírem sobre ele, é o delegado local que suspeita dele e força a barra para incriminá-lo. Mas há uma bela jovem entre os dois a piorar o cenário, e nem tanto é a resolução do crime o elemento condutor, e sim as verdades e mentiras daqueles personagens desolados, integrados a aridez do cenário. Interessante o trabalho que Durán faz com o tempo para um thriller, vá lá, romântico, mais ralentado, vagaroso, e o único momento em que apressa a condução é o da revelação, um tanto atropelado. No mais, um filme com interessantes apreciações, do ambiente e das pessoas que nele circulam, estrangeiros ou genuínos, como a índia vieja que tudo sabe.

Muitos Homens num Só

Com o filme de Durán, a adaptação muito livre da diretora carioca Mini Kerti de um relato de João do Rio formou a melhor noite desta edição do festival. Ao fait divers de um famoso e sofisticado ladrão que atuou no Rio no início dos anos 20 (papel de Vladimir Brichta), somou-se a liberdade de um romance entre ele e uma jovem de alta estirpe casada (Alice Braga), que tem o hobbie de desenhar. Em paralelo, corre a trama também adicionada da experiência científica que levou Felix Pacheco a adotar o exame de impressão digital para a investigação policial. Bem, pode-se supor o que acontece entre o par central e o desenrolar da trama quanto as ações do galante ladrão. O filme conquista pelo charme dos protagonistas, o requinte da reconstituição de época, mas sobretudo renova no cinema a memória do cronista Paulo Barreto, o João do Rio, homenageado no personagem de Silvio Guindane. Fez o Cine PE, afinal numa edição problemática, terminar com alto astral.