Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Orlando Margarido / O que querem os alemães?

Cultura

Berlinale

O que querem os alemães?

por Orlando Margarido — publicado 09/02/2014 12h23, última modificação 09/02/2014 16h02
Os três filmes da casa já exibidos sugerem uma crítica moral a Alemanha de hoje
O radicalismo católico: na Alemanha de hoje

O radicalismo católico: na Alemanha de hoje

Berlim -- Ainda falta ser exibido um competidor do país anfitrião da Berlinale, na verdade uma co-produção. Mas os três longas alemães já vistos, e não por acaso na sequência desses três dias de competição, dá o que pensar numa perspectiva crítica do país. Já comentei Jack, um retrato que se apresenta de intimidade em uma família disfuncional, sem a figura paterna, em que as duas crianças protagonistas, dois meninos, penam para entender, afinal, que amor é esse de uma mãe que não faz muita questão de estar com eles.O mais velho vai para uma instituição de menores onde aprende duramente a convivência com iguais. No limite, há uma sociedade de valores desvirtuados ali representada. São questôes morais e sociais que se articulam com os demais filmes. Surpreendente saber do triângulo amoroso que viveu um dos grandes poetas alemães. Schiller é o personagem de Beloved Sisters. Mais central que ele são no entanto as duas irmãs amadas do título. Amadas por ele, Schiller, e correspondido na mesma medida por elas. Uma dessas irmãs é casada. Sacrifica-se pela caçula, para que esta se case com o também filósofo, o que acontece. Mas o trio prossegue, entre idas e vindas, no seu amor. Isso num período de conservadorismo da segunda metade do século 18. As irmãs provêm de uma família mais liberal. Mas isso não explica tudo. Num universo cultural mais desenvovido, elas podem se revezar na cama do mesmo homem. O filme é tão bonito quanto longo, com quase três horas, e talvez não haja um elenco tão belo em outro filme da competição.

E por que o diretor Dominik Graf traz essa história agora? Nem só a Alemanha, mas o mundo, vive um retrocesso nos valores, nas idéias, está mais conservador, retrógrado. Enfim, encaretou.O trio, é verdade, vive um tanto a parte das convenções e paga o preço de ter de levar a vida longe da corte e luxo palacianos. Talvez hoje seja difícil se colocar a parte de regras sociais, pois elas infligem sua força e limite todo o tempo, sem que se possa escapar. Problema, entre outros, do mundo globalizado. Uma das questões mais provocativas nesse aspecto é o da religião e o tema nos leva ao terceiro filme. De volta a atualidade, Stations of the Cross mostra uma família católica radical em que Maria, a filha adolescente, é a maior vítima da severidade da mãe. Cerceada em seus atos, é proibida de conviver com meninos e a todo instante lembrada do pecado de, por exemplo, se interessar por rock. Na preparação para a crisma, aprende que tem de se sacrificar. É o que faz com o próprio corpo, adoecendo, pelo irmão pequeno que não fala. O filme de Dietrich Brüggemann é de um rigor perturbador. Utiliza as etapas da via-crúcis de Cristo como capítulos do definhar de Maria. Os alemães vieram com tudo nesta edição e curiosamente voltados a uma crítica que não se estabelece apenas no período do nazismo ou do comunismo no tempo da Alemanha Oriental. Fala mais a hoje, e essa reflexão parece ser urgente.