Cultura

Festival Olhar de Cinema

O primeiro saldo

por Orlando Margarido — publicado 31/05/2014 13h17
Nos dois primeiros dias da competitiva e da paralela Outros Olhares, um ponto positivo em geral na reflexão e na radicalidade

Minhas observações iniciais do que assisti estes dias aqui em Curitiba. Confiram:

A boa surpresa dos argelinos
Na ausência do cinema da  Argélia em nosso circuito, a presença de tres filmes no festival é para se louvar. Dois deles já foram exibidos. Chantier A é o mais interessante e bem elaborado. Há de se interpretar o título,Canteiro A, como uma metáfora da Argélia representada pela diversidade étnica e conflitos entre elas.   O diretor Karim Loualiche, com o apoio dos colegas Tarek Sami e Lucie Deche, documenta seu retorno depois de uma década a vila onde nasceu numa remota paisagem montanhosa  do país. É uma comunidade pobre de origem cabila, um dos povos berberes que habitam a região desértica. Ali ainda está a mãe, a irmã, os familiares e os amigos em geral do filho que partiu para a França.
Sua volta provoca alguns embates pessoais mas também na sociedade local. A época da ocupação francesa e as novas guerras locais estão presentes e são problematizadas pela comunidade que tem uma autonomia secular. Karim vai então ao deserto procurar as raízes paternas entre os tuaregues, o povo nômade. Naquele feitio documental em que os personagens interpretam a si mesmos nascem depoimentos e situações visuais belissimos, dando conta de um mundo ainda primitivo, e justamente por isso genuíno e tocante.
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Essa beleza visual e a busca pela tradição une o filme a  Zanj Revolution em outro contexto, em parte mais urbano e vinculado as lutas políticas da juventude atual. Desta vez é a ficção adotando um tom próximo ao documental ao focar um jornalista de Argel que busca as reminiscências da tal revolução zanj,  povo negro escravo das  regiões hoje do Iraque rebelados no século 9 a dinastia Abassid, de credo islãmico. Batutta, o jornalista,  inicia investigando a existência de moedas daquele povo secular e encontra pistas entre o Líbano e o próprio Iraque. Ao mesmo tempo, conhece uma jovem envolvida na luta contra o governo argelino. Há ainda uma outra história paralela,de empresários americanos arrivistas que buscam um acordo milionário para construir na região. E é nisto que reside um dos problemas do filme de Tariq Teguia, além da duração por demais extensa, ao dispersar seus temas e amarrá-los por um viés frouxo.
Filho diretor, pai árbitro
Curioso, e mais ainda a uma platéia  interessada no futebol, é The Second Game, do romeno Corneliu Porumboiu, dos ótimos A Leste de Bucareste e Polícia, Adjetivo. Sua proposta é simples: revê com o pai um jogo ocorrido em 1988 entre dois grandes times da Romënia, o Dinamo e o Steaua. Nada demais não fosse o senhor Porumboiu o juiz da partida e o fato dela acontecer toda sob intensa nevasca.
O filme é, assim, o registro completo do jogo apenas com os comentários em off de pai e filho, as dificuldades da partida, as regras ainda outras naquele período, que possibilitou um dos craques locais jogar com um sangramento na testa, por exemplo, hoje impensável. Peculiares são as discussões sobre faltas, também sob outro regulamento a época.
É bom lembrar que naquele momento a Romênia ainda estava sob a ditadura comunista de Ceausescu, que cairia e morreria no ano seguinte. Até então os times estavam vinculados ao Estado,  um a policia secreta e outro ao exército, e comenta-se as estratégias frente aos times menores locais, destes serem sempre derrotados por um placar de 2 x 0. Se por vezes o assunto varia de interesse, muito peculiar é o formato de tela escolhido, como o da televisão que afinal serve a dupla, e em outro filtro, o de nós como platéia de um estádio a acompanhar como torcida.
Italiano para imigrantes
Um dos melhores programas exibidos até agora é My Class, ou La Mia Classe, no original  italiano.  O cinema do país, em especial na era Berlusconi, não tem nos dado títulos honrosos ao seu passado, exceções de praxe dos mestres Bellocchio e Moretti, e em menos regularidade de talento, Garrone, Sorrentino e Crialese. O diretor Daniele Gaglione fez um retrato já cru e representativo de uma certa juventude em Ruggine e crava agora numa das chagas atuais da Europa, e talvez mais, da Itália.
A imigração é o contexto de um painel documental ensaiado em que novamente cabe a não atores seus próprios papéis. E eles são imigrantes de diversas origens unidos numa classe para aprender e aperfeiçoar a lingua italiana e assim buscarem melhores chances profissionais. Valerio Mastandrea  é um dos poucos atores profissionais e interpreta o professor dedicado com extremo a esses problemáticos alunos. Problemáticos porque, além das suas questões particulares deixadas para trás em seus países, enfrentam as dificuldades  de integração que sabemos.
O clima se radicaliza quando dois deles não obtêm mais a permissão de permanência, que lhes faculta residir e trabalhar na Itália. Estamos, a principio, diante de uma encenação, mas também sabemos que a realidade é assim. A fronteira entre o real e o encenado se mistura quando a turma cobra do professor, e no limite do diretor, uma solução da crise dos colegas. Vemos todo o tempo o realizador em cena, deixando claro seu dispositivo da recriação, mas também sua limitação com o que o cinema pode fazer sobre o drama. Afinal fazer ou não fazer o filme? Até onde sua discussão teria interferência no problema? Um tanto da complexidade do problema está na parábola sobre o cachorro contada pelo professor, ele também com um dilema sobre sua doença,  em que afagado mas rejeitado por um possível dono, avança a este quando não atendido em seu desejo. Um belo filme a refletir, que não ambiciona solucionar nada.