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O pior Oscar?

por Orlando Margarido — publicado 26/02/2013 00h29, última modificação 26/02/2013 00h29

A cerimônia já avançava para sua metade, ou quase isso, quando comecei a pensar como o Oscar e toda sua pompa associada a um circo midiático é um simulacro do próprio universo de Hollywood, de seu funcionamento. Claro, sabemos, uma engrenagem alimenta a outra, para isso o prêmio também foi feito. Mas de alguns anos para cá ele parece ser mais feito para isso, simplesmente constatar e valorizar o jeito americano de fazer cinema, do que no passado nem tão longínquo. Ainda procurava aprofundar o tema quando vem o anúncio do vencedor de melhor documentário de longa-metragem, Searching for Sugar Man. Não era preciso ter visto todos os cinco concorrentes, afinal inéditos por aqui, para saber pelas apresentações que quatro deles tratavam de temas políticos e, no mais amplo, sociais. O único a correr paralelo foi justamente o vencedor, sobre um músico talentoso desconhecido. Mau sinal? Talvez, pelo que se viu a seguir na premiação principal. Se a Academia procurou contornar já numa categoria secundária temas espinhosos como os confrontos na Palestina e em Israel, isso em filmes diferentes, ou a política de saúde em relação a aids, por certo não iria querer comprar briga mais adiante.
Falo principalmente da polaridade que se criou entre Argo e Lincoln para as categorias principais. A falha da Academia em não indicar Ben Affleck, diretor do primeiro, foi tomada como a justificativa maior para se acreditar na escolha de Argo como melhor filme, que de fato aconteceu. Com isso se abria uma espécie de prêmio de consolação para Spielberg como melhor diretor, o que não se deu. Em seu lugar entrou Ang Lee, com As Aventuras de Pi, um trabalho pensado de entretenimento na técnica, no cinema de fantasia, e só. É difícil achar o fio do novelo de absurdos que se foi formando na cerimônia. Argo tem suas qualidades como narrativa clássica que Hollywood tanto enseja desde que se tornou máquina de encantamento, mas não se equipara a seriedade e elaboração de Lincoln, embora concorde com certa crítica a figura um tanto empertigada do personagem na criação impressionante de Daniel Day-Lewis, este afinal um Oscar correto e merecido. A saída com Argo me parece subterfúgio da Academia no sentido de não compactuar com a proposta de Spielberg em refletir sobre os Estados Unidos atual presidido por um negro através de um momento fundamental da virada social americana, quando o pais abole a escravidão. Também não o fez com Django, de mesmo escopo temático. Por outro lado, veio bem a calhar a história rocambolesca de americanos sequestrados pela revolução iraniana e então resgatados por um infiltrado, contada de forma muito mais palatável e bem-humorada do que a caçada a Bin Laden em A Hora Mais Escura, de Kathryn Bigelow. Este um dos concorrentes mais injustiçados da noite teria ao menos representação relevante se a estatueta de melhor atriz caísse na mão forte de Jessica Chastain, uma espécie de alter ego do que Bigelow impõe como diretora em Hollywood, e não na de Jennifer Lawrence, em atuação corriqueira e sem encanto como a jovem desestruturada de O Lado Bom da Vida. Com uma cerimônia excessiva nas atrações musicais e de humor duvidoso, esta edição cumpre o risco de se tornar uma das piores na história do Oscar.

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