Cultura

47º Festival de Brasília

O pingo que dá nó

por Orlando Margarido — publicado 21/09/2014 13h44
Taciano Valério e o desejo controverso de não oferecer mais o significado

Com Pingo d’Água, Taciano Valério nos dá um nó. A inversão de popular expressão é proposital para começar a tratar de um filme que joga na invertida, quebra os sentidos ou busca quebrá-los e quer mesmo impor o não significado. Essa é a proposta do terceiro longa-metragem da competição exibido para um Cine Brasília que aos poucos foi se dispersando, mas nem tanto se não fosse esta a plateia que é, interessada e aberta a compreender o que vier de mais inquietante da tela. A conversa com a equipe, pelo contrário, exemplificou como esta inquietação se deu no universo mais afeito a cinema, dos profissionais dele ou aqueles que o pensam, como foi notado, e sem a ressonância afinal no espectador, digamos, comum, o que seria valioso. Entre a gente de cinema, portanto, o debate se marcou na tal dualidade entre significado e não significado no filme, e isto não me parece estar atrelado a um vício dos profissionais da área de querer atribuir sentido a tudo, e sim de trazer alguma luz para fora do filme, ou seja, o quanto foi representativo e estimulante entre os realizadores, técnicos e atores. Isso porque Taciano circunscreve o trabalho dentro do que parece ser uma geografia própria, da equipe, com menor e maior volatilidade para que nós possamos dela fazer parte. É um risco que resulta irregular nas partes mas no todo se configura estimulante a reflexão.

A narrativa, já se pode supor, praticamente inexiste, e o filme se ancora em momentos fragmentados nos quais o único aspecto dominante a se impor é a improvisação. Assim, temos a relação do próprio Taciano com seu ator Jean Claude Bernardet, que por sua vez recusará na frente da câmera e em seu apartamento seu papel de crítico e pensador do cinema brasileiro em que foi determinante. Quando o faz, ele já está integrado ao grupo de intérpretes do filme, que se mostra em suas discussões para a atuação e seus dramas pessoais, como o casal que se separa. Em paralelo, esse mesmo ator Bernardet será visto em parceria com Everaldo Pontes como o casal gay que se apresenta com coreografias em vilarejos, num formato igualmente improvisado. Nesses vértices, entre a elaboração do próprio filme e a junção de histórias que se somam no caminho, se dá o todo que me parece muito acoplado a idéia de um esvair, de uma dissipação, seja das relações amorosas, pessoais e artísticas, seja do personagem-ator que se prende a si mesmo numa mala e ali é deixado pelo companheiro. Disse ao realizador que esse foi um caminho inicial que adotei para entrar, como se diz, no filme, mas não é essencial a obra que a todo momento, vale repetir, nos joga para fora.

Esse recurso, e talvez fosse melhor dizer sistema, que pode ter sido involuntário e trazido como alimento ao filme em si conforme alega Taciano, produz faíscas e ficou claro no debate que nem sempre positivas a apreciação. Concorre a um possível bloqueio à proposta do diretor seu discurso nem sempre palatável e aberto a discordâncias, o que é uma opção a quem prefere que a obra determine o entendimento, mas também se arrisca a esvaziar um tanto a reflexão. Por exemplo, baseado em sua formação em psicologia, e nisto reside um diferencial a classe de realizadores, Taciano emprega conceitos como “rizoma”, usado por pensadores como Deleuze, em detrimento do que chama um cinema arborizante, em que o primeiro simboliza a partir do caule que cresce horizontalmente, subterrâneo,um sentido encoberto, enquanto o outro, a se desenvolver na vertical seria o exposto, portanto, o claro e nítido. O que propostas como a de Pingo d’Água nos traz me parece primeiro o incômodo de não se ter fácil uma noção de ser uma verdadeira obra, ou seja, se está bem ou mal fundamentada, e especialmente se tem sentido, significado. Taciano nos tira esse preceito básico da racionalidade, e não dá e nem quer dar nada em troca. Não é convite fácil, e ninguém garante que será quando se propõe a ver um filme. Vale lembrar que parte de uma trilogia chamada do preto-e-branco, Pingo a fecha depois de dois trabalhos de formato, digamos, mais convencional, mas ainda sim provocadores em dimensões diversas. Para quem busca explicações mais diretas para este, convém conhecer os títulos precedentes e notar a função de uma pesquisa mais radical agora.