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O Murnau português

por Orlando Margarido — publicado 15/02/2012 00h07, última modificação 15/02/2012 00h07

Berlim – De volta ao blog depois de dois dias sem dar notícias. E claro que a razão é a programação que se intensificou, não tanto pelo número de filmes que vi, gostaria que fossem mais, mas porque começaram as entrevistas. Tento entrevistar os diretores e atores que tenho interesse em conhecer melhor, de trocar idéias, mas também aqueles que podem ser mais relevantes para Carta Capital. Assim foi com Isabelle Huppert, a estrela no momento de Brillante Mendoza em seu Captive, que vocês poderão ler na próxima edição da revista. Também os irmãos Taviani, que voltaram a dirigir depois de anos parados e estão na competição com Cesare Deve Morrire. Gosto muito do filme e acho incontornável para uma premiação, se este júri encabeçado por Mike Leigh tiver juízo. Aliás, não comentei ainda a formação desse júri, que fez uma coletiva para a imprensa logo no primeiro dia da Berlinale. Devo dizer que não acho uma união muito auspiciosa, no sentido de enxergar ali uma postura que possa contribuir com uma boa discussão para o cinema. Há exceções. Charlotte Gainsbourg, que vocês conhecem dos dois filmes recentes de Lars Von Trier, Anticristo e Melancolia, reputo como uma atriz sensível, inteligente. Mas Barbara Sukova me parece um pouco fora do tempo desde que filmou com Fassbinder, o que François Ozon lembrou durante a conferência. Com Ozon também não tenho preocupações. Mas o que esperar de Jake Gyllenhall, que na entrevista já colocava-se como total seguidor dos desígnios de Lee. E, principalmente, como considerar na votação esse fanfarrão que é Lee. Enfim, aguardemos.
O principal é que a competição anda fraca e foi muito bem-vinda a surpresa, ou nem tanto pois seus filmes anteriores são muito bons, do novo trabalho do português Miguel Gomes. Tabu já designa no nome a forte influência que carrega do diretor alemão Murnau, cujo Tabu é uma das obras primas do cinema silencioso. E como Gomes, que fez Aquele Querido Mês de Agosto, vai de encontro a Murnau¿ Não apenas por realizar toda a segunda parte do filme sem diálogos, ao menos de modo convencional, já que os atores conversam, mas sob a fala de um narrador. Há também, como é comum em seu cinema, um universo fabular para contar a aventura romântica de uma bela jovem na África, num país de colônia portuguesa. O filme começa quando Aurora, outra referência explícita a Murnau, está idosa e dependente de uma criada negra de quem desconfia. Gasta seu dinheiro no cassino e por isso conta com a ajuda de uma vizinha, uma aposentada que se lança em todo tipo de afazeres para passar o tempo, de encontros religiosos a protestos públicos. Ela então recebe a incumbência de procurar um homem por indicação de Aurora, que irá lhe contar o passado, marcado por um casamento e o surgimento de um amante. Gomes, claro, não se atém a uma narrativa tradicional. Perpassa com ironia a questão política também da colonização, da Revolução dos Cravos, período que não viveu e busca entender. Na coletiva hoje, preferiu não assumir uma homenagem ao cinema, mas sim de uma lembrança aqueles que acha que até hoje fizeram bom cinema. Seu repertório é vasto, como se pode constatar em Tabu. Já há quem fale em Urso de Ouro para o filme, mas temo que ele não se encaixe de todo no perfil desse júri. Mas não custa torcer. Amanhã entrevisto Gomes e vamos ver o que ele espera.
No mais, estamos vendo filmes de pouca originalidade na temática e narrativa. L’Enfant d’en Haut é o terceiro francês da competição e pode sugerir um drama interessante de problemática infantil, sobre garoto que vive de roubar esquis e outros acessórios de frequentadores uma estação de inverno na Suíça. Léa Seydoux, que também está em Les Adieux a La Reine, faz sua irmã doidivanas, sem muito pé na realidade e só a procura de diversão. Para manter seus expedientes, o menino faz amizade com um funcionário do hotel que o flagrou. Difícil crer na veracidade desse contexto, sem ninguém a prestar atenção nas atitudes de uma criança. Mas o principal é que falta algo mais potente para justificar sua situação do que um lar desestabilizado.
Um lar também complicado, como quase todos são aliás, é o pensado por Billy Bob Thornton em seu terceiro filme como diretor, Jane Mansfield’s Car. Mas aqui ao menos há humor e algum conflito razoável, ainda que reiterativo de tantos já vistos, quando no Alabama dos anos 60 o chefe de um clã com dinheiro (Robert Duvall) recebe a notícia da morte da mulher que no passado o abandonou e aos filhos por outro homem. Este trata-se de um inglês (John Hurt), que vem aos Estados Unidos com o corpo para ali sepulta-lo. O filme é o encontro desses dois, um tipo grosseiro e espirituoso e outro refinado e discreto, mas também dos filhos de ambos os lados, que vão medir suas diferenças e similaridades, como no caso das guerras em que lutaram, tema de reflexão também. História bem contada, emotiva e simpática, mas pouco encaixada com o espírito mais desbravador de um festival.
Nesse sentido, o terceiro lar em crise nesses dois dias de programação ao menos convoca um tema difícil para se fundamentar. O alemão Home for the Weekend, de Hans Christian Schmid, trata da depressão aguda, talvez do caso de uma maníaca depressiva como os médicos chegaram a diagnosticar. É com a mãe o problema. Ela, num gesto ingênuo, anuncia a família reunida que deixou de tomar os remédios que há anos a mantém segura. Quer o apoio do marido e dos dois filhos, mas eles não estão certos da atitude. A reação terá consequências dolorosas. Mais uma vez, um pouco mais de vitalidade e aprofundamento faria bem ao tom geral do filme, muito frio.
E rapidamente que já é madrugada por aqui, apenas um comentário de que Zhang Yimou trouxe com The Flowers of War um melodrama rasgado que não contraria seu cinema dos últimos tempos. Apenas que a história de garotas chinesas obrigadas a conviver com prostitutas durante a cruel invasão japonesa é tão bem filmada que não senti as mais de duas horas e meia de filme. Soube, inclusive, tirar partido da presença estranha mas bem humorada de Christian Bale, o Batman que aqui parece homenagear um de seus primeiros trabalhos em Império do Sol, de Spielberg, no papel de um preparador de cadáver que toma o lugar de um padre para salvar as jovens. Dizer que é boa diversão soa irônico com tanto sofrimento e morte causado pelos japoneses na China, mas Yimou abre a possibilidade de se rir um pouco e com bom cinema. Até amanhã.

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