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O mestre e o ídolo

por Orlando Margarido — publicado 31/08/2012 17h00, última modificação 31/08/2012 17h00

Veneza – Acabo de chegar da homenagem a Francesco Rosi na Sala Grande, a maior e endereço das sessões oficiais aqui no Lido. Na falta de filmes em competição hoje, uma esquisitice a mais dessa mostra, foi um excelente programa. E que figura do cinema político italiano ainda viva mereceria mais o Leão de Ouro de carreira do que este mestre, premio acompanhado de um emocionado depoimento de Scorsese na tela e uma carta do presidente Giorgio Napolitano? Pensei até que Rosi já havia sido lembrado pelo Festival de Veneza, mas de certo modo que bom que ocorreu só agora homenagea lo e poder testemunhar o momento. Por certo contribuiu a data redonda. Rosi completa 90 anos em novembro. Sente o peso da idade, anda devagar, amparado, mas está lúcio, brincalhão e inteligente. A ponto de lembrar que sempre foi apontado como um diretor em busca da verdade, mas que prefere dizer que é um homem interessado na realidade, que reside um pouco além da verdade. Melhor prova não poderia haver do que seu filme Il Caso Mattei, que vimos antes da cerimonia em copia novinha em folha, restaurado pela instituição tocada por Scorsese, que tanto o admira por outros clássicos como Salvatore Giuliano, Mãos Sobre a Cidade, que se passa em sua Napoles de origem, ou Tres Irmãos. A fita, creio que exibida num ciclo italiano em São Paulo no ano passado, é uma dramatização, com toques documentais, sobre o personagem real Enrico Mattei, administrador público que nos anos 40 e 50 desenvolveu uma nova política de exploração de petróleo após o regime fascista, mas conseguiu em vez disso descobrir gás metano, uma riqueza da Itália tornada oligopolio. Incomodou muita gente, claro, e morreu num acidente aéreo que muito se considerou consequencia de uma sabotagem. Mattei é vivido por um Gian Maria Volontè em estado de graça.

Foi um tanto estranho, até pela coincidência de topar com Scorsese de novo envolvido no tema, rever esse grande Rosi logo depois de uma maratona de Michael Jackson. Mas é a isso que Spike Lee nos submete em seu documentário sobre o ídolo, por certo dele também, chamado Bad 25. São mais de duas horas de clipes, shows, bastidores, depoimentos e imagens raras, provavelmente inéditas para quem não é fã seguidor de Jackson, que cobrem toda sua carreira. E nem se centra tanto no disco título do filme, lançado há exatos 25 anos. Entre cenas como as dele no Jackson Five, turnes como a de Thriller e outras, algumas vão agradar especialmente aos cinéfilos. São aquelas da filmagem do curta-metragem, como o cantor gostava de chamar, e nâo apenas um clipe do álbum em questão. Em grande produçâo, digamos assim, para a época, a filmagem da cena final uma estação de metro, com os famosos passos ensaiados de Jackson, também revelou Wesley Snipes. O filme protege a aurea de superstar, inocente e cativante do cantor, deixando para a midia sensacionalista as noticias das extravagancias do ídolo, e coloca se sempre pronto a desmenti las. Pula para a noticia de sua morte e os lamentos dos amigos. É uma hagiografia. Os fãs vão gostar.

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