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Cultura

O mal, a família e o euro

por Orlando Margarido — publicado 01/09/2013 11h27, última modificação 02/09/2013 09h22
Um conceito começa a se formar na competição, ainda que com filmes ruins ou medianos

Passada a barreira da metade de competição, finalmente surgiu um filme capaz de lançar um bom debate, provocar mesmo. Miss Violence parece comprovar que um cinema interessante se faz empurrado por tempos de crise. E é, como sabemos, uma crise brava o que a Grécia passa no momento conturbado no mercado do euro. O diretor Alexandros Avranas parece estar ligado a essa nova geração do seu país nada marcada por um tom conservador, mas no seu caso ele vai muito mais fundo do que nas histórias de relações humanas dos colegas. Essas existentes, e são escabrosas, para dizer o mínimo. O filme abre com o suicídio de uma menina. No dia de seu aniversário de 11 anos, ela pula da janela as costas de toda a familia, avô, mãe e irmãos. O primeiro lidera o clã com mão autoritária e ha no ar uma certa consternação, um tanto fria para tal tragédia. Ele impõe castigos e ameaças as crianças, bate na neta adolescente e na filha, enquanto tenta se manter num novo emprego depois de tempos sem trabalho. O apartamento, onde praticamente se dá toda a trama, é uma representação do tom doentio do patriarca, organizado e economico ao extremo. Logo saberemos até onde chega essa situação estranha, desequlibrada. Mal dá para dizer que é uma família disfuncional. A coisa toda é ainda mais pesada, envolve dinheiro, sobrevivencia, enfim, o capital em seu mal mais exasperante.

No encontro com a imprensa, o jovem diretor tentou distanciar sua trama, verídica aliás, e segundo ele ainda mais cabeluda, do painel social e economico do país. Não conseguiu convencer muito, e os jornalistas quiseram saber se a visita de inspetores do serviço social que vão conhecer o ambiente onde afinal se deu um suicídio, e nada conseguem entender, nao seria simbolo dos representantes do mercado do euro. Ele diz querer mostrar a crise de valores, e não econômica. Mas é quase impossível não ligar uma a outra.

O fato é que começou a se delinear um tema geral que todo festival dessa magnitude, como Berlim ou Cannes, costuma empreender numa seleção. Ainda que pareça Barbera ter seguido um caminho até mesmo de apelo fácil de violência e perversão, não deixa de ser sintomático aos dias de hoje ter famílias destruídas por questões como violência doméstica, como na exigente e fraca proposta do alemão A Mulher do Policial, a decadência de todos os preceitos morais, a exemplo do americano Joe, o teste limite posto em prática em Via Castellana Bandiera,a perda a força de um integrante, como o filho em Philomena, ou a aparente falta dela, do apoio familiar, no caso de Child of God e Night Moves. Deste, mais um título independente americano concorrente, ainda não comentei. Um trio de jovens numa pequena cidade (entre ele Jesse Eisenberg, de A Rede Social) explode uma barragem num rio próximo para protestar, ao que parece, por sua construção. São movidos por ideais de ecologia. A água acaba por inundar um acampamento de veraneio e causa uma morte. A garota do bando entra em pânico e acaba por falar. Virá daí uma atitude desesperada. Há um bom material para se trabalhar, mas pouca maturidade na direção de Kelly Reichardt. No todo, o filme é previsível. Tem sido o problema em geral desse concurso, e o grego veio sacudir um pouco o marasmo. Por fim, rapidamente pois tenho sessões agora, Parkland é mais uma investigação sobre o assassinato de Kennedy, o presidente. Se não há novidade, claro, no conflito que sabemos, tudo é filmado hora a hora do que ocorreu após o tiro em Dallas, no hospital, e no próprio desfile em carro aberto, quando um comerciante filmou tudo sem querer com sua camera 8 milímetros e se tornou testemunha chave. Também é interessante acompanhar os familiares de Lee Oswald, o assassino, logo também morto. Nunca, pelo que me lembro, se viu sua família assim representada. É uma ficção, e de bom pique. Nada, no entanto, valioso para a competição.