Cultura

Uma tela na areia, brisa e bons filmes. O que precisa mais?

O Gostoso do cinema

por Orlando Margarido — publicado 23/11/2013 20h11

Säo Miguel do Gostoso -- Nao, vocës nao leram errado. A cidade de origem desses e outros posts que virao tem mesmo esse nome peculiar, para dizer o minimo. Ha uma decada que ouço falar dessa paradisiaca, agora confirmo, praia no Rio Grande do Norte, a pouco mais de 100 km de Natal, ali, na pontinha do Brasil. Em boa parte porque aqui se instalou e ainda tem sua pousada o jornalista Emanuel Neri, e desde entao muitos colegas tornaram este seu destino de ferias. Agora descubro que Neri é um gostosense. Sim! É o gentilico para quem nasce por aqui. Nao so ele, mas sua familia descende deste pequeno vilarejo de pescadores agora incrementado pelo turismo, especialmente pelo de esporte (radical?) do kite surf, porque aqui a ventania é pródiga. Neri lançou ontem, inclusive, um livro resgatando a memória da familia. SMG criou alguns epitetos para chamar atençao a suas qualidades e um deles é "aqui se faz gostoso˜. Malicias a parte, meu amigo Eugenio Puppo, um paulista e gostosense de alma, achou que faria bem, gostoso?, a cidade um pouco de cinema e produziu a 1a Mostra de Cinema de SMG, com muita participaçao local. Voces conhecem Puppo das mostras de cinema dedicadas a produçao marginal brasileira. O festival  começou ontem, com uma tela fincada na areia, sob um céu de estrelas (voces ja vao entender o sentido da frase) e uma lua de Sao Jorge onde só se ve  "onde o vento faz a curva", outras dessas expressoes locais.

E a programaçao de abertura trouxe justamente um video realizado por jovens da cidade orientados por Puppo e sua equipe durante um ano. Diversao certa para a comunidade que se via na tela, acompanhando "causos" da tradiçao oral local. Vir a esses pontos tao distantes desse Brasil das grandes metropoles a que nos acostumamos tem de suas surpresas. Ontem foi conhecer, nas apresentaçoes de praxe de autoridades etc, a filha de Camara Cascudo, o historiador de nossas raízes, que nem lembrava ser potiguar. Que coisa! Embora seja uma  senhora com mais de 70 anos, tinha que Cascudo fosse um personagem ainda mais distante no tempo. O trofeu para os vencedores no voto popular leva seu nome.  Puppo se dedicou e reuniu uma boa programaçao de 50 filmes. Ontem foi apresentado o primeiro longa, De Menor, de Caru Alves de Souza, a filha de Tata Amaral (entenderam agora o céu de estrelas?). Ja havia visto o filme na Mostra de Sao Paulo e gostado bastante. É uma estréia e tem suas fraquezas, claro, mas acho trabalho ja bem maduro para a jovem Caru, que ja havia feito ao menos um bom curta.

Rever é sempre bom, e fiquei prestando atençao em algumas questoes levantadas por colegas quando debatemos o filme para o júri Abraccine. Uma delas seria uma fala um tanto dura e declamada da personagem de Rita Batata durante as audiëncias perante o juiz. Rita interpreta uma advogada defensora de menores com problemas de ajuste social, sem familia, ou delinquentes. Faz parte, ate onde sei, o texto empolado e sempre baseado em um modelo juridico dessas ocasioes. Tambem se justifica pela juventude da personagem, sua pouco pratica. Defendi num texto para o blog da Abraccine que ha uma nova safra muito interessante de realizadores afinada com o universo que pretende representar na tela. Caru foi a Santos realizar o filme por la porque, alem de ser a cidade de sua prima que inspirou a historia, preocupou-se com o fato de ser mais plausivel a advogada  defender o irmao adolescente encrencado na mesma defensoria onde trabalha. No mais, seu olhar jovem propicia boa energia e conflito entre os irmaos. Também falei no mesmo texto sobre O Lobo Atrás da Porta, exibido hoje de tarde, de como Fernando Coimbra trabalha bem o genero do suspense a partir do fait divers conhecido da Fera da Penha, a carioca, sem se ater apenas a cronica policial. Gostoso ver essa renovacao do nosso cinema tambem pela via do genero. E hoje, numa sessao maldita, vejam so, a tela da praia recebe o filme de terror Mar Negro, de um nucleo ja conhecido do Espirito Santo. Depois conto mais!