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O fim do festival dos festivais?

por Orlando Margarido — publicado 13/04/2012 20h52, última modificação 13/04/2012 20h54

Caros, cheguei a pouco de uma coletiva de imprensa com Bob Wilson sobre o espetáculo A Última Gravação de Krapp que o diretor americano traz ao Sesc e me deparo com algum atraso com a informação de que a edição do Festival de Paulínia deste ano foi cancelada. Atraso porque na era da informação rápida e virtual a notícia já granjeava por aí desde o final da manhã, quando outra coletiva, desta vez do prefeito da cidade, anunciou a decisão. E por que abro com o evento sobre Wilson, que aliás também atrasou devido a um equívoco do transporte da produção? Mais absurdo, gênero teatral do qual Beckett é um dos maiores representantes, não poderia haver do que essa decisão. A justificativa do alcaide é que o dinheiro gasto com o evento, orçado em cerca de dez milhões de reais segundo o release oficial enviado a imprensa, será repassado às áreas sociais, como saúde e a construção de escolas. O mesmo texto ainda fala em suspensão desta 5ª edição que aconteceria em julho.
Pois bem. Difícil acreditar que se possa interromper uma trajetória desta que é uma das principais, se não a principal, vitrine para o cinema brasileiro e depois retomá-la com o mesmo embalo e importância. Será natural que diretores e produtores se aflijam a partir de agora com a incerteza de Paulínia e busquem, se que há, outros destinos para seus filmes, digo, em termos de festivais. Ninguém nunca escondeu, ou se iludiu, que Paulínia alcançou a notoriedade baseando-se numa política de premiação com altos valores para os padrões do País, e por isso acabou muitas vezes por exagerar no tom da grandiosidade de suas edições. Aos poucos, parecia estar acertando, aparando as pontas, e atraindo público local, ou das cidades em torno, uma das críticas feitas à organização. Não se condene o direito obviamente a quem criou um evento de podá-lo quando quiser. Mas boas iniciativas como Paulínia muitas vezes ganham uma dimensão para além do círculo mais imediatista de interesses. Paulínia ganhou vida própria, atraiu o olhar sobre uma região próspera em outros universos, mas muito deficiente na cultura. Por que não um meio-termo? Um festival mais enxuto, modesto mesmo? Sinal que a suspensão parece irreversível. Há quem aposte, não sem razão, que é o fim de Paulínia, mesmo que neste momento a cartada do prefeito venha de encontro a época de eleições. A ver, mas que está com cara está.
A Abbracine, associação nacional de críticos de cinema da qual faço parte, divulgou uma nota lamentando a atitude. Publico-a a seguir, e continuo em próximo post a falar das mudanças, agora de progresso, do Festival de Recife:

Carta aberta da Abraccine ao Sr. Prefeito de Paulínia, José Pavan Jr.
A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) recebe com muito pesar o comunicado de que o Festival de Cinema de Paulínia não será realizado este ano.
A nota do prefeito José Pavan Jr. afirma que a alocação de recursos destinados ao festival em outras prioridades (saúde, educação, moradias populares) tornou a decisão inevitável.
Como cidadãos, entendemos a construção de moradias populares, e o investimento em educação, saúde e meio ambiente deveriam mesmo ser prioridades constantes de qualquer municipalidade, e não apenas em anos eleitorais.
Já como profissionais de cinema, lamentamos a descontinuidade de um projeto muito bem formatado e de grande repercussão nacional.
Em poucos anos, Paulínia criou um Polo Cinematográfico, uma Escola de Cinema e um festival que se tornaram exemplares. O festival, ora em compasso de espera, era justamente a vitrine de toda essa atividade. Reunia em Paulínia produtores, cineastas, atores e atrizes, jornalistas e críticos de todo o País. Formava público para os filmes brasileiros. Criava empregos na cidade e beneficiava a autoestima dos seus habitantes.

Muitos novos projetos surgiram desses encontros anuais entre profissionais de diversos estados da federação. Foi dessas reuniões, por exemplo, que nasceu a nossa própria instituição, a primeira associação nacional de críticos de cinema, o que faz com que tenhamos carinho especial com Paulínia.

Todo esse patrimônio simbólico corre o risco de se perder, ao sabor de conveniências políticas de momento. Esperemos que a fresta de esperança aberta no comunicado do prefeito resulte na realização do festival em 2013. Mas ressaltamos, desde já, que é perda irreparável o cancelamento da edição de 2012. Eventos importantes firmam sua tradição pela continuidade.

Assinado. Luiz Zanin Oricchio (presidente da Abraccine)